Álvares de Azevedo: A Sombra de Byron no Brasil

Alvares de Azevedo

Tudo se escureceu – e pela treva
No chão sem sepultura
Os mortos se revolvem tiritando,
A longa noite escura.
(Álvares de Azevedo)

Soou nas trevas, nos gemedores sinos meia-noite!”.

E nesta hora sombria detenho-me a pensar sobre a verdadeira poesia fúnebre; e com o intuito somente de resgatar a origem da literatura fantástica no Brasil, resolvi debruçar-me sobre os livros e lançar-me de corpo e alma a um mundo demasiado sombrio para que muitos compreendam.

Não me julgo absolutamente capacitado ou completamente informado a respeito desse assunto, mas tendo em vista um mar de mediocridade e indiferença com relação a certos aspectos da literatura brasileira, vejo-me possuidor de um tesouro inigualável. E com este incontrolável impulso, resolvi compor este rápido esboço sobre a obra e importância do poeta Manoel Antônio Álvares de Azevedo à literatura fantástica brasileira. Acho um desrespeito imperdoável ver uma legião de pessoas que se dizem apreciadoras da literatura macabra nunca terem, pelo menos, ouvirem falar de Álvares de Azevedo, o mais sombrio escritor brasileiro.

A raiz do horror e do sobrenatural deste país nasceu com este distinto poeta que, como nenhum outro, soube explorar o lado sombrio e obscuro da arte literária; o mórbido e o macabro são marcas fundamentais deste nobre poeta paulista. Ele foi a folha seca que caiu prematura sobre um túmulo vazio numa fria noite de inverno, onde a fúnebre garoa gotejava sobre o mármore das criptas sombrias.

Totalmente influenciado por escritores malditos europeus como Lord Byron, Alfred de Musset, Percy Shelley, Wolfgang Goethe e outros, Álvares de Azevedo se deixou levar pelo lado literário que, alguns anos antes, numa região longínqua, mas ainda na América, era trilhado pelo também genialíssimo poeta Edgar Allan Poe. Ambos formam o que há de mais sombrio e tétrico na literatura americana.

Alvares de Azevedo (2)

Aliás, não seria exagero dizer que Álvares de Azevedo é o Edgar Allan Poe brasileiro ou vice-versa. Quem já teve o privilégio de ler sua obra intitulada Noite na Taverna sabe do que estou falando.

Homero Pires (um renomado biógrafo do poeta) acertou em cheio quando disse:

“A imaginação estava mais comumente voltada para as ideias fantásticas e terríveis, comprazia-se com as coisas fúnebres e sinistras.”

Álvares de Azevedo floresceu numa época turbulenta da capital paulista, numa época de garoas, nevoeiros, noitadas em cemitérios, evocações do mal, orgias depravadas em campos santos, blasfêmias, pessimismo, ceticismo e tudo mais que foge às regras da boa conduta. Uma época que podemos resumir com uma única palavra: Byroniana. Inspirada nos ideais de vida do cético e misterioso poeta inglês Lord Byron, os poetas paulistas da época de Álvares de Azevedo (primeira metade do século XIX) tiravam da teoria tudo quanto de sombrio foi citado acima.

Existem biógrafos renomados do escritor que, vasculhando detalhadamente sua vida, descobriram fatos e curiosidades que fariam o mais assíduo adepto do horror ficar de cabelos em pé. Tal é a atmosfera de medo transmitida pelo poeta.

Era uma tarde – mas a chuva fria dos úmidos ciprestes gotejava, além no céu escuro o sol morria como rola na terra a rubra lava, e o vento além no fartalhar funéreo gemia no ervaçal do cemitério!

Diz-nos fontes confiáveis que seu aposento era um completo museu mortuário. Era uma sala deveras lúgubre, com uma única janela, que dava para o cemitério e ficava, tanto em noites quentes como frias, sempre aberta, devassando ao byroniano paulista a morada dos mortos.

As paredes do teto, forradas de preto, ornavam-se com desenhos singulares, como demônios, frases fúnebres, ilustrações de torturas e tudo mais que pudesse agredir a conduta de qualquer pessoa. Sua cama era um sinistro divã em forma de tumba e sobre a cabeceira encontrava-se empalhado um sinistro urubu-rei, cujas asas abertas abrigavam o poeta adormecido, dos besouros que, desertando do cemitério, invadiam-lhe o retiro, pertubando-o em seus devaneios. Isto sem falar dos inúmeros morcegos e corujas que encontravam-se igualmente empalhados sobre vários cantos do aposento.

Além de tudo, o poeta, durante suas composições, não utilizava velas comuns; iluminava-se com tochas de enterro, fincadas em lugares adequados. Sua mesa de estudo era simplíssima: por tinteiro, uma rótula cavada no centro, posta sobre duas clavículas em cruz; por castiçal um osso longo, em que implantava a vela de cera de que se utilizava nas prolongadas meditações.

Alguns crânios de fetos, dispersos e sem ordem, parelhando com os demais objetos de escritório, serviam-lhe de guarda penas, lacre, obréias, selos, etc…Era realmente um compartimento bizarro e extravagante, onde tudo parecia encaminhar o pensamento à vida de além-túmulo.

E era neste ambiente superaquecido de melancolia, onde dir-se-ia respirar a caligem dos túmulos, que Álvares de Azevedo escrevia seus belos versos.

