Hellblazer: Origens (1988)

Hellblazer Origens (1988)
Conheça John Constantine
Hellblazer Origens Vol.01 e Vol. 02
Original:Hellblazer 1 a 10 e Swamp Thing 76 a 77
Ano:1988•País:EUA
Páginas:180• Autor:Editora: Panini

A esta altura do campeonato qualquer fã de quadrinhos ou terror já deve ter ouvido falar de John Constantine. Aquele mago filho da puta criado em meados dos anos 80 por outro mago, Alan Moore, durante a sua passagem pelo título do Monstro do Pântano, como um agrado aos seus desenhistas John Totleben e Steve Bissette, que queriam de alguma maneira, desenhar Sting (vocalista e líder da banda Police) em alguma história.

Bom, o personagem cresceu mais do que os criadores poderiam imaginar, ganhou vida própria (alguns diriam literalmente, pois Moore jura de pés juntos ter encontrado o mago em um pub alguns anos atrás) e aquele mago sacana ganhou um título próprio: Hellblazer, título original da revista de Constantine nos EUA, que ajudou a fomentar o que viria a ser o selo Vertigo, responsável pela publicação de histórias adultas da DC Comics.

Constantine deu as caras por aqui pela primeira vez durante a publicação de sua estreia no arco Gótico Americano na revista O Monstro do Pântano da Editora Abril em meados dos anos 90. Após o final do arco que tomaria os oito primeiros números da revista, Constantine teve sua primeira história solo publicada no número 12 de O Monstro do Pântano.

Ali teria início a confusa e, de certa forma ininterrupta, sequência de publicações de Hellblazer no Brasil. A editora Abril lançou por aqui os primeiros seis números da revista original em 1991 e depois pularia trinta e cinco edições para continuar a lançar Hellblazer a partir da edição original nº 41, com o clássico arco Hábitos Perigosos, que daria origem no futuro a um filme, bem meia-boca, que em nada faz jus à história original.

A publicação de Hellblazer no Brasil sempre foi assim, confusa, com números pulados e depois retomados por diversas editoras diferentes ao longo destes mais de vinte anos desde a sua estreia por aqui.

Hellblazer Origens (1988) (2)

E as coisas não davam sinal de melhorar até que a editora Panini Comics assumisse os direitos de publicação da Vertigo no Brasil. Logo de cara a editora fechou o arco deixado em aberto pela sua antecessora, Congelado, e continuou com mais dois encadernados que encerravam a passagem de Brian Azzarello (criador e autor de 100 Balas) pelo título. A Panini ainda lançou dois especiais, Hellblazer: Pandemônio e Hellblazer: Passagens Sombrias, e finalmente, os dois encadernados que são o assunto deste artigo: Hellblazer: Origens Vol. 01 e Vol. 02.

Hellblazer: Origens Vol.01: Pecados Originais (Hellblazer 1 a 6)

As histórias contidas neste primeiro volume estão entre as melhores de Constantine. Melhor que isso, são as histórias que definiram os contornos que o personagem havia apresentado bem de leve em suas aparições na revista do Monstro do Pântano.

É aqui que começamos a perceber que, embora Constantine tenha uma noção do que é certo e errado, ele não se importa em sacrificar quem for preciso por sua “causa”. É aqui que vemos pela primeira vez os fantasmas de seus amigos (todos mortos em alguma tramóia do mago) que o assombram até hoje. O amigo Chas, sempre explorado por Constantine. Também aqui ficamos sabendo que o feiticeiro bastardo possui uma família. E uma família com quem ele se importa muito.

Escrita por Jame Delano (Visões de 2020, Homem Animal) e ilustrada por John Ridgway (Hellraiser), as histórias desse primeiro arco foram produzidas durante um conturbado período na Inglaterra. Não são apenas histórias de terror ficcional, estão recheadas de críticas sociais e políticas. Muitas das coisas que assustavam os eleitores estão ali, nas entrelinhas ou nem tanto, quando vemos os demônios em um mercado de ações de almas corrompidas pelo dinheiro. Delano coloca Constantine em meio a um horror urbano e palpável, que se torna mais palpável graças ao traço rebuscado, quase vitoriano de John Ridgway, ideal para representar a sujeira, em todos os seus níveis, das ruas de Londres daquela época. O consumidor habitual de horror ainda poderá notar referências a filmes de gênero, O Exorcista II, por exemplo.

Hellblazer Origens Vol. 1: Pecados Originais começa com Constantine lutando contra Mnemoth, o demônio da fome, à solta em Nova Iorque graças a uma burrada do seu amigo Lester. Aqui ficamos conhecendo também Papa Meia-Noite, um barão vudu que iria se tornar personagem recorrente na mitologia de Constantine. Depois disso passamos por demônios yuppies negociando almas numa bolsa de valores infernal, fanáticos religiosos, fantasmas de veteranos de guerra (na minha história favorita deste encadernado) e até um hooligan de quatro cabeças, criado por Nergal, o demônio que se revelará importante durante o desenvolvimento da mitologia de Constantine.

