Quadrilha de Sádicos (1977)

Quadrilha de Sádicos (1977)

Quadrilha de Sádicos
Original:The Hills Have Eyes
Ano:1977•País:EUA
Direção:Wes Craven
Roteiro:Wes Craven
Produção:Peter Locke
Elenco:Suze Lanier-Bramlett, Robert Houston, John Steadman, Janus Blythe, Peter Locke, Russ Grieve, Virginia Vincent, Dee Wallace, Brenda Marinoff, Michael Berryman, Lance Gordon, Cordy Clark

Uma típica família americana. Eles não queriam matar. Mas também não queriam morrer.” A fantástica e sintética frase no cartaz original de Quadrilha de Sádicos já mostra ao espectador o que esperar do segundo filme “oficial” do diretor americano Wes Craven, realizado no auge das produções nuas e cruas de horror dos anos 70 – no caso, 1977. Hoje, ironicamente, a tal frase foi substituída, na capinha do DVD americano, por um singelo “Do diretor de A Hora do Pesadelo e Pânico“, comprovando que os tempos são outros e que Craven não é mais famoso por ter assinado duas das mais importantes produções americanas independentes da década de 70 (Last House on the Left/Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos), mas sim por seus filmes comerciais mais recentes, um sucesso entre os adolescentes da “nova geração“.

Todo mundo já está careca de saber que a década de 70 foi uma das mais prolíficas para o cinema de horror americano. O tempo dos hippies e sua pregação de “paz e amor” já era; os EUA viviam uma época negra de pessimismo e desesperança, principalmente graças ao massacre de seus jovens na Guerra do Vietnã e à corrupção de seus governantes desvendada pelo rumoroso Caso Watergate; mas ainda havia conflitos raciais varrendo o país, recessão, a crise de energia… Alguns cineastas do período sintetizaram bem esta sensação de desesperança e preocupação numa série de filmes baratos e chocantes. No gênero horror, o que se viu foi uma mudança drástica: filmes com ameaças sobrenaturais, casas mal-assombradas e fantasmas deram lugar a produções mais realistas, onde seres humanos matavam seres humanos, e onde o alvo da violência normalmente era uma das mais sagradas instituições americanas, a família. No caso de Quadrilha de Sádicos, uma típica família americana que não queria matar – e muito menos morrer!

Quadrilha de Sádicos foi exibido nos cinemas brasileiros, lançado em VHS pela Look Vìdeo (a fita é e sempre foi uma raridade) e até exibido pela Rede Globo no Supercine de áureos tempos imemoriáveis. Até andava meio esquecido, mas voltou à ordem do dia graças ao remake realizado em 2005 pelo diretor francês Alexandre Aja (de Haute Tension). Como sempre acontece quando sai uma refilmagem, toda uma nova geração fica animada para conhecer o original, já que a velha fita está sendo vendida a preço de ouro – já vi vendedores conseguirem R$ 60,00 (o preço de um DVD importado!) no Mercado Livre

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Comparando com a atualização sangrenta feita pelo francês Aja, esta famosa obra sobre a titânica luta entre duas famílias – uma comum, outra selvagem, mutante e canibal – pode até ter envelhecido no seu acabamento visual, efeitos (usa aquele sangue vermelhão característico da época) e na própria abordagem da violência. Mas mantém-se, historicamente, como uma das mais furiosas histórias de horror contadas naquele famoso período de cinema “realista” – ou seria “sensacionalista“? Aliás, vale destacar que Craven é um dos únicos diretores (ao lado apenas, talvez, de George A. Romero) a ter dois filmes citados em qualquer lista dos melhores dos anos 70, e que são justamente as suas duas primeiras obras (Last House… e Quadrilha…), ao lado de clássicos como O Massacre da Serra Elétrica, Dawn of the Dead e Alien.

O que a “nova geração” certamente não vai perceber ao ver Quadrilha de Sádicos, o original, é a importância que o filme teve numa época em que fazer cinema de horror era visto quase como uma transgressão. Se hoje o cineasta francês que refilmou a obra não teve maiores problemas além da chata censura americana – que exigiu cortes em algumas cenas -, lá atrás, nos anos 70, a história era outra. Quadrilha de Sádicos era absolutamente chocante para o período em que foi feito, embora hoje o espectador mais acostumado com as doses maciças de violência e brutalidade possa até achar um tanto parado – uma injustiça! Craven foi na contramão de tudo o que se fazia no gênero naquela época, realizando uma de suas obras mais viscerais e aterrorizantes. Tanto que o filme serviu de inspiração para dezenas de outras histórias “parecidas“, inclusive Pânico na Floresta e Detour – Rota 666.

