Críticas

O Silêncio do Lago (1988)

“Se quiser saber o que aconteceu com ela, terá que experimentar tudo que ela vivenciou.”

“Se quiser saber o que aconteceu com ela, terá que experimentar tudo que ela vivenciou.”

O Silêncio do Lago
Original:Spoorloos
Ano:1988•País:Holanda, França, Alemanha
Direção:George Sluizer
Roteiro:Tim Krabbé, George Sluizer
Produção:George Sluizer, Anne Lordon
Elenco:Bernard-Pierre Donnadieu, Gene Bervoets, Johanna ter Steege, Gwen Eckhaus, Bernadette Le Saché, Tania Latarjet, Lucille Glenn, Roger Souza, Caroline Appéré

Toda criatura viva morre sozinha.” Essa sentença que a Vovó Morte sussurrou para Donnie Darko, no longa de 2001, representa a sensação aterrorizante proporcionada pelo isolamento no último suspiro. Animais moribundos se distanciam dos demais quando sentem a sombra da foice, mas os humanos sempre optam pelo conforto de uma pessoa querida, nos últimos momentos de vida. Qual maneira de morrer representaria de forma mais assustadora a solidão? A resposta está em vários filmes do gênero, incluindo O Silêncio do Lago, de 1988, dirigido por George Sluizer (1932-2014), a partir de obra e roteiro de Tim Krabbé.

A parceria começou a se desenvolver quando o diretor passou a acompanhar os artigos escritos por Krabbé sobre a produção cinematográfica americana. Assim que ele finalizou seu romance The Golden Egg (1984), ele mostrou ao cineasta que sugeriu mudanças até que encontrassem o modelo perfeito. O autor havia se inspirado numa notícia que leu sobre uma turista francesa que desaparecera em uma parada de ônibus depois de comprar chiclete num posto de gasolina. A polícia a procurou durante dois dias, sem sucesso. Assim que concluiu a obra, dez anos depois, ele resolveu pesquisar sobre o desaparecimento e descobriu que aquela garota havia sido encontrada no terceiro dia – tinha apenas entrado no ônibus errado. Krabbé decidiu até conhecê-la para agradecer pela inspiração na época!

Apesar do roteiro ter sido desenvolvido em conjunto, o resultado final foi um pouco diferente da obra. Mesmo com as alterações necessárias – e que, para o autor, tornou o filme mais confuso -, o longa fez muito sucesso para todos os envolvidos, sendo uma das produções mais bem conceituadas da Holanda. O filme entrou para a lista dos 100 filmes mais assustadores de todos os tempos da revista eletrônica Entertainment Weekly; além de ser uma das obras citadas no livro 1001 Filmes Que Você Deveria Ver Antes de Morrer, de Steven Schneider. Só não teve indicação ao Oscar como filme estrangeiro pelo excesso de diálogos em francês, mas rendeu uma ótima refilmagem em 1993, com elenco americano de estrelas e um final alternativo.

No longa, acompanhamos uma viagem de carro pela França de um jovem casal holandês. Rex (Gene Bervoets) e Saskia (Johanna ter Steege) brincam no carro, com palavras, e conversam sobre sonhos. A garota anda tendo pesadelos em que estava presa em um ovo dourado (referência ao título da obra), flutuando no espaço. Ela conta que recentemente sonhou com uma outra pessoa nas mesmas condições, sendo que o choque entre os ovos poderia indicar “o fim de alguma coisa“. O carro fica sem combustível em um túnel, e Rex a deixa sozinha no local para buscar gasolina para continuar o percurso. Na volta, ele a encontra do lado de fora do túnel, irritada, questionando sobre o quanto a solidão é algo que a incomoda.

Fazem as pazes, enquanto estacionam o veículo em uma parada de caminhões. Saskia vai ao banheiro, e compra cigarro, para depois retornar e conversar com o namorado, momento em que ele promete que nunca vai deixá-la e simboliza a união enterrando duas moedas na base de uma árvore. Então, surge um outro personagem: um homem, de dentro de seu veículo, coloca uma falsa luva ortopédica, emulando uma possível fratura no braço. Saskia retorna à loja de conveniência para comprar bebidas, e não aparece mais. Rex a procura por todos os lados, nos banheiros, mostra uma fotografia da garota, mas não encontra respostas. Em uma fotografia tirada com uma câmera polaroid, ele consegue flagrar a conversa dela com um misterioso sujeito, embora a distância da imagem dificulte uma identificação.

