Horror em pares: os Gêmeos nos Filmes de Terror

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O horror mais incômodo pode vir em pares. Se uma entidade ou criatura, envolta em maldições ou fruto de uma vingança sobrenatural, já é bastante assustadora de se imaginar em ambientes ermos, o que dizer de uma contraparte tão perversa quanto ou ainda mais terrível? O gênero, em todas as suas vertentes, já mostrou exemplares capazes de despontar pesadelos, sejam vivos, mortos ou mortos-vivos. Dentre as mais tradicionais concepções, existem as que trazem diferenças significativas entre eles, como a de um ser bom e o outro ruim, assim como há os gêmeos igualmente perversos, em um horror amplificado pela dupla presença. Também podem figurar em estudos entidades que copiam e substituem o original – como os seres conhecidos como “doppelgänger“, vistos em Nós, por exemplo, ou os alienígenas de O Enigma de Outro Mundo e Invasores de Corpos -, promovendo uma situação de encontro entre as versões sempre aterrorizante.

Aproveitando o financiamento coletivo do body horrorLena – Paixão Sobrenatural“, de J.R.Milici, pela Editora Alarde (ajude-nos aqui), vamos recordar alguns dos gêmeos mais horripilantes do cinema de horror, capazes de fazer Ruth e Raquel parecerem garotinhas mimadas.

11. O gêmeo fantasma quer nascer
Um terror movimentado e com curiosas surpresas, Alma Perdida (The Unborn, 2009), de David S. Goyer, não fez muito sucesso em seu lançamento. Traz o pesadelo vivido por Casey Beldon (Odette Annable) quando começa a ser aterrorizada por um garoto que pode ser seu irmão gêmeo que não nasceu. Outras situações tensas, com a aparição de cães e o mito sobre não permitir que um bebê olhe no espelho, a perseguem até que ela fica sabendo de uma entidade conhecida como “dybbuk“, que acredita que Casey pode ser a chave de entrada para o mundo dos vivos. Mesmo contando com Gary Oldman no elenco, e a produção de Michael Bay, os clichês se sobressaíram na produção e impediram que Jumby tivesse uma oportunidade de nascer como uma produção conceituada do gênero.

10. A Vila dos Gemêos Malditos
Na trilogia das vilas de Takashi Shimizu, vale mencionar aqui a terceira parte, Vila do Medo (Ushikubi Village, 2022), que coloca a adolescente Kanon (Kôki) num mistério depois de descobrir em um vídeo viral uma garota igual a ela. Com a ajuda do amigo Ren (Riku Hagiwara), ela descobre uma comunidade que tinha o costume de sacrificar um dos gêmeos a um deus local e que a garota do vídeo tem relação com o passado de seus pais e sua irmã gêmea Shion. Trata-se de uma adaptação da lenda urbana japonesa conhecida como “Gozu” (ou “cabeça de boi“), com o talento de Shimizu para mostrar crianças com máscaras de bois, gêmeos fantasmagóricos e um ritual macabro. Vale a pena conhecer.

09. Um Gêmeo do Mal ou teríamos sido enganos novamente?
O título nacional do finlandês The Twin, lançado em 2022, traz uma ideia errada de seu conteúdo. Talvez seja a razão pelo baixo interesse nos cinemas, uma vez que não há motivos para você buscar por algo tão clichê quanto ao que se propõe. Mesmo assim, Gêmeo Maligno transborda referências, como uma colcha de retalhos de horror, misturando ideias de muitas outras produções. Rachel (Teresa Palmer) e seu marido perdem o filho Nathan (Tristan Ruggeri) em um acidente de carro e tentam um recomeço. Um local mágico e um desejo fazem com que o pequeno Elliot, gêmeo de Nathan, comece a agir como o irmão, como se estivesse possuído. Conversa com um amigo imaginário e uma suspeita de conspiração na comunidade conectam à mesma ideia de Alma Perdida, de que o gêmeo possa ser um canal de entrada para algo mais aterrorizante. Genérico de filmes diversos, o longa deixa a velha sensação de déjà vu até você descobrir que não é apenas uma sensação: você já viu tudo aquilo antes com outros nomes.

08. Garotas estranhas em um filme que quase ninguém viu
Produção obscura, exibida no SP Terror 2009, Strange Girls acerta na escolha das gêmeas e no tom mórbido de suas ações, mas erra no enredo enfadonho e nos buracos da trama, sem ir além do que se propõe. As gêmeas Virginia (Angela Berliner) e Georgia Gruczechy (Jordana Berliner) vão além do rostos medonhos idênticos; elas se movem simetricamente e não falam, intrigando a polícia pelo rastro de corpos que deixam pelo caminho. Quem faz algo que as incomoda entra para sua lista de futuras vítimas. O problema é que o longa de Rona Mark tem inúmeras falhas e promove risos involuntários nas situações propostas, impedindo o que deveria ser uma bem-vinda repulsa. E se a aparência das moças e a construção são interessantes, o mesmo não se pode dizer das atuações delas, beirando o amadorismo.

