Críticas

O Massacre – The Nail Gun Massacre (1985)

Alta contagem de cadáveres, muita sacanagem e muito sangue. Precisa mais?

O Massacre
Original:The Nail Gun Massacre
Ano:1985•País:EUA
Direção:Bill Leslie, Terry Lofton
Roteiro:Terry Lofton
Produção:Terry Lofton
Elenco:Rocky Patterson, Michelle Meyer, Ron Queen, Diana Bober, Thomas Freylack, Michael Gullins, John Holden, Kim Mathis, Pamela Rene, Martin Smith, Mark Woodcock

Nos primórdios do cinema de horror, facas e facões brilhantes eram as únicas armas brancas utilizadas por assassinos em série para realizar seu serviço sujo – e mesmo assim de forma limpa e higiênica, sem sangue ou mutilações. Felizmente, com o passar do tempo, roteiristas malucos começaram a usar alternativas para a matança. Quase todas as ferramentas domésticas e objetos eletroeletrônicos já foram usados para machucar em filmes de horror. Serras elétricas (O Massacre da Serra Elétrica, Last House on the Left, Pieces), martelos e marretas (Hellraiser, O Massacre da Serra Elétrica), chaves-de-fenda (Dawn of the Dead), cortadores de grama (Fome Animal), chave inglesa (O Massacre da Serra Elétrica), ferramentas diversas (The Tool Box Murders), brocas e furadeiras (The Drill Killer, Slumber Party Massacre), liquidificadores (Fome Animal) e até mesmo geladeiras (A Geladeira Diabólica).

Pois veio justamente do Texas, o Estado americano mais demente, um filme pobre, violento e por isso mesmo extremamente divertido. Depois do Texas Chainsaw Massacre (O Massacre da Serra Elétrica), em 1985 dois diretores tiveram a ideia de juntar uns poucos dólares e fazer seu Texas Nail Gun Massacre, batizado apenas de Nail Gun Massacre, milagrosamente lançado no Brasil pela pequena distribuidora Screen Life – com o título abreviado para O Massacre, talvez porque o tradutor não soubesse o que é uma “nail gun“…

E sabe o que é uma nail gun??? É aquela ferramente parecida com uma pistola que dispara pregos por ar comprimido, usada na construção civil nos Estados Unidos (mas não sei se existe aqui no Brasil). No livro Psicopata Americano, o psicopata Patrick Bateman deita e rola com uma maquininha dessas, pregando uma vítima no chão com mais de 50 pregos em cada mão. No filme Morto ao Chegar, o assassino misterioso quase mata Dennis Quaid e Meg Ryan com uma destas. Mas a única vez em que a “nail gun” foi usada com exclusividade para um massacre foi nesta pérola do cinema exploitation.

É impossível analisar Nail Gun Massacre por outra ótica que não seja a de um filme barato e sensacionalista. Não há história nem surpresas: a produção baratíssima resume-se a entregar ao espectador o que ele poderia esperar de um filme com este título. Ou seja, violentos assassinatos a “pregadas” a cada seis minutos, além de muito sexo e mulheres peladas o tempo inteiro. E são 85 minutos de filme! Alta contagem de cadáveres, muita sacanagem e muito sangue. Precisa mais? Infelizmente, não se fazem mais filmes assim!

Por ter sido realizado com um orçamento irrisório (menos de 300 mil dólares, segundo algumas fontes, sendo que isso não paga nem meio minuto de uma bomba como Tomb Raider) e câmera amadora, Nail Gun Massacre ganha aquele aspecto de “cinema verdade“, ou documentário, semelhante ao do Massacre da Serra Elétrica. Isso dá um ar “nu e cru” ao filme, tornando-o mais chocante do que se tivesse aquela imagem limpinha e perfeita dos filmes atuais.

O filme começa em uma construção na área rural do Texas, onde um bando de operários agarram uma moça e a jogam no chão. Trata-se, obviamente, de um estupro, não encenado com o mesmo realismo de filmes como A Vingança de Jennifer ou Irreversível. Os vagabundos nem tiram a roupa da mocinha, e o diretor prefere os closes no rosto aterrorizado da vítima do que mostrar a brutal agressão em detalhes.

Corta para o meio do mato onde uma figura misteriosa, usando roupa militar, uma arma de pregos e capacete preto de motoqueiro, circula ao redor de uma velha casa de madeira. Não se sabe ao certo quanto tempo se passou desde o estupro (uma semana? um mês? um ano?), mas no final alguém fala que o crime foi cometido seis meses antes.

A misteriosa figura (que obviamente é o assassino do filme, pois está levando uma arma que dispara pregos, e o título é Nail Gun Massacre) entra na casa e encontra um homem que provavelmente foi um dos responsáveis pelo estupro (como a cena foi muito rápida, o espectador nem lembra do rosto dos agressores). Sem nem tempo para a vítima ou o espectador respirarem, a arma de pregos dispara uma, duas, três vezes, “tum-tum“, “tum-tum“, crivando o corpo do pobre coitado de pregos. Um, em particular, prende a mão da vítima à testa! Então, o assassino aproxima-se do cadáver e, com uma gutural voz eletrônica, muito semelhante à de Darth Vader, diz: “As piores dores de cabeça são aquelas no meio dos olhos, não acha?“, seguida por uma risada tétrica. Ah sim: no VHS lançado no Brasil ele não fala bem isso, porque o tradutor das legendas conseguiu mudar todo o sentido das frases, numa das piores traduções de todos os tempos!!!

