![]() Faces da Morte
Original:Faces of Death
Ano:2026•País:EUA Direção:Daniel Goldhaber Roteiro:Daniel Goldhaber, Isa Mazzei Produção:Greg Gilreath, Adam Hendricks, Susan Montford, Don Murphy Elenco:Barbie Ferreira, Dacre Montgomery, Josie Totah, Aaron Holliday, Jermaine Fowler, Charli XCX, Kurt Yue, Ash Maeda, Sam Malone, Tadasay Young |
Nos anos 80, em meio a dúvidas sobre a existência dos snuff movies, a franquia Faces da Morte era a droga dos cinéfilos adolescentes. O compilado de acidentes fatais, execuções e rituais macabros, com uma a voz tétrica do narrador (Vern Stierman), trazia uma sensação crua do mundo, algo mais pesado e de difícil acesso que as prateleira dos filmes pornográficos. Era preciso peregrinar por locadoras pequenas, as de bairro com nomes divertidos, para achar o rosto da caveira na capa e a informação sobre ter sido “banido em 46 países“. Lembro uma vez de ter alugado um dos filmes da série para assistir com amigos em casa, sem a presença dos pais, com o desafio de vê-lo enquanto comíamos Miojo – e eles imaginando que os filhos estariam vendo pornô ou preocupados com alucinógenos! Não era fácil mesmo ver um macaquinho ter a cabeça cortada, o cérebro exposto, para depois seus executores se alimentarem dele; ou uma pessoa sendo devorada por um urso e outra tendo seu fim na cadeira elétrica. Antes de revelarem que era tudo encenação, acreditávamos em tudo, com a mesma curiosidade que muitos passam devagar por acidentes de trânsito para observar corpos ensanguentados. Como diz Arthur Spevak (Dacre Montgomery) em um dos momentos importantes do novo Faces da Morte (Faces of Death, 2026), a intenção era entregar o que o público queria ver.
Desde 2006, há notícias sobre uma refilmagem do original, lançado em 1978. A Rogue Pictures inicialmente esteve por trás até a Legendary Entertainment finalmente assumir as rédeas em 2021. Quem acompanha o gênero não conseguia imaginar o mockumentary sendo refeito, ainda mais depois que foi descoberto que as cenas de morte foram forjadas para a produção da franquia. Na verdade, a “nova versão” de Faces da Morte não é uma refilmagem, tampouco um reboot. Ainda que possa ser vendido como tal, trata-se de um meta-filme, como já foi feito anteriormente com Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras (Book of Shadows: Blair Witch 2, 2000) e até a A Centopeia Humana 2 (The Human Centipede II (Full Sequence), 2011), quando personagens têm consciência que o anterior é apenas um filme.
Assim como esses dois exemplares, a proposta de Faces da Morte é explorar o fascínio pela produção cult. Contudo, o longa é apenas um thriller de serial killer, um que tenta recriar as mortes falsas do longa de 78, e uma jovem tendo que enfrentá-lo antes que outras pessoas sejam vítimas. Ainda que curioso, por prestar homenagem à longa franquia original, o filme teria um impacto maior se fosse mais sujo, sangrento e ousado, se explorasse o gore e a violência, na recriação das cenas. Ter um assassino simpático e a fotografia clara e colorida diminuíram a referência principal, resultando em um filme comum. Parece que a intenção principal do roteiro de Isa Mazzei e Daniel Goldhaber foi fazer uma crítica aos que buscam produzir conteúdos virais, sem se importar com as consequências.
A jovem Margot Romero (Barbie Ferreira) trabalha na avaliação dos vídeos curtos que são compartilhados na plataforma Kino, verificando se devem ser censurados e se são exageradamente falsos, sem conteúdo. Ela mesma é conhecida na internet como a “Garota do Trem“, quando tentou realizar um vídeo de dancinha estúpida com a irmã em um trilho e esta escorregou e foi fatalmente atropelada. Sofrendo de ansiedade social e depressão, Margot aceita um vídeo, provavelmente falso, envolvendo uma narração tétrica com reflexões sobre a morte e uma decapitação, sob a observação de manequins. Quando o mesmo usuário lhe manda um de um rapaz sendo eletrocutado, Margot começa a cismar que aquilo pode ser um exemplo de morte real.
Seu supervisor, Josh (Jermaine Fowler), ignora as suspeitas, o que leva a garota a perguntar em um fórum. É lá que alguém menciona a semelhança com uma cena de Faces da Morte e ainda apresenta uma notícia sobre o desaparecimento do rapaz da cadeira elétrica. Convencida que um assassino está à solta recriando as mortes, não vai demorar para que ela mesma entre no radar do serial killer, correndo o risco de estrelar mais uma cena de refilmagem do mockumentary cult. Suas investigações são alternadas pelo modus operandi do assassino, mostrando como ele escolhe suas vítimas, aprisiona-as em jaulas, antes de finalizá-las diante das câmeras.
A brincadeira de referência funciona bem, principalmente pelo fato do assassino mascarado utilizar a mesma narração das cenas. O que atrapalha uma avaliação melhor é seu terceiro ato, quando ocorre a denúncia para a polícia, e esta ignora completamente o que está sendo dito não fazendo o mínimo que seria investigar o acusado. Levar Margot a precisar produzir provas contra o vilão, sendo que seu testemunho como sobrevivente já no mínimo despertaria a dúvida, é o que ironicamente torna Faces da Morte mais falso que o filme de 78. Ora, a moça tem as provas em vídeo, as mesmas que espalhou no fórum, com comparação entre uma vítima fatal e um desaparecido, e mesmo assim o roteiro quer que acreditemos que a melhor opção seria um novo enfrentamento.
Faces da Morte esbarra em sua concepção trivial, como um thriller à luz do dia envolvendo um assassino obcecado por um longa cult. Deveria ter uma atmosfera mais amadora, uma fotografia acinzentada e perversa, transmitindo uma sensação de claustrofobia e insegurança para a protagonista – um pouco de Dolly já seria suficiente! Nas mãos de um Tom Six, o longa talvez se saísse mais feio e sujo do que o proposto por Daniel Goldhaber. Ainda assim, vale a curiosidade, podendo ser visto com um prato de macarrão instantâneo, sem que isso lhe traga qualquer incômodo.






