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A Única Saída
Original:No Other Choice / Eojjeolsuga eobsda
Ano:2025•País:Coreia do Sul, França
Direção:Park Chan-wook
Roteiro:Park Chan-wook, Donald E. Westlake, Lee Kyoung-mi, Don McKellar, Jahye Lee
Produção:Jisun Back, Alexandre Gavras, Michèle Ray-Gavras, Park Chan-wook
Elenco: Lee Byung-hun, Son Ye-jin, Woo Seung Kim, So Yul Choi, Park Hee-soon, Lee Sung-min, eom Hye-ran, Cha Seung-won, Kim Hyung-mook, Woo Jung-won

por Matheus Santos Rangel

Você mataria por um emprego?

No ano de 2025, fui demitido de um emprego estável, e não por ser um funcionário ruim ou coisa do tipo, mas por simplesmente não me enturmar com a turminha da minha chefe. Eu sempre fui um cara mais reservado, preferindo ficar quieto no meu canto, trabalhando numa boa. Nunca deixei de entregar as metas esperadas pela empresa – pelo contrário, sempre fazia mais do que era pedido, na esperança de ser notado e eventualmente subir de cargo. Acontece que a vida, como eu logo descobriria, não é um morango; bem o oposto, na real. Depois de dedicar exaustivas horas ao trabalho, eu estava no olho da rua, com dívidas para pagar e aquele sentimento crescente de ser um completo inútil.

Sem dúvidas, é engraçado notar como esse é um fator relevante na nossa existência: “trabalho”. Por vezes, parece que, sem isso, não somos nada. Sem dinheiro entrando na conta, não temos como pagar o aluguel, a luz ou a água; os cartões de crédito saem do controle e qualquer gasto, até mesmo aqueles necessários para se viver — como comprar alimentos ou itens de higiene básica —, parecem terríveis desperdícios. Na verdade, é assim que eu me sentia: um desperdício de gente.

A sensação de não estar empregado, de ver aqueles que dependem do seu esforço passando necessidades, é algo indescritível. Tenho a sorte de ser casado com uma pessoa incrível, que me apoiou durante todo o processo, mas, no momento em que você se encontra nessa fossa, é difícil notar que, apesar de tudo, pode ser que exista uma luz no fim do túnel. São trevas sem fim, uma apatia eterna que lentamente domina seu coração. Lembro-me de, no mesmo dia em que fui demitido, afirmar: “dá nada, daqui a alguns dias já estou empregado novamente.” Acontece que os dias se tornaram semanas, que viraram meses e que quase completaram 1 ano, quando as coisas finalmente mudaram. Durante todo esse período, eu só conseguia me sentir culpado e ultrajado, pensando em coisas bem terríveis.

E é exatamente sobre isso que A Única Saída, o mais recente filme do lendário diretor Park Chan-wook, discorre. A produção, amplamente elogiada por sua magnífica montagem e poderosa fotografia, aborda questões importantíssimas para os tempos atuais, em que a personalidade do indivíduo parece intrínseca ao seu trabalho. Na atual conjuntura social, damos mais valor à quanto ganhamos no fim do mês do que a qualquer outra coisa. Não importa se gostamos de fazer atividade X ou Y; nossos hobbies ou interesses pessoais se tornam irrisórios frente à verdade incontestável: sem dinheiro, não somos nada.

Diferentemente do personagem Yoo Man-su, vivido pelo excepcional Lee Byung-hun (esse cara é um dos maiores atores em atividade, e não existe discussão), eu não considerei a possibilidade de perseguir meus concorrentes de entrevistas e (literalmente) eliminá-los da competição; não, jamais faria isso. Mas, com toda certeza, pensei (e não uma nem dez, mas mais de cem vezes) em acabar com a minha própria existência.

Engolindo mais cápsulas de remédios do que o recomendado pelo doutor, saltando em direção ao trem que chega à estação (mas odeio tanto atrapalhar os outros que desconsiderei essa logo em seguida), bebendo até atacar a cirrose ou talvez com a clássica fatiada dos pulsos. A corda estava atada em meu pescoço, e havia sido eu quem dera o nó. Acontece que, como tudo na vida, esse período também passou. Hoje estou num emprego em que me sinto infinitamente mais confortável (sou professor de inglês e sim, the book is on the table), escrevo para o Boca do Inferno com certa regularidade (e olha que pensei que os caras do site não iam publicar nenhum texto meu), como e bebo; estou (e, o mais importante, me sinto) vivo.

Assim, quando assisti a A Única Saída, salvo as ressalvas homicidas, me senti na pele do protagonista. Com toda certeza, estar desempregado é um verdadeiro inferno, tanto externamente quanto internamente. Para solucionar seus problemas, Yoo Man-su opta por um caminho sem volta, que lentamente o destrói como indivíduo. A sequência final, com as luzes da fábrica lentamente se apagando enquanto nosso herói, sozinho, opera todo o maquinário, é um dos momentos mais impactantes de todos os tempos. O corte abrupto para árvores sendo devastadas — o progresso obliterando o natural — assombrará, com toda certeza, nossos anos vindouros. A emergência da inteligência artificial ante a empatia humana… aterrorizante!

Sem medo de errar, afirmo: considerando todas as suas características visuais e sonoras, mas, principalmente, seu texto, A Única Saída é, facilmente, o filme mais importante da década. Para mim, em específico, um dos melhores da vida.

Vá assistir. É Park Chan-wook, pelo amor de Deus!

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