A partir deste início promissor, é pauleira pura até o final. Já aos oito minutos temos uma cena de nudez. Outro dos operários sai de casa para um serviço de lenhador no meio do bosque, apesar de sua namorada estar nua e implorando por sexo (e a câmera faz questão de mostrar isso com generosos e gratuitos closes nos PERFEITOS seios da moça, que aparece três minutos em cena e está pelada nestes três minutos!!!). Somos ainda brindados com um diálogo deprimente da mocinha: “Mas você prometeu que ia brincar de médico comigo todo dia hoje!” huahuahuahua.

Corta novamente e o idiota (tem que ser para largar uma gostosa daquelas pelada na cama) e um amigo estão no meio do bosque trabalhando. O amigo vai para o meio do mato mijar e, acidentalmente, molha com urina os pés do assassino, que estava espreitando. Este fala, com sua voz de Darth Vader: “You pissed me off!“, algo que traduzido perde o sentido (“Você me deixou furioso!“). Mas é que nos Estados Unidos “piss” é gíria para dar uma mijadinha, entenderam? Tum-tum. Mais uma série de pregos no pobre coitado, que cai com as calças arriadas, mas ainda está vivo, e então o assassino aproxima-se e fala: “Agora vamos conter este vazamento” (mas novamente as legendas em português não dizem nada disso). E adivinhem o que ele faz??? Mete um prego no saco do coitado!!!! Ai, essa deve ter doído!

Resta o idiota que está trabalhando com a motosserra a vinte metros dali. Aquele idiota, lembram, que deixou a mocinha pelada na cama. Pois devia ter ficado brincando de médico. Tum-tum… Pregos cravados nas costas, e o idiota cai com a mão sobre a motosserra, decepando-a, em mais uma cena de gore gratuito. hehehehe. Isso que é filme!!!

E é bem isso! Nail Gun Massacre continua entregando de tempos em tempos seu prometido massacre com a arma de pregos (são mais de dez vítimas, ao todo), além de muita sangreira, piadinhas de humor negro do assassino (aproximando-o de uma espécie de Freddy Krueger dos pobres) e muito sexo e mulheres peladas. Sem qualquer vergonha na cara, a câmera acompanha as cenas de sexo demoradamente, como em determinado momento em que um casal de motoqueiros vai para o meio do bosque transar e o assassino aparece. Pois ao invés de fazer logo o serviço, o matador deixa os dois treparem por mais um longo par de minutos, até “pregar umas ideias” na cabeça do rapaz bem na hora em que ele ia gozar!!! O filme também tem nudez frontal masculina, coisa difícil de acontecer nos filmes americanos.

Complementando o pacote, Nail Gun Massacre ainda diverte o espectador com algumas toneladas de abobrinhas, e não se sabe se são intencionais ou se o roteiro é péssimo mesmo. Por exemplo, os crimes são investigados por um xerife bundão que não conseguiria enxergar o assassino se ele estivesse ao seu lado com a arma de pregos. O homem da lei (que dirige um carro sem identificação da polícia, talvez para deixar mais baratos os custos de produção) é ajudado por um médico (que está sempre de jaqueta jeans, e não com roupa de médico).

Ajudado” em termos, porque tudo que os dois manés fazem o filme inteiro é visitar os locais dos crimes muitas horas depois que o assassino saiu dali. Os dois bobalhões andam e fuçam por tudo, certamente estragando provas e evidências. O médico se limita a encostar nos braços ou cabeça dos cadáveres, sem nem ao menos emitir um laudo técnico. E o pior: após a breve olhada nos mortos, a dupla sempre vai embora… deixando os cadáveres para trás!!! Ou seja, o filme nem ao menos mostra se eles são recolhidos ou deixados na cena do crime para apodrecer!!! hahahahaha

Para melhorar ainda mais a situação, em algumas das cenas de “exame dos cadáveres” o médico avacalha com os efeitos especiais, ao fazer os “pregos” se mexerem do rosto ou torso das vítimas (obviamente são pregos de borracha). Nestas mesmas cenas, às vezes os cadáveres piscam ou respiram. hehehehe.

Mas o que mais impressiona é a completa falta de inteligência dos dois “heróis“. Lá pela metade do filme, quando umas oito pessoas já morreram, uma futura vítima está lendo o jornal e diz: “Puxa, mas todos estes mortos trabalhavam comigo na mesma construção, há alguma coisa de errado nisso“. Isso quem imagina é um caipira bobalhão. Mas o xerife, que teoricamente deveria ser mais inteligente, só chega a esta mesma conclusão meia hora depois!!! hehehehehe.