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A concepção de Quadrilha de Sádicos começou em 1975, quando Wes Craven ajudou um jovem produtor chamado Peter Locke a dirigir o filme pornográfico Angela – The Fireworjs Woman. Apesar de dirigir boa parte das cenas, Craven não quis ter seu nome nos créditos. Vale lembrar que o cinema “adulto” não era novidade para o diretor, já que seu filme “não-oficial” de estreia foi Together, um pornô softcore dirigido em parceria com Sean S. Cunningham em 1971 (antes de Last House on the Left), com Marilyn Chambers no elenco. Locke conhecia a fama de Craven graças ao brutal Last House on the Left, que por muito tempo deu fama de maluco e sádico ao jovem cineasta. Sabendo que era o horror era um gênero popular para o público da época (a geração “drive-inn“), Locke ofereceu-se para produzir um novo filme de terror escrito e dirigido por Craven.

Mas o criador de Quadrilha de Sádicos não estava interessado em fazer algo na mesma linha de Last House on the Left. “Aquele filme foi tão controverso que as pessoas me olhavam como se eu fosse louco. Eu não queria fazer outro filme de horror. Resisti até que estava quebrado financeiramente, e então Locke me procurou novamente e disse para escrever uma história sobre o deserto“, lembrou Craven, entrevistado num dos featurettes que acompanham a luxuosa edição importada de Quadrilha de Sádicos. O diretor foi, então, buscar subsídios na Biblioteca Pública de Nova York, e lá encontrou relatos sobre Sawney Beane, um escocês que viveu entre os séculos 14 e 15, e ficou aprisionado numa região montanhosa junto com a família (contando esposa e filhos, era um total de 16 pessoas). Para sobreviver, eles atacavam outras expedições que passavam pelo local e devoravam suas vítimas. Isso aconteceu durante 25 anos, até que toda a família foi presa por ordem do rei e brutalmente torturada e morta. Foi isso que mais interessou Craven: o fato de a reação dos “homens civilizados” ser tão ou mais horrível do que os atos cometidos pelos canibais, numa história de vingança extrema que chega a lembrar o final de Last House on the Left. “Os mais civilizados podem ser os mais selvagens, esta é a ideia“, confirma o diretor, ainda na entrevista que acompanha o DVD.

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O resto é história: Peter Locke levantou um orçamento de míseros 230 mil dólares (nada mal, considerando os US$ 87 mil de Last House on the Left), e Craven, com uma equipe de no máximo 15 pessoas (!!!), se mandou para o Deserto de Mojave, na Califórnia, para filmar aquele que muitos consideram seu clássico absoluto. Inicialmente, o filme se chamaria Blood Relations (“Relações de Sangue”), o que, de certa forma, espelha bem o tema do conflito entre as duas famílias – a “boa” e a ““. Posteriormente, sem o consentimento de Craven, o título foi mudado para The Hills Have Eyes (“As Colinas têm Olhos”). No Brasil, virou Quadrilha de Sádicos, título meio bobo, considerando que os sádicos não são exatamente uma Quadrilha, mas principalmente uma família. E não são nem tão sádicos, já que fazem o que fazem por instinto de sobrevivência, como os animais selvagens (será que um crocodilo que ataca e devora uma pessoa é “sádico“?).

Quadrilha de Sádicos tem início num daqueles postos de gasolina perdidos no meio do deserto. Verdadeira espelunca, o “Oásis do Fred” anuncia ser o último posto por 200 milhas. É ali que encontramos dois dos personagens centrais da história: o próprio Fred (John Steadman, morto em 1993) e uma garota esquisita, coberta de peles de animais, chamada Ruby (Janus Blythe, que fez Eaten Alive, de Tobe Hooper, no mesmo ano). Logo descobrimos que Ruby é uma espécie de selvagem que vive nas montanhas com sua família, e tenta trocar com Fred alguns itens roubados de pessoas que passaram pela região, tentando obter comida e combustível. Fred argumenta que não fará mais trocas porque está deixando aquele lugar, porque as ações da família estão chamando a atenção dos militares, e até aquele momento o espectador não entende direito o que eles estão falando. É então que Ruby ameaça: “Se Papa Júpiter souber que você está fugindo, ele vai arrancar os seus pulmões“. O diálogo é então interrompido pela chegada de um carro que reboca um trailer. É a família Carter.

“Big Bob” Carter (Russ Grieve, de Foxy Brown, morto em 1980) é um veterano policial aposentado de Cleveland que resolveu tirar umas férias com a família em Los Angeles, fazendo todo o percurso de trailer para aproveitar a paisagem. Ele está acompanhado da esposa Ethel (Virginia Vincent) e dos filhos Brenda (Susan Lanier), Bobby (Robert Houston, que hoje dirige vídeos da Playboy) e Lynne (Dee Wallace-Stone, de ET e Criaturas); Lynne trouxe na viagem o marido, o almofadinha Doug Wood (Martin Speer), e a filha recém-nascida Katy. Ah sim: os Carter também viajam com dois cães, chamados Beauty e Beast (sim, Bela e Fera!!!). Enquanto Fred enche o tanque, Big Bob comenta que pretende pegar um atalho pelo deserto para olhar algumas velhas minas de prata que existiam na região. O dono do posto de gasolina tenta a todo custo dissuadi-lo, recomendando que fique na estrada principal e não vá pelo deserto. Big Bob, é claro, não escuta a sugestão.