Todas as histórias deste arco estão conectadas ao Exército da Danação e aos Cruzados da Ressurreição, os verdadeiros antagonistas de Constantine nestas primeiras histórias e que dão as caras no segundo volume também.

Em meio a tudo isso Delano ainda consegue espaço para falar da fome na África, Aids, preconceito, dominação da mídia, fanatismo e a exploração dos crentes (no sentido daqueles que acreditam em algo) por seitas oportunistas entre outras críticas que aparecem a cada releitura sem parecer pregação ou discurso. O encadernado ainda apresenta alguns textos extras além da galeria de capas originais.

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Hellblazer: Origens Vol.02: Triângulos Infernais (Hellblazer 7 a 10 e Swamp Thing 76 e77)

Delano deixa claro no texto que abre este segundo volume que o mercado de quadrinhos e o ritmo frenético das editoras prejudicaram a qualidade e o andamento de sua passagem pelo título Hellblazer. Pego de calças curtas, Delano é obrigado a inserir no meio de seu arco um pequeno crossover entre Constantine e o Monstro do Pântano que, embora tenha tornado a revista do Monstro, bem mais interessantes, soam deslocadas e atrapalham em Hellblazer.

Com isso, todo o confronto que aguardávamos entre Constantine e Os Cruzados da Ressurreição e o Exército da Danação é resolvido de maneira brusca, bem anticlímax. Sem contar que por problemas no cronograma, a revista sai das mãos hábeis de John Ridgway (que neste volume ilustra somente a primeira história) e passa por desenhistas que obviamente fizeram tudo às pressas.

Triângulos Infernais sem dúvida é mais fraco que Pecados Originais, mas ainda trás seus bons momentos como a primeira história, Fantasmas na Máquina, a única deste volume pela dupla original, que embora soe boba em tempos de conexão banda-larga, redes sociais e Youtube, se aproveitava do mistério do início da informática mais acessível, misturando ficção científica ao horror de Hellblazer quando o amigo de J.C., Ritchie fazendo uma viagem astral dentro do mundo virtual para coletar dados sobre o Exército da Danação e os Cruzados da Ressurreição.

A segunda história resolve de maneira apressada os conflitos que foram construídos tão bem ao longo dos outros números. Fica clara a intenção de acabar logo este arco para que a editora pudesse lucrar com o crossover entre Constantine e o Monstro do Pântano. A maneira como Constantine derrota seus inimigos aqui é aquele tapa na testa com um sonoro “Dãr!!!” mas deixa pontas soltas que serão aproveitadas de maneira melhor em encadernados futuros.

A partir daí começamos a acompanhar o plano “mirabolante” do Monstro do Pântano para dar um hospedeiro digno ao “broto”, o futuro Elemental da terra que irá ocupar o lugar do Monstro. A criatura de musgos possui um relutante Constantine para fecundar Abby, a eterna namorada do Monstro e assim gerar o novo Elemental da terra. Bizarro não? Fica pior quando apenas dois capítulos do crossover todo (que foi publicado por aqui pela Metal Pesado na minissérie em quatro partes O Celestial e o Profano.

Não contentes com a queda brusca da qualidade até aqui, a editora ainda apresenta duas histórias com Constantine revendo seus conceitos e todas as situações que o levaram até aquele momento, em forma astral enquanto o Monstro ainda possuía seu corpo, e depois já de volta, visitando os futuros papais no bayou americano.

Acompanhando a decadência dos roteiros, os artistas fazem jus ao material que receberam para ilustrar e entregam ilustrações apressadas e nada inventivas, destaque para os rabiscos de Richard Piers Rayner, bem distante dos primeiros números a cargo de Ridgway.

O acabamento gráfico escolhido pela Panini é impecável, mesclando o acabamento de luxo (capa cartonada com orelhas) e mais em conta (papel pisa brite no miolo), Hellblazer: Origens trás diversos extras para situar o leitor na saga de Constantine (entrevistas, linha cronológica, fichas de personagens e uma ótima bibliografia do personagem no Brasil). Além disso, foi acertada a decisão em dividir o encadernado original em dois por aqui, reduzindo o preço que poderia afastar eventuais leitores.

A Panini já prometeu uma nova edição para um futuro próximo, dando continuidade à passagem de Jamie Delano pelo título original (que a princípio seguiu até o número 40 da edição americana).

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Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Designer por formação e apaixonado por HQs e Cinema de Horror desde pequeno. Ao contrário do que parece ele é um sujeito normal... a não ser quando é Lua Cheia. Contato: rodrigoramos@bocadoinferno.com.br

6 comentários em “Hellblazer: Origens (1988)

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