A cena é até engraçada. Xerife e médico caminham lado a lado quando o policial diz: “As vítimas trabalhavam numa construtora. Estou pensando se isso não tem alguma relação com os assassinatos…“, ao que o médico responde: “Não foi naquela construtora que fulana de tal foi estuprada há seis meses?“. Segue-se uma rápida discussão que encerra mais ou menos assim: “Não, aquela pobre moça não faria uma coisa dessas…“, e a “investigação” continua com os dois jacus simplesmente visitando o local onde os mortos são encontrados!!! Sem interrogar ninguém, sem pedir ajuda ao FBI, sem fazer nada, resumindo!!! Aparentemente, o método de investigação no Texas resume-se a deixar o assassino morrer de velho, ou então cansar de matar. hehehehehehe

O final é simplesmente inacreditável: após descobrirem o assassino por mero acaso, e este ter um destino trágico, o médico declara: “Agora os assassinatos vão parar“. O xerife, burro que nem uma porta, que não investigou nada durante todo o filme e nem sabe o que está fazendo ali, simplesmente dá uma olhada de desconfiança para o amigo e diz: “Será que acabaram mesmo?“. Ou seja, o “herói” é uma anta completa que nem ao menos consegue ver que o vilão do filme, o responsável pelas mortes, está aí morto à sua frente, e é claro que os assassinatos vão parar!!! É impossível não se acabar de tanto dar risada. Para piorar (melhorar?) a situação, alguns personagens que entram em cena simplesmente desaparecem sem maiores explicações!!!

Resumindo: Nail Gun Massacre é um filme muito simples, bobo até. Resume-se a uma seqüência de mortes por disparo de pregos (que se tornam muito repetitivas próximo ao final), mas uma generosa quantidade de sexo e violência, capazes de prender a atenção de qualquer fã do gênero até o final (e são apenas 85 minutos). Quem não se impressionar com a crueza visual e com a sangreira, certamente vai se divertir com as bobagens do roteiro (inclusive a total incapacidade dos mocinhos, como eu já expliquei), e dar umas boas gargalhadas, ainda mais se o filme for visto em turma.

O triste de tudo isso é que filmes pequenos e menos expressivos, como este Nail Gun Massacre, estão fadados a desaparecer do mapa. Nos Estados Unidos, por exemplo, a produção é bem obscura e nunca foi lançada em DVD. Imagine então no Brasil, onde nem mesmo os clássicos estão disponíveis em VHS, quem dirá em DVD (é um verdadeiro milagre que este filme sem qualquer referência tenha saído em vídeo no país). Com isso, o espectador que está sempre procurando por produções esquisitas perde, já que estes filmes estão fadados a desaparecer.

Em tempo, Nail Gun Massacre tinha um tagline muito criativa e que resume bem o espírito do filme, “Mais barato que uma serra elétrica“, o que explicita a relação do filme com seu antecessor The Texas Chainsaw Massacre e também brinca com o fato da produção ter custado uma mixaria. O filme foi dirigido por Bill Leslie e Terry Lofton, que só têm esta única produção em seu currículo. Como em todo filme classe Z que se preze, a dupla teve que se dividir em múltiplas funções: Leslie, além de diretor, foi operador de câmera, enquanto Lofton assina a direção, o roteiro, a coordenação dos dublês, a produção e os efeitos especiais!

Curiosamente, o assassino do filme foi interpretado por três pessoas diferentes, sendo duas delas mulheres. O resultado é um psicopata que em certas cenas é mais alto e encorpado, em outras mais baixo e magrinho. A intenção, obviamente, era confundir o espectador, fazendo-o acreditar que era a mocinha estuprada no início do filme que se vingava. Ou então eram dois assassinos diferentes mesmo, e o “Nail Gun Massacre” teria continuidade em uma seqüência.

Só faltou mais dinheiro para Leslie e Lofton dispararem mais uns pregos em corpos nus. O que dói na alma é ver que estes cineastas cheios de boas ideias acabam morrendo pobres e sem conseguir realizar seus filmes, enquanto ridículos diretores de videoclipes conseguem orçamentos generosos para dirigir remakes criminosos de filmes de sucesso…

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2 Comentários

  1. Anselmo Luiz

    Filme bom é assim dialogos engraçados ou sentidos ,atores canastrões, mortes bizarras ,direção que tenta levar o filme para um lado mais serio mas não consegue e por fim muita mulher pelada e isso que é um trash movie precisa .. nunca assisti e nunca achei esse filme para te-lo em minha Videoteca ,tambem agora nem dá para acha-lo as locadoras de bairros faliram muitos anos ,mesmo assim obrigado por essa diga.

  2. Carlos Dente

    Esses pregadores pneumáticos existem no Brasil, sim, mas os mais modernos não disparam pregos à distância, precisando serem pressionados contra uma superfície para destravarem (como sistema de segurança). Na verdade, nunca vi um que disparasse, como neste filme ou em ‘Aracnofobia’.

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