
![]() O Maldito
Original:Mosquito der Schänder
Ano:1977•País:Suiça Direção:Marijan David Vajda Roteiro:N. Supasi, Mario d'Alcala Produção:Chris D. Nebe Elenco:Werner Pochath, Ellen Umlauf, Birgit Zamulo, Gerhard Ruhnke, Peter Hamm, Charly Hiltl, Hary Olsbauer, Marion Messner, Fred Berhoff, Roswitha Geuther |
por Matheus Ferraz
Um homem surdo mudo, invade um cemitério e arranca da tumba a sua jovem vizinha, morta num acidente, e por quem nutria um amor secreto. Ele tenta acordá-la e fazê-la dançar, como costumava fazer em vida, mas ela está rígida como uma estátua. Finalmente, ele faz um corte na própria mão, espalha o sangue nos lábios mortos dela e os beija, antes de fugir correndo.
Apenas pela descrição desta cena, o leitor sabe o que esperar do filme suiço Mosquito der Schänder (lançado por aqui com o batido título O Maldito). Pois esta produção obscura, feita em 1976 na Suiça pelo cineasta Marijan Vajda pode ser definido como um cruzamento entre Buio Omega, Maniac e Schramm, três filmes posteriores que parecem ter absorvido elementos de O Maldito. Veja bem, o personagem principal (que, como todos os outros no filme, não tem nome) é solitário e tem uma obsessão por sua vizinha, a única que o trata com humanidade (como em Schramm) e vive sozinho, rodeado por bonecas de gesso (semelhante a Maniac, onde o personagem vivia com manequins) e passa seus dias profanando túmulos, chegando a se relacionar com o cadáver de sua amada (o que lembra muito Buio Omega). E, como nos três filmes, o Mosquito (“nome de guerra” do personagem, que vamos usar a partir de agora) é levado à loucura, e se torna um psicopata sanguinário.
Mas, analisando com mais calma, O Maldito tem brilho próprio, e mesmo com uma produção pobre é um filme mais profundo do que se espera, chegando a ser poético em diversos pontos. Não entenda mal, ele não deixa de ser sanguinário, feio e brutal na maior parte do tempo. Mas é capaz de criar uma empatia rara em produções de temática semelhante, mesmo que não escape de ser piegas às vezes.
O Mosquito (Werner Pochath, de Manhunter – O Sequestro e O Gato de Nove Caudas, e que passa o filme todo sem dizer uma palavra), é um homem tímido, funcionário exemplar no escritório onde trabalha, e reside num cortiço, onde mantém seu apartamento pintado de preto e cheio das tais bonecas de gesso. Elas são um símbolo da sua irmã, morta pelo pai alcóolatra quando ainda era criança. Numa flashback perturbador, vemos a garotinha sendo alisada e morta pelo pai, que ainda espanca o jovem Mosquito, que fica lesado a ponto de perder a audição e a fala.
O dia-a-dia do Mosquito não é muito feliz também. É humilhado por todos: os colegas de trabalho (um deles é a cara do Stan Lee!); por uma prostituta das mais barangas que o aborda nas ruas e o manda embora do quarto depois de ver que ele não sabe o que fazer com ela; pelo seu senhorio… Enfim, a única pessoa que parece ter algum carinho pelo coitado é a tal vizinha, que passa os dias escutando música e dançando.
Acompanhamos a rotina miserável do homem, até que ele, sem explicação nenhuma, começa a invadir criptas e mutilar cadáveres frescos. Primeiro, ele apenas esfaqueia um dos corpos. Depois, arranca os globos oculares (o efeito é pobre, mas a visão das pálpebras murchas é repelente) e os guarda num pote. Mais tarde, de posse de um tubo de vidro, ele finalmente se torna um vampiro, bebendo o sangue dos mortos (que, aliás, já deveria estar coagulado).
A transformação do personagem é completamente enigmática, e por isso mesmo tão chocante. Como nunca diz uma palavra sequer, e como suas ações rotineiras são tão mecânicas, nunca é possível imaginar o que ele está pensando ou o que o leva a fazer o que faz. O Mosquito (nome que ele passa a escrever nas cenas de seus crimes) continua vivendo sua vida como sempre, sem se tornar menos ou mais violento, mais ou menos feliz, uma pessoa pior ou melhor. Trabalha, anda em sua lambreta e dá de comer ao rato de estimação. À noite, invade os túmulos e faz o que precisa fazer, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Mas tudo dá uma guinada quando a vizinha morre, despencando do telhado de sua casa enquanto dançava. É só então que a insanidade real atinge o Mosquito: se antes ele parecia completamente à vontade com sua vida degradante, a morte da única pessoa que amava o faz abraçar completamente o seu ódio pela humanidade, e pronto: um assassino está solto nas ruas de Nuremberg!
O roteiro, de um(a) tal N. Supasi, consegue, não se sabe se por inteligência ou acidente, criar um personagem realmente rico e complexo. O Mosquito é simpático, apesar de sua loucura, e o espectador sente um verdadeiro ódio dos seus inimigos. Mas, mesmo assim, há muitos defeitos. Para começar, nunca há uma caça real ao criminoso. Apesar de os crimes do profanador de tumbas ganharem fama nacional, continua sendo a coisa mais fácil do mundo invadir as criptas, que deveriam estar trancadas e vigiadas. Outro problema grave ocorre na cena em que o Mosquito invade uma cripta e assina seu nome antes de se dedicar ao “trabalho”. Eis então que um guarda entra, forçando o invasor a se esconder. Não é que o guarda, que mais do que qualquer um deveria saber sobre o violador de tumbas, simplesmente vê a assinatura ali e ignora, como se não significasse nada? Talvez o diretor Vajda tivesse optado por manter a perseguição ao Mosquito fora da trama (como fez John McNaughton no infinitamente superior Henry: Retrato de um Assassino), mas se fosse assim deveria ter mantido a lei fora do destino do personagem, ao contrário da conclusão utilizada no filme.
Outro ponto do qual muitos reclamam é a figura da vizinha, que chega a ser irritante com sua dança e cantoria. Mas, pessoalmente, considero este exagero na inocência dela um símbolo do que o Mosquito considerava realmente bom neste mundo, o que torna sua morte decisiva na queda de sua sanidade.
Se há uma coisa realmente excepcional, seria mesmo a atuação silenciosa e ainda assim cativante de Pochat (que tem uma certa semelhança com Cristoph Waltz), realmente trágico como o Mosquito. Quanto ao resto de elenco, nada muito relevante, além de ser impossível citar nomes, já que os créditos não informam direito quem interpretou quem.
A antiga fita da United Films (quer curiosamente trazia o trailer de outro filme chamado Mosquito, um trash estralando Gunnar Hansen) é praticamente impossível de encontrar, sendo que só veio parar nas minhas mãos por pura sorte. Mas há cópias em DVD circulando nos EUA e na Grécia, e é possível encontrar versões piratas em sites especializados em filmes raros. Minha recomedação: se tiver a oportunidade, não despreze O Maldito. É um filme que realmente merece uma chance.



