![]() Nós Já Moramos Aqui
Original:We Used to Live Here Ano:2025•País:Canadá Autor:Marcus Kliewer•Editora: Intrínseca |
Nos últimos anos, o conceito de espaços liminares se popularizou, especialmente em fóruns virtuais. Lugares comuns e conhecidos, porém vazios, que causam uma sensação constante de desconforto, como se tivéssemos passado por uma fronteira invisível e agora fazemos parte de um lugar diferente, descolados da realidade. É uma ideia que causa um grande temor, mas também fascinação. Nesse artigo você, Infernauta, pode se aprofundar mais sobre o assunto caso tenha ficado interessado.
Um grande exemplo de espaço liminar são justamente as Backrooms mas, apesar de ser um dos mais famosos atualmente, temos diversas obras e produções que usam espaços de transição e realidades alternativas, no chamado horror liminar. Em 2004 foi lançado o jogo Silent Hill 4: The Room, onde o personagem Henry Townshshend está preso dentro de seu apartamento, sem conseguir abrir portas ou janelas. Eventualmente, Henry passa por um buraco na parede e começa a acessar outros lugares, versões distorcidas do que ele já conhecia. No jogo Exit 8 (que também ganhou uma adaptação para os cinemas), a passagem subterrânea do metrô não leva a lugar algum, sempre se repetindo, com pequenas anomalias que te deixam preso ali. A obra A Casa de Folhas mostra uma casa que muda e se expande constantemente, sendo impossível mapeá-la; ainda na literatura temos também Horrorstör, de Grady Hendrix, Aniquilação, de Jeff VanderMeer, Piranesi, de Susanna Clarke e, dentre diversos outros títulos, um dos mais recentes é Nós Já Moramos Aqui, de Marcus Kliewer.
Eve e sua companheira, Charlie, ganham a vida comprando imóveis desvalorizados e, após reformá-los, revendem a um custo mais alto. Foi assim que adquiriram uma propriedade antiga a um excelente preço, mas um tanto isolada da sociedade. Um dia, sozinha em casa desencaixotando as coisas para dar início à reforma, Eve é surpreendida por uma visita inesperada de uma família de cinco pessoas. O homem, Thomas, afirma que estavam passando por ali e decidiu tentar a sorte de ver a casa na qual cresceu, a casa que agora é de Eve, para mostrar aos seus três filhos e esposa. A intenção parece inocente, a família não parece perigosa, mas uma mulher sozinha em casa recebendo desconhecidos sempre acende um sinal de alerta, ainda mais em um lugar isolado daqueles. Após muita hesitação, a moça decide deixá-los ver a casa por alguns minutos apenas, e Thomas prontamente concorda que não vai levar mais do que quinze minutos. Assim que a família entra, não demora a acontecer uma série de infortúnios, como a filha caçula resolver brincar de esconde-esconde e sumir por um bom tempo, uma aparição no porão que deixa Eve desconcertada e, além de tudo, uma nevasca que deixa as rodovias fechadas, fazendo com que a família não tenha escolha a não ser ficar ali por mais algumas horas. Cada vez mais perturbada com a situação, com a família se comportando de uma maneira estranha e sem intenção de ir embora e com uma crescente sensação de irrealidade, a nova moradora começa a se sentir como uma desconhecida dentro da própria casa que, para piorar, parece estar se transformando aos poucos e só ela parece perceber.
Eve é uma personagem introvertida, com um enorme receio de parecer desagradável, então mesmo não querendo aquela família ali, não consegue expulsá-los imediatamente, fazendo com que a situação fique ainda mais absurda devido aos acontecimentos bizarros que se seguem após sua permissão para entrarem em casa. Tal qual o filme Speak no Evil, é a passividade inicial da protagonista que desencadeia muitas das desgraças vindouras. Mesmo assim, é muito fácil nos conectarmos com ela, sentimos a angústia e desespero de Eve, com uma atmosfera de tensão transmitida desde a primeira página, mesmo que teoricamente ainda não tenha acontecido nada demais.
Com o passar dos capítulos, a narrativa vai ficando cada vez mais sufocante. Sabemos que algo estranho está acontecendo desde o início, que tem algo errado com aquela família, mas não sabemos apontar exatamente o que é, e isso deixa o leitor desesperado por respostas, por uma resolução, para que aquela família vá embora de uma vez por todas. Kliewer transforma algo banal, como ir dormir, em uma verdadeira noite de horror sem que nada de incomum esteja de fato acontecendo. Ao menos para os outros, já para Eve, o mundo parece distorcido desde que Thomas se apresentou, com a realidade que ela conhece se modificando a cada vez que ele conta um pouco mais sobre seu passado.
Em dado momento, não sabemos se estamos lidando com vozes da cabeça da protagonista, com realidades alternativas e espaços liminares, com algo sobrenatural e possessão, ou até mesmo com tudo isso de uma vez só. E isso é uma das coisas que torna a leitura tão intrigante. Estamos dentro da cabeça de Eve ao mesmo tempo que questionamos suas decisões. Cada vez mais perguntas vão aparecendo, o clima constantemente tenso, até que algumas peças vão se encaixando e começamos a compreender o que pode estar acontecendo. Mas será que está mesmo? Alguma peça parece sempre estar faltando, ou não encaixando da forma que deveria. Essa é uma dúvida constante, e o desfecho dúbio faz com que cada um crie sua própria teoria, e existe um motivo para isso.
A história de Nós Já Moramos Aqui nasceu de um fórum virtual, tal qual as Backrooms, e como de costume nesses fóruns, cada um tira suas próprias conclusões e cria suas teorias mirabolantes. Marcus Kliewer postou um conto no fórum NoSleep do reddit e logo conquistou fãs ávidos por mais momentos assustadores e perturbadores, e assim surgiu seu primeiro livro. O sucesso foi tanto que a Netflix adquiriu os direitos para uma adaptação, ainda sem data de estreia, que conta com Blake Lively no elenco e na produção.
Uma visita inconveniente e desconfortável se transforma em questionamentos sobre a própria sanidade e percepção. O que estou vendo é real? Aquela janela já era assim? De onde surgiu aquele corredor no porão? Sendo uma excelente estreia do autor, Nós Já Moramos Aqui é um ótimo exemplo de horror liminar, e muitíssimo bem trabalhado por Kliewer, nublando os limites do que acreditamos ser real. Até mesmo o título é passível de discussão após finalizar o livro. Se você gosta da possibilidade de múltiplas interpretações, criar teorias e finais que não entregam respostas diretas, definitivamente essa leitura vai ocupar alguns espaços – e talvez criar ramificações, quem sabe até mesmo cruzar fronteiras – na sua mente.



