![]() The Boroughs
Original:The Boroughs
Ano:2026•País:EUA Direção:Augustine Frizzell, Kyle Patrick Alvarez, Ben Taylor Roteiro:Jeffrey Addiss, Will Matthews, Tom Hanada, Keith Sweet, Jose Molina, James Schamus, Julie Siege, Yona Speidel Produção:Joe Lotito, Jamie Vega Wheeler Elenco:Alfred Molina, Geena Davis, Alfre Woodard, Bill Pullman, Clarke Peters, Denis O'Hare, Carlos Miranda, Jena Malone, Seth Numrich, Alice Kremelberg, Eric Edelstein, Rafael Casal, Jane Kaczmarek, Beth Bailey, Alex Knight, Mousa Hussein Kraish |

Não vou começar com meias palavras: em The Boroughs, o verdadeiro horror não está exatamente nas criaturas que espreitam na escuridão, mas no egoísmo humano e na dificuldade de aceitar o ciclo natural da vida. Envelhecer é o grande terror da série.
Com oito episódios, a produção funciona muito melhor como drama do que como horror propriamente dito. Apesar de começar em ritmo mais lento, quase excessivamente contemplativo nos dois primeiros capítulos, a narrativa encontra força a partir do terceiro episódio, quando o mistério finalmente ganha corpo e a tensão passa a ocupar o centro da trama. Mesmo apostando pouco no sobrenatural, a série entrega momentos genuinamente angustiantes graças à atmosfera de paranoia e ao peso emocional dos personagens.
(Pode conter spoilers)
A trama acompanha um grupo de idosos que precisa se unir para deter uma ameaça extraterrestre em uma comunidade isolada no deserto do Novo México.
Num primeiro momento, The Boroughs parece seguir uma fórmula bastante conhecida: uma comunidade pacata, organizada demais para ser totalmente confiável, onde pequenas anomalias começam lentamente a perturbar a sensação de normalidade. O deserto do Novo México ajuda a construir esse isolamento quase artificial, criando uma atmosfera constante de estranheza, como se aquele lugar existisse ligeiramente deslocado da realidade. Existe um desconforto silencioso naquela perfeição ensolarada, naquela rotina cuidadosamente controlada, como se todos ali estivessem tentando esconder alguma coisa.

Criada por Jeffrey Addiss e Will Matthews (The Dark Crystal: Age of Resistance) e produzida pelos irmãos Duffer (Stranger Things), a série carrega fortes influências do entretenimento fantástico dos anos 80. Há uma clara inspiração em Spielberg na mistura entre aventura, emoção, humor e mistério, especialmente na forma como pessoas comuns são colocadas em situações extraordinárias.
Mas enquanto a ambientação e o drama funcionam muito bem, o mesmo não se aplica à concepção das criaturas, chamadas aqui de “crianças”.
Embora visualmente ameaçadoras em alguns momentos, as entidades acabam parecendo familiares demais dentro do horror contemporâneo. Com pernas longas e aparência aracnídea, lembram vários monstros já vistos recentemente no cinema e na televisão, sem trazer uma identidade realmente marcante. Pior ainda é a falta de clareza na própria lógica visual da ameaça: a figura da “mãe” possui um aspecto humanoide, enquanto as suas “crias” parecem enormes aranhas ou seres tentaculares saídos de outro tipo de imaginário. A série nunca desenvolve muito bem essa diferença, deixando a sensação de que existe uma explicação que talvez tenha ficado subentendida demais, ou simplesmente mal explorada pelo roteiro.
O grande destaque está mesmo no elenco veterano e na química impressionante entre os atores. É uma delícia ver Geena Davis (A Mosca, 1986) brilhando novamente aos 70 anos, interpretando Renee com carisma e vulnerabilidade na medida certa. Ao seu lado, Alfred Molina (A Experiência, 1995) entrega um Sam Cooper rabugento; Alfre Woodard (Annabelle, 2014) dá vida a Judy Daniels, tão firme e ao mesmo tempo, vulnerável; Denis O’Hare (American Horror Stories, 2021/2024 encarna o carismático Wally Baker, um médico que, ironicamente, não encontra cura para a sua própria doença; Clarke Peters (O Mistério de Grace, 2014) surge como o adorável “maluco beleza” Art Daniels; e Bill Pullman (O Grito, 2004), em uma participação breve, porém marcante, como Jack Willard. Juntos, sustentam boa parte da força emocional da série e elevam o material muito acima de sua premissa aparentemente familiar.
E é justamente aí que The Boroughs encontra sua maior força. Apesar das criaturas, o que realmente assusta é a fragilidade da existência humana. A série entende que, caso tenhamos sorte suficiente para envelhecer, inevitavelmente enfrentaremos a perda de autonomia, o esquecimento, as doenças, o luto e a solidão.
Mais do que isso, a produção discute como idosos frequentemente deixam de ser levados a sério simplesmente por causa da idade, mesmo vivendo plenamente sua “nova normalidade”. Essas pessoas continuam sendo indivíduos complexos, cheios de desejos, medos, inteligência e experiência. Ainda assim, são desacreditadas, tratadas como incapazes ou “caducas” — inclusive quando tentam alertar sobre uma ameaça real. Aqui, fantástica, claro, mas simbólica o bastante para dialogar com algo profundamente humano.
No fundo, o maior terror de todos não são os monstros, mas a frieza do mundo. Pessoas que se acham no direito de explorar até a última gota da “criatura”, achando-se mais merecedoras, subjugando-as, ou ainda, a verdade dolorosa de que, quando deixamos de ser vistos como necessários, perdemos o nosso valor, sem termos a oportunidade de demonstrar que ainda temos muito a oferecer, só que de maneiras diferentes. Vivemos muito mais, porém não há uma preocupação da sociedade em adaptar seus interesses para que possa haver uma continuidade da vida útil depois de uma certa idade.
Recomendo The Boroughs muito mais pelo drama, pelas atuações impecáveis e pela sensibilidade com que aborda o envelhecimento do que pelo horror sobrenatural em si. Para os infernautas mais calejados, as criaturas dificilmente trazem algo realmente novo. Mas o que fica, quando os créditos sobem, não é a imagem dos monstros, e sim a sensação incômoda de que o verdadeiro terror pode ser simplesmente continuar existindo em um mundo que não vê mais razão em olhar para você.