07. Os Irmãos Sinclair da cidade de cera
Venha ver a Paris Hilton ser morta.“: essa foi a forma de divulgação desse slasher teen na época de sua realização. Conta ainda com outros rostos conhecidos, como o de Chad Michael Murray, Elisha Cuthbert e Jared Padalecki para apresentar um grupo de jovens tendo problemas pelo caminho numa cidade-fantasma, comandada pelos irmãos gêmeos Bo e Vincent (Brian Van Holt), que herdaram o local usando pessoas de verdade na composição de seus bonecos de cera. Siameses e separados na infância, um deles ficou deformado, mas é o “bonzinho” da trama, enquanto o outro, aparentemente simpático, tem tendências homicidas. Há algumas boas cenas, como a que mostra Cuthbert tendo a boca colada e depois perdendo um dedo da mão, além do destino cruel reservado para o astro de Supernatural. Até diverte, principalmente quando uma certa socialite é morta de maneira violenta!

06. Você não estará sozinho
Sem relação com Espíritos – A Morte está ao seu Lado (Shutter, 2004), o terror tailandês Alone foi lançado por aqui como Espíritos 2: Você Nunca Está Sozinho. Traz as gêmeas xifópagas Pim (Hatairat Egereff) e Ploy (Rutairat Egereff), com suas personalidades diferentes, envolvidas em um relacionamento com o jovem Vee (Namo Tongkumnerd) ao ponto que o ciúmes promove uma cirurgia de separação que culmina com a morte de Ploy. Anos depois, Pim (Marsha Wattanapanich) começa a ser aterrorizada pela irmã morta em episódios que envolvem desde uma respiração-fantasma até aparições no espelho e em outros lugares, conduzindo-a a um psiquiatra. Quando Vee começa a também ver a entidade, uma surpresa envolvendo o passado vem à tona, em uma revelação que pode enganar o infernauta menos atento. Um bom conto com fantasmas perturbados em uma ótima produção.

05. A Vingança de Belial
Irmãos que nasceram grudados, os tais xifópagos, também conhecidos como siameses, Duane (Kevin VanHentenryck) e o grotesco Belial foram separados por cirurgia contra a vontade na infância e agora um deles busca se vingar dos médicos, na bagaceira cult de Frank Henenlotter, Basket Case, lançado em 1982, com mais duas continuações. Vivendo em um cesto e com a proteção de Duane, Belial é a criatura assassina, simbolizando o lado perverso de Duane, enquanto este tenta esconder suas ações violentas e convencer o irmão a não cometer mais crimes. Divertido e com um humor ácido e pessimista, o longa faz parte daquelas produções inesquecíveis dos anos 80 e que você sempre se interessa em revisitar.

04. As crianças maldosas colocam a mamãe estranha para dormir
Terror austríaco de poucos personagens, ambiente único, Boa Noite, Mamãe (ch seh, Ich seh, 2014) apresenta os irmãos Elias (Elias Schwarz) e Lukas (Lukas Schwarz), entre correrias pelos vastos campos que cercam sua morada rural, brincadeiras de garotos ingênuos e curiosos, e muita desconfiança de que sua mãe (Susanne Wuest) possa ter sido trocada após um processo cirúrgico. Assim, cria-se um terror que se inicia psicológico até culminar em um angustiante torture porn, em um mistério com boas surpresas. Co-dirigido por Severin Fiala e Veronika Franz, esse folk horror foi considerado um dos melhores filmes de 2014 tanto que promoveu uma produção gêmea, Boa Noite, Mamãe, de 2022, dirigida por Matt Sobel, tendo no elenco Naomi Watts e os gêmeos Cameron e Nicholas Crovetti. Porém, uma versão gêmea bastante inferior, sem o mesmo impacto narrativo do original e com atuações rasas dos garotos. Opte pelo irmão austríaco.

03. A perturbada mente de um garoto insano
Clássico dos anos 70, com uma trama ousada e violenta, A Inocente Face do Terror (The Other, 1972) mostra um lado terrível da infância dos irmãos Perry, Niles (Chris Udvarnoky) e Holland (Martin Udvarnoky), que serviu de inspiração para Boa Noite, Mamãe e várias produções lançadas depois. Numa região rural, entre brincadeiras inocentes, os irmãos aprenderam um perigoso jogo de projeção astral, com consequências horríveis. Ao passo de tentar impedir que novas tragédias aconteçam, um bebê é sequestrado, com inspiração no caso Lindbergh, resultando na descoberta de uma verdade que parece ter sido enterrada. Adaptação da obra “The Other“, de Thomas Tryon, e com direção de Roberto Mulligan, eis uma obra que certamente figura entre os destaques do período.

