4.4
(5)

Hobo With A Shotgun
Original:Hobo With A Shotgun
Ano:2011•País:EUA
Direção:Jason Eisener
Roteiro:Jason Eisener, John Davies, Rob Cotterill
Produção:Frank Siracusa, Niv Fichman, Paul Gross e Rob Cotterill
Elenco:Agnes M. Laan, Brian Downey, Drew O'Hara, Duane Patterson, Glen Matthews, Jeremy Akerman, Michael Ray Fox, Nick Bateman, Robb Wells e Rutger Hauer

Grindhouses – assim ficaram conhecidas, na década de 60/70, sessões de cinema que exibiam produções “vagabundas”, na maioria das vezes em promoções ao estilo “assista dois filmes pelo preço de um”. Eram principalmente os chamados exploitations (ver excelente artigo do Gabriel Paixão sobre o assunto – Um Pesadelo Americano: A História do Exploitation), películas de qualidade muito duvidosa que exploravam – e quando digo exploravam, digo “exploravam mesmo” – temas tabus e inaceitáveis como sexo, drogas ou violência extrema. Sensacionalistas, bizarros, perversos, de péssimo gosto, mas muito divertidos – filmes B de horror, kung fu, de ação, faroestes ou mesmo de sexo explícito.

Eis que, algumas décadas depois, a dupla Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios) e Robert Rodriguez (Sin City) resolvem prestar o que seria uma grande homenagem ao estilo Grindhouse – se bem que os dois cineastas já vinham flertando com o “gênero” há um bom tempo (basta lembrarmos de El Mariachi e Kill Bill). Contudo, o novo projeto dos cineastas era um tanto ambicioso: a projeção seria um Double Bill, ou seja, uma sessão dupla com dois filmes, que seriam ainda intercalados por uma série de trailers falsos dirigidos por alguns cineastas convidados. O resultado foi À Prova de Morte, road movie dirigido por Tarantino e Planeta do Terror, uma mistura de filmes de ação e zumbis orquestrado por Rodriguez. Quatro trailers fictícios foram rodados por nomes respeitados: Thanksgiving (de Eli Roth, amigo de Tarantino e diretor de O Albergue), Don’t (de Edgar Wright, criador de Todo Mundo Quase Morto), Werewolf Wolf of The S.S. (do famigerado Rob Zombie, de Rejeitados do Diabo) e Machete (dirigido pelo próprio Rodriguez). No entanto, percalços estratégicos e uma bilheteria pouco estimulante em solo americano impediram que À Prova de Morte, Planeta Terror e os falsos trailers fossem exibidos numa única projeção em salas fora dos Estados Unidos. No Brasil os filmes estrearam com grande atraso e em circuito restrito – e mesmo tendo agradado aos fãs do gênero, passaram despercebido do grande público.

Entretanto, mesmo que o projeto Grindhouse da dupla Tarantino/Rodriguez não tenha vingado o sucesso comercial esperado, a ideia de um revival dos “lados B cinematográficos” rendeu muito. O que era um trailer falso acabou como o primeiro spin-off oficial do projeto: Machete foi dirigido pelo próprio Robert Rodriguez e estreou em 2010. Outros filhos bastardos pipocaram no cinema ou em produções diretas para o vídeo, como o blacksploitation Black Dynamite (2009), os absurdos Run! Bitch Run! (2009) e Freiras Nuas Com Armas Grandes (2010) e até mesmo o primo rico Fúria Sobre Rodas (2010), estrelado pelo Nicolas Cage. O mais recente rebento oficial de Grindhouse – e o que mais nos interessa – é Hobo With A Shotgun ou Um Mendigo Com Uma Escopeta, se preferirem abrasileirar o título.

Assim como Machete, Hobo também nasceu de um trailer falso – no caso o trailer vencedor de um concurso criado por Robert Rodriguez na ocasião do lançamento de Grindhouse no SXSW Film Festival de 2007. Os participantes, amadores ou não, tinham apenas três semanas para enviar um trailer aos moldes de Grindhouse. O prêmio seria participar da exibição de estreia da produção no festival, com a possibilidade de ser incluído nas cópias americanas da produção. Hobo With A Shotgun, o trabalho vencedor dos canadenses Jason Eisener, John Davies e Rob Cotteril foi exibido apenas no festival, o que não impediu que o trailer tivesse a exposição midiática necessária, cair no gosto do público e ainda ser cogitado a transformar-se num longa pelo próprio Robert Rodriguez.

Três anos depois, em janeiro de 2011, o longa Hobo With A Shotgun tem o seu pré-debut no festival de Sundance, onde, apesar das esperadas críticas à violência excessiva, é muito bem recebido; alguns meses após, surpreendendo a todos, o filme é disponibilizado via VOD (video on demand), o que não excluiu também uma estreia tradicional, agendada para 6 de Maio do mesmo ano.

Contudo o movimento dos trailers falsos não termina por aí. Um novo concurso foi criado recentemente em comemoração ao lançamento de Hobo. Desta vez, o trailer ganhador, Van Gore, de Keith Hodder, e Jerrad Pulham, teve garantido a inclusão nos extras do DVD/Blu Ray de Hobo With A Shotgun, lançado em 2011.

