Saco de Ossos (2011)

Saco de Ossos (2011)
Cuidado com o Lago!
Saco de Ossos
Original:Bag of Bones
Ano:2011•País:EUA
Direção:Mick Garris
Roteiro:Stephen King, Matt Venne
Produção:Michael Mahoney
Elenco:Pierce Brosnan, Melissa George, Annabeth Gish, Anika Noni Rose, Matt Frewer, Jason Priestley, Caitlin Carmichael, Peter MacNeill, William Schallert, Geordie Brown

Um escritor, passando por um grave trauma psicológico, acaba se envolvendo com um mistério em uma cidade pequena, um local isolado e sua população aparentemente pacata, mas que esconde (ou descobre) um grande segredo… Tudo isso no Maine, evidentemente: este é um tema recorrente nas histórias escritas pelo autor Stephen KingTommyknockers, O Iluminado, Salem’s Lot… São alguns exemplos de livros ou contos que giram em torno de variações deste conceito, sendo considerado para seus detratores o maior dos problemas deste autor.

Sem entrar fundo nesta discussão (afinal, podemos dizer que outros escritores consagrados como Agatha Christie, Tom Clancy e John Grisham também partiam de uma premissa básica em suas criações), creio que seu livro de 1998, Saco de Ossos, é, para mim, o livro que mais expressa esta fórmula. Já faz muito tempo que eu o li, todavia me lembro que apesar de ser uma leitura fluída, acessível e bem agradável (como praticamente todas, aliás), é uma história menor e mediana em comparação aos grandes sucessos de King.

Não é de se impressionar, portanto, que sua adaptação tenha utilizado também um veículo “menor“, a tela pequena, para ser exibida ao público, mais especificamente no formato de minissérie, exibida nos Estados Unidos em duas partes (iniciando dia 11 de dezembro de 2011) pelo canal A&E.

Bons motivos para assisti-lo já começam no pedigree da produção: Saco de Ossos marca o retorno do diretor Mick Garris nas adaptações do autor, talvez o cineasta que mais tenha capturado a essência do trabalho de King em suas obras filmadas, com seu extenso portfólio indo desde as versões de Desespero, Montado na Bala, Dança da Morte até a mini de O Iluminado de 1997. E ganha força com um orçamento grande para um projeto para a TV (15 milhões de dólares) e uma adição de peso no elenco, o ilustre ator irlandês Pierce Brosnan (o quinto 007 do cinema) como protagonista.

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Na história Brosnan interpreta Michael Noonan, escritor famoso e apaixonado pela esposa Jo (Annabeth Gish, Risco Duplo), vendo-a morrer em seus braços após um atropelamento em frente a livraria onde estava lançando um novo livro. Traumatizado, o autor passa a remoer o luto dentro de si e não consegue superar a perda, nem com a ajuda de seu irmão Syd (Matt Frewer, Dança da Morte). As semanas passam e Michael sabendo que Jo estava grávida quando morreu, passa a desconfiar que ela o estava traindo, pois sendo a sua contagem de esperma era baixa o tornaria virtualmente estéril.

Pressionado pelo seu agente Marty (Jason Priestley, o Brandon de Barrados no Baile, irreconhecível) para um novo lançamento, Noonan decide passar um tempo na casa de campo reformada pela esposa, num pequeno vilarejo a beira do lago Dark Score. No refúgio da civilização talvez ele consiga escrever seu livro e descobrir mais sobre a suposta traição da falecida esposa.

É uma típica cidadezinha acolhedora do interior, só que alguns eventos estranhos começam a acontecer para perseguir o escritor, na realidade uma soma de três fatores: pesadelos com crianças sendo afogadas dentro do lago, visões de uma cantora de Blues negra chamada Sara Tidwell (Anika Noni Rose, Dreamgirls), que desapareceu nos anos 40 e a suspeita de que o espírito de Jo está tentando comunicar-se com ele para transmitir uma mensagem e, no topo de tudo isso, Noonan tem um bloqueio criativo e não consegue escrever absolutamente nada.

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Conforme os dias passam e estas aparições se tornam cada vez mais frequentes e vívidas, Noonan, a caminho da cidade, quase atropela uma garotinha em roupa de banho chamada Kyra (Caitlin Carmichael), filha de Mattie (Melissa George, 30 Dias de Noite). O escritor já tinha visto a garotinha em seus sonhos conturbados, entretanto o que ele ainda não sabe é que ela é pivô de uma disputa de custódia entre a mãe e seu avô, o magnata da computação Max Devore (William Schallert, No Calor da Noite), que quer tomar para si a guarda da menina após ela ter matado a tiros o marido e pai da garota durante um surto psicótico em que ele tentava afogar a filha em uma banheira.