Todos esses dados transmitidos pelo poeta e pesquisador Pires de Almeida em seu livro Escola Byroniana no Brasil (raríssimo tesouro que conta detalhadamente a vida e a conduta não só de Álvares de Azevedo, como um vasto número de poetas malditos que, infelizmente, hoje dormem no limbo) são totalmente confiáveis e transmitem a atmosfera fúnebre onde nasceram as obras do jovem poeta paulista.

Ambientando-se em tão obscuros confins, imaginem o conteúdo das obras!

Álvares de Azevedo conseguiu compor em toda sua vida uma extensa e extremamente significativa obra literária. São elas: Lira dos Vinte Anos, Poesias Diversas, O Poema do Frade, O Conde Lopo, Macário, Noite na Taverna, O Livro de Frá-Gondicário, além de alguns discursos e cartas.

Uma vasta e bela obra hoje completamente esquecida (ou desconhecida) pelo público.

Ou seja, todo aquele que se diz adepto do horror deve conhecer, no mínimo, a essência da poesia de Álvares de Azevedo.

Alvares de Azevedo (3)

Em contos, o jovem poeta, nos deixou Noite na Taverna. Pequeno volume de histórias fantásticas onde o autor pôde explorar toda a sua capacidade criadora. São histórias contadas por um grupo de amigos à roda de uma mesa de taverna. Esta obra, além de se impor com elementos romanescos e satânicos que a codimentam (violentação, corrupção, incesto, necrofilia, antropofagia, adultério, assassinatos por vingança ou amor) impõe-se também pela estrutura: um narrador em terceira pessoa introduz o cenário, as personagens, a situação, e praticamente desaparece, dando lugar a outros narradores – as próprias personagens, que em primeira pessoa contam, uma a uma, episódios sombrios e aterrorizantes de suas vidas aventureiras.

Uma obra excelente e perturbadora que faria Edgar Allan Poetirar o chapéu”.

Destaco também sua única obra teatral, intitulada Macário, cuja ambientação, estruturada na cidade de São Paulo, mantém o clima denso e sobrenatural de suas demais obras. Os principais personagens são Macário, Penseroso e Satã. O livro acompanha o encontro de Macário com Penseroso e Satã e este último introduz o jovem Macário aos costumes paulistanos da época, com seus frades indolentes, moreninhas com véu mantilha, poetas bêbados, prostitutas e tudo quanto existe de baixo e hipócrita numa grande cidade. Uma obra original e ao mesmo tempo irônica.

Quanto ao seu belíssimo poema O Conde Lopo (talvez o mais impressionante!) seria necessário que o próprio leitor conhecesse, pois apresenta uma atmosfera poética e sombria inexplicável, principalmente em relação ao seu canto IV intitulado Fantasmagorias: completamente byroniano, o qual escolhi um pequeno trecho para ilustrá-lo:

Tomou na mesa coroada taça de vermelho licor lauri – ornado pensativo fantasma – o Conde Lopo nos lábios a sentiu. – Mas era fria como os beiços de um morto – e o denso vinho deu-lhe no paladar sabor de sangue!

Notem neste trecho a atmosfera vampírica que o poeta explorou, assim como em vários outros trechos que narram orgias de esqueletos, fantasmas à beira de seus túmulos, ossos, crânios, tumbas, névoas, vinhos, bebedeiras e tudo mais que exalta as trevas e o insólito.
Na realidade, a obra de Álvares de Azevedo em geral é profunda, filosófica e real – não é para qualquer um. Somente aqueles que se voltam ao belo e ao profundo horror podem me compreender.

Alvares de Azevedo (4)

E para aqueles que não o conhecem e imaginam um velho poeta enclausurado em sua biblioteca se enganam, pois Álvares de Azevedo nasceu em 12 de setembro de 1831 vindo a falecer em 25 de abril de 1852!

Isto mesmo! O gênio ao qual me referi neste humilde texto viveu nada mais, nada menos que apenas 21 anos de idade. Foi um gênio precoce que a ingrata morte veio buscar ainda cedo.

Álvares de Azevedo foi mefisto trajado de negro andando pelas estreitas e funestas ruas da antiga Paulicéia, tendo como companheira somente a garoa e a neblina a banhar sua face pálida e cadavérica como o mármore e tendo como irmão os seus devaneios.

E para encerrar esta humilde e singela homenagem a um poeta que admiro profundamente, deixo-vos com um irônico e sarcástico trecho, apreciem:

Mas não vos pedirei perdão contudo: se não gostais desta canção sombria não penses que me enterre em longo estudo por vossa alma fartar de outra harmonia! Se vario no verso e ideias mudo, é assim que me desliza a fantasia… Mas a crítica, não… eu rio dela… Prefiro a inspiração da noite bela!

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E R Corrêa

E R Corrêa

"No edifício do pensamento não encontrei nenhuma categoria na qual pousar a cabeça. Em contrapartida, que belo travesseiro é o Caos!" (Cioran)

Um comentário em “Álvares de Azevedo: A Sombra de Byron no Brasil

  • 16/12/2014 em 13:40
    Permalink

    O Boca do Inferno tava precisando demais de um post assim, voltado para a literatura que valorizasse esse magnífico autor nacional e também outros do gênero. Fico muito contente em ver isso por aqui, tem tudo haver com a proposta do site.

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