![]() Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria
Original:If I Had Legs I'd Kick You
Ano:2025•País:EUA Direção:Mary Bronstein Roteiro:Mary Bronstein Produção:Ronald Bronstein, Eli Bush, Richie Doyle, Conor Hannon, Sara Murphy, Ryan Zacarias Elenco:Rose Byrne, Conan O'Brien, Danielle Macdonald, Delaney Quinn, Mary Bronstein, A$AP Rocky, Ivy Wolk, Christian Slater, Mark Stolzenberg, Manu Narayan, Eva Kornet, Ella Beatty, Helen Hong, Daniel Zolghadri |
Tem um grupo de filmes que circula nos últimos anos com a mesma proposta: desconstruir a maternidade como experiência que engole a mulher por inteiro. O Babadook (2014) fez isso pelo horror, e muito bem. A Filha Perdida (2021) fez pela tensão psicológica. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria chega com a mesma ambição, produzido pela A24 e carregando uma origem bastante pessoal: Mary Bronstein escreveu o roteiro enquanto cuidava da própria filha doente, trancada num banheiro de motel em San Diego com uma garrafa de vinho, segundo ela mesma começando a desaparecer. Dá para sentir isso no filme. O que não dá para sentir, pelo menos não aqui, é a urgência chegando do outro lado da tela.
Linda (Rose Byrne) é terapeuta, mãe de uma filha com uma doença gastrointestinal grave, moradora provisória de um motel depois que o teto do apartamento literalmente desaba. O marido (Christian Slater) contribui com a reclamação da própria exaustão. O terapeuta dela, vivido por Conan O’Brien com uma indiferença que é o maior acerto de elenco do filme, não oferece nada. A médica da filha, interpretada pela própria Bronstein, culpa Linda pelo progresso lento da criança. A premissa funciona. O problema é o que o roteiro faz com ela a partir daí, que é basicamente empilhar mais uma coisa em cima da outra sem nunca ir a lugar nenhum. E esse empilhamento acaba traindo a própria ideia do filme: a sobrecarga real não é uma sequência de catástrofes, é o mesmo dia monótono se repetindo até você não aguentar mais. Quando tudo vira absurdo, o cotidiano perde o peso. O filme promete uma ruptura que nunca chega, e termina onde poderia ter começado.
Tecnicamente, a fotografia é do que mais se falou, e entendo a razão, mas acho que o elogio está no lugar errado. Os planos fechadíssimos no rosto de Byrne durante praticamente o filme todo lembram muito o que Aronofsky fez em Mãe! (2017), onde a câmera colada em Jennifer Lawrence criava uma dissociação entre o que ela via e o que o espectador via, com tensão e propósito. Aqui o recurso é ainda mais radical, porém muito menos variado, e em vez de pressionar, sufoca. Junto a isso, a decisão de nunca mostrar o rosto da filha é vendida como escolha corajosa: ao esconder a criança, o filme forçaria o espectador a ficar com Linda. Mas pensa bem: se precisamos ser privados da criança para não desviar a atenção da mãe, o roteiro está admitindo que não confia no próprio poder de nos manter ali. Não há nada que o rosto da filha revelasse. O mistério existe sobre algo que não tem nada a esconder, e isso é uma muleta disfarçada de ousadia.
O som segue a mesma lógica. A voz da filha e os sons da bomba de alimentação aparecem em primeiro plano mesmo quando ela não está em quadro, claramente para criar uma presença avassaladora sem precisar mostrá-la. A intenção é clara. O efeito é artificial. Em vários momentos a voz da criança soa mais alta do que a da própria Linda, que está em primeiro plano visual, com uma qualidade de áudio inserido depois que quebra o naturalismo do resto do filme. O que deveria imergir, distancia.
No meio disso tudo, Rose Byrne parece ter chegado de um filme melhor. A performance é excepcional, crua, sem nenhuma concessão, e o momento em que ela entrega a linha “eu sou uma dessas pessoas que não deveriam ser mãe” é o mais honesto do filme inteiro. Ela constrói uma Linda cheia de contradições que o roteiro às vezes simplifica demais. Byrne merece todo o reconhecimento que recebeu por esse papel. Só fica a sensação de que ela estava pronta pra um material que não chegou a estar.
A comparação com O Babadook me parece a mais útil para entender onde Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria tropeça. Os dois filmes começam do mesmo lugar: a criança como fardo, fonte de um ressentimento que a mãe não consegue nem admitir para si mesma. Em O Babadook, isso é uma estratégia. Nos primeiros atos o filme nos faz genuinamente irritados com o filho de Amelia, e então, sem avisar, sem nenhum golpe de roteiro brusco, vira a chave. A gente se pega torcendo pelo mesmo menino que queria que sumisse, sem que a mãe vire vilã ou o filho vire santo. A relação ganha camadas que reposicionam tudo. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria não faz essa virada. A filha de Linda é, do começo ao fim, só peso: ouvida, mas nunca vista, sentida, mas nunca complexificada. O resultado é que o filme, em vez de retratar a ambivalência da maternidade, aquele espaço complicado onde amor e exaustão vivem juntos, acaba parecendo uma propaganda contra ter filhos. Agora, preciso ser honesto: sou homem e não sou pai, ou seja, sou a antítese da protagonista. É bem possível que quem vive ou viveu isso encontre no filme um espelho que eu simplesmente não tenho como enxergar. Isso importa, e eu não descartaria a experiência de quem sair da sessão sentindo que foi visto.
Mas aí está a questão. Os melhores filmes sobre experiências muito específicas, luto, guerra, migração, criam empatia em quem não viveu nada daquilo. Não precisamos ter perdido um filho para sermos devastados por Manchester à Beira-Mar (2016). O cinema, quando funciona de verdade, dissolve a distância entre o eu e o outro. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria não dissolve essa distância: ele a apresenta como prova de autenticidade. Bronstein viveu o que filmou, e isso se sente. Só que sentir a urgência de quem fez o filme não é a mesma coisa que o filme transmitir essa urgência.