O quase atropelamento vira uma arma nas mãos do velho que chama imediatamente uma reunião com o oficial da justiça designado para cuidar da custódia (Julian Richings, Supernatural) a fim de tomar posse da guarda de Kyra. Chamado a depor e avisado para não se meter no caminho do velho, Noonan resolve peitá-lo, coloca em cheque os interesses do oficial e toma o partido da mãe, frustrando o desejo de Max e estreitando o relacionamento com Mattie. Contudo a luta pela custódia não está somente ligada a um desejo egoísta de posse e uma disputa entre mãe e avô, mas ligado a algo muito maior, uma maldição que se abate sobre toda a cidade e que Noonan deverá montar o quebra-cabeças antes que ele mesmo seja abatido por ela.

Como tantas outras histórias de King adaptadas para a TV, Saco de Ossos flui bem lentamente e usa todo o tempo disponível (seus quase 180 minutos de duração sem comerciais) para contar todos os aspectos da trama. Como o livro é grande, o formato escolhido contribui para que seja contada com o máximo de detalhes, o que garante uma adaptação tão fiel quanto possível e dificilmente aconteceria se fosse portado para o cinema, como era da intenção inicial do diretor quando adquiriu os direitos há mais de 5 anos. Contudo mesmo como minissérie é nítido que um pouco mais de tempo, talvez um terceiro episódio teria sido necessário para contar todo o calhamaço com precisão.

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O grande revés é que não tem muito peso, pouco grafismo e suspense moderado. Por exemplo, o terceiro episódio da primeira temporada de Supernatural (Dead in the Water) tem um conceito quase igual e é muito mais impactante. A adaptação escrita por Matt Venne (Espelhos do Medo 2, Luzes do Além) coloca seu foco muito mais na dor da perda de Noonan, nos fantasmas, na investigação da maldição e na queda de braço com o antagonista Devore, do que nos aspectos sobrenaturais em si, parte por imposição da própria rede de televisão, mais conservadora em termos de conteúdo.

Evidentemente que Garris utiliza da forma em que o livro foi escrito para transmitir isso para a tela, ou seja, uma abordagem menos ousada à história e o fechamento meio “piegas” não ajuda muito para melhorar a impressão. Assim, não espere ver redenção e surpresas em uma história que é excelente, mas uma das mais “clichês” de Stephen King. Lembra muito as próprias adaptações de King para a TV na segunda metade dos anos 90, porém é nítido que faltou ao diretor e ao roteirista instigar e envolver mais o espectador, criar pontos de conflito e “cliffhangers” que deixariam o público grudado na poltrona.

O que incômoda também é o subaproveitamento dos personagens secundários: o irmão de Michael, a faxineira e o zelador da cabana, o xerife e o dono da cafeteria, todos eles têm pouca relevância e só aparecem esporadicamente, fazem o que tem que fazer e nunca mais são vistos, tanto que as vezes é preciso puxar da memória para lembrar quem são. Todo o tempo de cena está com Pierce Brosnan, que entrega um Noonan atormentado e dramático na primeira parte, só que quando ele deveria parecer assombrado e até revoltado com tudo o que está a sua volta, ele não consegue esta empatia. Para efeito comparativo, muito mais adequada seria uma interpretação á lá John Cussack em 1408: assustado, temeroso e por isso relutante, todavia instigado pela curiosidade e pela necessidade de salvar sua própria vida.

Em todo caso, mesmo que a minissérie não seja um marco e coloque muito mais valor no aspecto dramático da história que no medo e no suspense é uma boa história de fantasmas, consistente, fluída e, partindo de uma trama tipicamente “Stephenkingiana“, tem momentos suficientemente bons para se tornar um bom passatempo de uma noite chuvosa em frente da TV.

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Gabriel Paixão

Gabriel Paixão

Colaborador e fã de bagaceiras de gosto duvidoso. Um Floydiano de carteirinha que tem em casa estantes repletas de vinis riscados e VHS's embolorados.

Um comentário em “Saco de Ossos (2011)

  • 30/07/2013 em 22:26
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    me deu curiosidade de ver isso agora.

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