Titane (2021)

4.4
(7)

Titane
Original:Titane
Ano:2021•País:França, Bélgica
Direção:Julia Ducournau
Roteiro:Julia Ducournau, Jacques Akchoti, Jean-Christophe Bouzy, Jacques Akchoti
Produção:Jean-Christophe Reymond, Amaury Ovise
Elenco:Vincent Lindon, Agathe Rousselle, Garance Marillier, Laïs Salameh, Mara Cisse, Marin Judas, Diong-Kéba Tacu, Bertrand BonelloMyriem Akheddiou,

Em 2016, Julia Ducournau gerou polêmica nos festivais de cinema, principalmente ao conhecido Festival de Toronto onde teria promovido episódios de desmaios, com Raw. É um daqueles exageros que sempre rondam a Sétima Arte, mas que provavelmente apenas servem para atrair olhares aos distribuidores, até porque ver uma jovem adquirir gosto por carne humana não impressiona desde 1968 nas ações de Karen Cooper. De todo modo, criou-se uma expectativa (quase uma fome, só para aproveitar o trocadilho) sobre o próximo projeto da francesa, com o lançamento de Titane, em 2021. Figurando em muitas listas dos melhores do ano passado – incluindo a minha -, trata-se de uma produção que faz uso com maestria do body horror e pode trazer muito mais incômodo ao espectador do que seu filme anterior. Se não, gera pelo menos estranheza.

Um acidente de carro na infância faz com que os médicos sejam obrigados a completar a lateral do crânio de uma garota com uma placa de titânio. Alexia (a excelente atriz Agathe Rousselle) cresce com uma paixão física por carros, evidente em sua primeira cena quando é vista dançando sensualmente sobre um veículo numa feira de automotores. Incomodada por um fã, ela o beija para logo depois introduzir em sua têmpora uma agulha de cabelo, uma ferramenta essencial para sua jornada como uma inusitada serial killer. Sem que seus pais saibam dessa sua natureza sombria, depois de uma sequência de orgasmo com um veículo (o primeiro “que porra é essa?” do filme), ela percebe que está grávida (eis o segundo).

Vertendo óleo de motor pela vagina (ahn?), ela tenta abortar usando a própria agulha, em uma sequência bem difícil de acompanhar. Sem sucesso, ela continua seu rastro de morte até que uma vítima consegue escapar e seu rosto passa a estampar os noticiários. Para tentar não ser localizada, ela foge de casa e assume a identidade de Adrien Legrand, um garoto que desapareceu sete anos antes. Cabelos cortados, peitos e barriga prensados com fita, ela reencontra o pai de Adrien, Vincent (Vincent Lindon), um chefe de bombeiros que aceita que se trata de seu filho desaparecido sem fazer teste de DNA. Mas a barriga continua crescendo, tal qual a sua vontade de continuar matando; e um jovem bombeiro começa a duvidar de que há algo errado naquele jovem silencioso.

Poderia continuar apresentando outros “que porra é essa?“, uma vez que o roteiro de Ducournau não permite qualquer antecipação do que irá acontecer. Não tem uma história padrão como se pode perceber, e é envolto por diversas sequências incômodas (essa palavra poderia aparecer diversas vezes por aqui) como a do momento em que ela resolve quebrar o próprio nariz. Qualquer outro cineasta faria a cena rápida e discreta, mas Ducournau gosta de regar o sofrimento do público em cenas tão bem realizadas que faz acreditar que aquilo realmente aconteceu. Tudo contribuído por sua câmera pouco tímida, que parece se fortalecer pelo bizarro, pelo esquisito, pelo absurdo.

Não teria os mesmos méritos se não houvesse uma protagonista tão convincente quanto Rousselle. Basicamente sem rir em quase nenhuma cena, ela transfere pelo olhar e pela expressão de frieza tudo o que é necessário para compor o inferno psicológico de sua personagem. Pode-se encontrar simbolismo em dadas ações de Alexia do mesmo modo como estas se definem pelo grotesco. Talvez realmente não precise buscar profundidade ou uma mensagem que trará moralidade ao enredo, mas se beneficiar pelo choque. O horror aqui presente é visceral, é palpável, é angustiante. Não é preciso desmaios do público para mostrar a que veio. Titane é absoluto em sua linguagem crua.

O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 4.4 / 5. Número de votos: 7

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

Marcelo Milici

Professor e crítico de cinema há vinte anos, fundou o site Boca do Inferno, uma das principais referências do gênero fantástico no Brasil. Foi colunista do site Omelete, articulista da revista Amazing e jurado dos festivais Cinefantasy, Espantomania, SP Terror e do sarau da Casa das Rosas. Possui publicações em diversas antologias como “Terra Morta”, Arquivos do Mal”, “Galáxias Ocultas”, “A Hora Morta” e “Insanidade”, além de composições poéticas no livro “A Sociedade dos Poetas Vivos”. É um dos autores da enciclopédia “Medo de Palhaço”, lançado pela editora Évora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.