De maneira genial, a narrativa altera de protagonismo. O espectador então passa a acompanhar as ações do sequestrador, Raymond (Bernard-Pierre Donnadieu), pai de família, que está em uma missão pessoal: planejar um rapto. Ele adquire uma casa rural e ensaia os efeitos do clorofórmio, assim como a desculpa que usará para atrair mulheres para seu carro e como envolverá seu pescoço com o braço para o golpe. Ele faz várias tentativas de se aproximar de estranhas, mas todas falham, incluindo uma que o reconhece e percebe sua intenção de conquista.

Passam-se três anos desde o sumiço de Saskia. Rex ainda tenta a todo modo encontrar pistas que mostrem seu paradeiro, espalhando cartazes pela cidade, e conversando com pessoas que possam tê-la encontrado – algo que incomoda sua atual namorada, Lieneke (Gwen Eckhaus). Ele conta que o sequestrador anda trocando mensagens com ele há um tempo; e ele o desafia na TV a uma apresentação, apenas para que ele possa saber o que aconteceu com a namorada sumida. Não tarda e ele ficará cara a cara com o sequestrador, e tentará descobrir o que aconteceu com Saskia, mesmo que a resposta seja uma confirmação de sua morte.

A frieza de Raymond, contrapondo seus gestos familiares de um pai tradicional, é uma das boas ideias da obra de Krabbé. E a desculpa dada às suas ações já são suficientemente perturbadoras, combinando com sua intenção. Também vale menção o comportamento obsessivo de Rex, e a simpatia de Saskia. O trio, auxiliado pelos bons coadjuvantes – como a filha de Raymond e sua dúvida sobre a traição do pai, monta um belíssimo triângulo de relações. É um filme centrado em personagens bem diferentes, cujo encontro explosivo ocasiona o pesadelo do espectador, dando um passo além do simples thriller. Imaginar toda a situação desenvolvida é mais aterrorizante do que qualquer filme de assombração do gênero.

A versão de 1993 é carregada de tensão, mas não é tão apavorante quanto o original. Segue a linha do thriller tradicional, incluindo no jogo um quarto personagem que não tem a menor importância no primeiro filme. Sua boa avaliação se deve especialmente pelo bom elenco escolhido e pela condução narrativa quase que inteiramente linear, mas o final é menos perturbador e mais tradicional no estilo. São dois filmes que se completam, essenciais para uma imersão total na obra de Tim Krabbé.

Com um título brasileiro bem melhor do que o simples The Vanishing – embora o título do livro também seja bem condizente com a proposta -, O Silêncio do Lago deve ter feito muitas pessoas apertarem a mão de seus companheiros ao fim da projeção, para ter certeza que não estão sozinhas. E ainda faz refletir sobre o fim que nos reserva ao término da jornada, torcendo para que a Vovó não tenha razão em sua sentença de morte!

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4 Comentários

  1. Guilherme Schmidt

    Quem foi que escreveu essa crítica? Não é possível que tenha dado cinco caveiras pra essa porra de filme. A única coisa boa no filme é o “vilão”, mas o resto é maçante demais e sem ritmo nenhum. Jesus, posso listar mais os problemas desse filme do que os positivos. Sinceramente, quem ler isso, não olhe, vai perder uma hora e pouca de sua vida. Por favor, essa crítica é totalmente precipitada. Não olhem! Horrível!

    • “Quem foi que escreveu essa crítica?” O nome geralmente aparece no final do texto, mas posso adiantar que a responsabilidade é minha.
      Crítica é questão de opinião a partir de argumentos que sustentem o ponto de vista. Gostei do filme, assim como muitas outras pessoas, como é apresentado nos primeiros parágrafos. Se a minha opinião é divergente da sua, é porque temos gostos diferentes. Ou seja, ninguém tem absoluta razão, embora eu acredite que a tafofobia seja o pior dos pesadelos. Coloque-se no lugar das vítimas e veja como você reagiria numa situação assim. Se é uma situação extrema, imagino que o filme consiga transpor para a tela essa sensação perturbadora. Abraços…

      • David

        Ótimo filme.

    • David

      Precisa crescer amigo, uma opinião alheia te deixa tão afetado à esse ponto?

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