02. A dupla personalidade de Jeremy Irons
Os gêmeos Elliot e Beverly Mantle (Jeremy Irons em duas ótimas performances) administram uma clínica de fertilidade, sendo que o primeiro, mais ousado e confiante, seduz mulheres para a curtição de seu irmão, mais tímido e reservado. Quando cria-se uma espécie de triângulo amoroso com o envolvimento da atriz Claire Niveau (Geneviève Bujold), a paixão de Beverly destrói a parceria, como se fosse o instrumento de cirurgia de separação dos irmãos, levando o mais frágil a uma decadência psicológica e vício em medicamentos. Um terror psicológico com a marca body horror de David Cronenberg, Gêmeos – Mórbida Semelhança vai além de um tom dramático para desenvolver a repulsa do espectador através de imagens agressivas de deformidade. Em 2023, foi lançada na Amazon Prime uma nova adaptação do livro de Jack Geasland, desta vez com o duplo papel pertencente à excelente Rachel Weisz.

01. As Gêmeas do Hotel Overlook
Adaptação de obra de Stephen King, que rejeitou essa versão, O Iluminado (The Shining, 1980) é sempre mencionada em qualquer lista de produções fantasmagóricas. Também, são tantos os méritos, seja pela ótima direção de Stanley Kubrick, pela belíssima ambientação gélida ou pela performance magnífica de Jack Nicholson como Jack Torrance, o rapaz que aceita trabalhar como zelador de inverno do imenso Hotel Overlook. Na entrevista, o gerente do hotel, Stuart Ullman (Barry Nelson), diz que o funcionário anterior, Delbert Grady (Philip Stone), enlouqueceu e assassinou suas duas filhas com um machado, depois a esposa, e se suicidou com uma espingarda. Depois descobre-se mais detalhes das meninas, como o fato de uma delas ter tentado incendiar o hotel, já deixando evidências de que mais “iluminados” já tiveram uma passagem por ali. As tais gêmeas, escolhidas pelo próprio Kubrick assim que as viu na audição, são avistadas pelo pequeno Danny (Danny Lloyd), enquanto cruzava os corredores em um triciclo, recebendo o convite para “brincar para sempre” com elas, enquanto frames de uma imagem aterrorizante mostram as duas mortas no mesmo local. As assombrações irão perturbar Jack ao ponto dele também gradualmente evidenciar tons de insanidade, despertados pelo vício em bebida alcóolica. Dentre todas as cenas clássicas, como uma enxurrada sangrenta ou a tentativa de entrada de Jack em um banheiro, sem dúvida alguma a das duas gêmeas no corredor é até hoje a que mais traz arrepios no espectador.

Outros Gêmeos Aterrorizantes
Quando se faz uma pesquisa sobre produções com gêmeos assustadores, a lista é ainda maior do que se imagina. Talvez você se lembre dos cenobitas siameses de Hellraiser IV: Herança Maldita (Hellraiser: Bloodline, 1996), dois seguranças da exposição Configuração dos Lamentos, fundidos pela condição inseparável; e até da dupla interpretação de Sarah Paulson em American Horror Story Freak Show, com cada cabeça representando uma personalidade; e das irmãs do slasher Iniciação (The Initiation, 1984), de Larry Stewart e Peter Crane, e também de Shadow Woods: O Pesadelo (Blood Rage, 1987); e, com certeza, do ótimo Irmãs Diabólicas (Sisters, 1972), com Margot Kidder, Charles Durning, William Finley e Jennifer Salt, e uma das surpresas – desculpe o spoiler – de Maligno (Malignant, 2021), além de produções menores, como o recente Tin & Tina, os gêmeos frios de Sentimentos Mortais (Seconds Apart, 2011) e as assombrações de A Haunting at Silver Falls (2013).

Para encerrar as lembranças, vale mencionar o irmão gêmeo maligno de Bart Simpson, que vivia no sótão no episódio de Halloween de A Casa da Árvore dos Horrores (Treehouse of Horror VII), exibido em 1996. Em “The Thing and I“, Bart e Lisa descobrem um monstro morando na casa, uma situação que não espanta seus pais, obrigando-os a revelar que o garoto tem um irmão gêmeo xifópago chamado Hugo, separado cirurgicamente pelo Dr. Hibbert. Considerado perverso, foi mantido preso no sótão e alimentado com cabeças de peixe. Com o humor característico da série, descobre-se que na verdade Bart era o irmão ruim e que deveria ter sido mantido no lugar de Hugo. Nada que não possa ser corrigido!

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Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

One thought on “Horror em pares: os Gêmeos nos Filmes de Terror

  • 19/02/2024 em 13:42
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    Senti falta do gêmeo parasítico com poderes paranormais do J-horror Evil Dead Trap, mas a lista tá ótima!

    Resposta

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