O Enredo

O roteiro, escrito pelo mesmo trio do “trailer falso original” – Jason Eisener, John Davies e Rob Cotteril – usa e abusa de situações clichês de um action exploitation, subgênero cinematográfico que proliferou pelas prateleiras de VHS nos anos 80. Eram produções baratas e excessivamente violentas que tratavam, na maioria das vezes, de uma vingança pessoal. Em Hobo With A Shotgun, um andarilho canadense (Hobo – abreviatura de homeward bound) chega a uma cidade dominada pelo caos e a violência. Não somente o crime organizado, mas a própria polícia é controlada por um asqueroso vilão chamado Drake e seus dois filhos, os playboys com tendências infanticidas Ivan e Slick. São personagens afetadas e caricatas – não, isso não é necessariamente uma crítica, já que eles são um dos destaques positivos da produção – extraídas de um universo pós-apocalíptico típico de produções baratas dos idos anos 80.

Como todos podem imaginar, o roteiro não é muito sofisticado, nem carrega qualquer mensagem que vá alterar a vida do espectador, mas, pra surpresa dos mais céticos, traz sim um pequeno alerta: como ficar inerte diante tanta violência? Nosso mendigo protagonista não consegue ignorar o mundo em degradação no qual está imerso: drogas, assassinatos, estupros, pedofilia e todo quanto é tipo de sadismo. Se bem que sua solução pode levantar algumas polêmicas… afinal nosso herói sem-teto mergulha numa jornada sem volta de violência e vingança. Com uma espingarda na mão, ele estoura os miolos e arranca os intestinos dos os criminosos que encontra pela frente.
Obviamente não há reviravoltas ou grandes revelações no desenrolar da trama, apenas violência desenfreada, enquanto Hobo tenta realizar a tarefa humanamente impossível de limpar a cidade da criminalidade… o que inclui explodir a cabeça de pedófilos vestidos de Papai Noel. Contudo o filme ainda reserva uma boa surpresa para o final: a dupla de vilões medievais denominada The Plague – dois assassinos equipados com armaduras e apetrechos de tortura como ganchos, cordas e espadas.

O Elenco

O papel do vigilante sem teto (que no trailer era do desconhecido David Brunt) cai como uma luva em Rutger Hauer – quase como uma reverência ao ator, que construiu uma respeitada carreira na década de 80 (Blade Runner – O Caçador de Andróides, Ladyhawke – O Feitiço de Áquila, Conquista Sangrenta, A Morte Pede Carona e Os Falcões da Noite). E Hauer não decepciona, seu personagem passeia com competência entre o sem teto indignado ao vingador enfurecido. Hobo deve marcar a “volta” do ator a papeis de destaque – vale lembrar que ele interpreta Abraham Van Helsing na nova adaptação de Drácula, dirigida pelo italiano Dario Argento, lançado em 2012. Outra interpretação que impressiona, mesmo que exagerada, é a do canadense Brian Downey. Seu personagem Drake, um vilão alucinado e memorável ao estilo de Frank Booth (Dennis Hopper) em Veludo Azul.

Violência Desmedida

Não vamos aqui descrever todas as passagens violentas do filme, pois este não é nosso objetivo e esta tarefa seria por si só muito extensa (vejam o filme, é bem mais interessante). Porém, alguns momentos merecem ser destacados. O primeiro deles é o triste fim do Papai Noel pedófilo com os miolos estourados; outro episódio que pode incomodar alguns é quando a dupla Ivan e Slick incendeiam com um lança-chamas um ônibus escolar, matando uma dezenas de crianças; outra menção honrosa é para a mão da heroína devorada por um cortador de gramas. E a carnificina segue, para delírio dos apreciadores do gênero, com tripas e intestinos a mostra, mãos e pés destroçados, mutilações, fraturas expostas, decapitações… Numa destas cenas, o espectador mais antenado pode identificar uma pequena homenagem (a roupa de patinação no gelo dos irmãos infanticidas) ao controverso Ichi – The Killer, de Takashi Miike.

Avaliação final

Direção segura e aprovada dos nossos amigos canadenses e estreantes, edição rápida e fotografia saturada convincentes ao tentar aproximar o visual de uma produção barata, bons efeitos de maquiagem (nada de sangue digital), trilha sonora a la John Carpenter… enfim, Hobo With A Shotgun cumpre com extrema eficiência tudo o que promete: violência gratuita, gore exagerado, personagens amalucados e muita diversão. Bom, há uma pequena reclamaçãozinha: faltou um pouco de nudez (todos que vivenciaram a época de ouro dos exploitations sabe que “mulher pelada” sempre foi um elemento indispensável nas produções do gênero)… agora é só esperarmos pelos novos Grindhouses, quem sabe Don’t, Thanksgiving ou Werewolf Women of the SS? Aguardaremos ansiosos.

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2 Comentários

  1. Como consigo adquirir o filme para assistir?

    abraços

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