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A família Carter resolve cruzar o deserto por uma precária estrada secundária. Doug e Bobby ficam no trailer com os cães, e no carro vão Big Bob, Ethel, Lynne e Brenda, mais o bebê. Examinando um mapa, Brenda descobre que aquela região foi e ainda é usada como área para testes militares de vôo e tiro – além de testes nucleares! Neste momento, um supersônico cruza o céu e o barulho apavora Big Bob; as mulheres no carro gritam, o mapa voa e encobre a visão do motorista, e pronto: o carro sai da estrada e uma das rodas fica destruída. “Trabalhei anos numa das delegacias mais barra-pesada de Cleveland. Até levei dois tiros dos meus próprios parceiros. Mas nenhum deles chegou mais perto de me matar do que minha maldita esposa com seu maldito mapa rodoviário!!!“, esbraveja o patriarca dos Carter, cuspindo fogo de raiva. A família agora está isolada no meio do nada. E não estão sozinhos: vultos ameaçadores observam tudo com binóculos e comunicando-se com walkie-talkies

Sem nada para fazer, numa época em que não havia GPS nem telefone celular (apenas radioamador), os Carter vêem-se obrigados a buscar ajuda. Big Bob e Doug deixam o local do acidente caminhando cada um para um lado; o patriarca da família volta no sentido contrário, tentando chegar ao posto de Fred, enquanto Doug avança na tentativa inútil de encontrar alguma casa ou oficina. Antes de se separarem, os Carter trocam um abraço e uma oração pedindo proteção. E Big Bob encarrega o filho Bobby de tomar conta das mulheres da família, deixando-lhe uma pistola para vigiar o “acampamento“. Aquela é a última vez em que toda a família Carter se reúne. Quando Big Bob e Doug já estão bem longe, um dos cães, Beauty, é atraído para as colinas, aparentemente farejando alguma coisa. Bobby corre atrás do cachorro, mas só encontra uma carcaça com o bucho aberto e as tripas para fora. Assustado por um vulto que salta detrás de uma pedra, o garoto corre, se desequilibra e cai nas pedras, perdendo os sentidos. O pesadelo está para começar.

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A cena envolvendo Beauty, mesmo simples, é uma das mais revolucionárias de Quadrilha de Sádicos. Historicamente, este foi um dos primeiros filmes americanos a mostrar um animal sendo morto, uma espécie de tabu da época (quando as pessoas podiam ser “mortas” à vontade, porém não os animais). Assim, ao matar um dos cães logo no início, o filme já chocava de começo as conservadoras plateias da época, que deviam pensar: “Se o cachorro foi morto, o que mais pode acontecer?“, temendo também pelo destino do bebê de Doug e Lynne. Para arrematar, Craven utilizou um cachorro real na cena: ele comprou um cão morto do xerife da cidadezinha onde a equipe ficava, abriu a barriga do animal e filmou a cena bem realista, que pode até parecer inocente se comparada à matança real de animais nos filmes italianos do mesmo período, mas era algo grotesco para o cinema americano da época – posteriormente, em 1979, Francis Ford Coppola provocaria polêmica ao mostrar um boi sendo morto de verdade a golpes de facão em seu clássico Apocalypse Now.

Morto o cachorro, a próxima vítima dos misteriosos assassinos das colinas é Big Bob. Já é noite quando ele chega no “Fred’s Oasis” e encontra o velho proprietário do estabelecimento tentando cometer suicídio por enforcamento. Ele salva o velho enquanto esbraveja: “Tire seu maldito pescoço deste laço, seu imbecil!“. Em “retribuição“, Fred resolve lhe contar a sua triste história: um de seus filhos, que nasceu gigantesco e “peludo como um macaco“, aprontou o diabo, inclusive matando a irmã num incêndio. Fred vingou-se esmagando seu rosto com uma barra de ferro, porém o garoto não morreu. Foi, então, abandonado no deserto, onde acabou crescendo e gerando sua própria família – a quem, eventualmente, o velho ajudava, talvez por ainda manter um sentimento primitivo de família. Fred mal acaba de contar sua história e uma figura grotesca, com uma enorme cicatriz no meio do rosto, atravessa a janela (numa cena assustadora!) e agarra o velho com gritos animalescos, somente para depois esmagar sua cabeça a golpes de pé-de-cabra. Big Bob, que não é bobo nem nada, tenta dar uns tiros no misterioso invasor, sem atingi-lo.

Esta cena representa, ao mesmo tempo, a síntese do conflito familiar de Quadrilha de Sádicos e também um grande tabu. Ali, aconteceu o encontro entre os dois patriarcas: Big Bob, representando os Carter, e o violento Júpiter (James Whitworth), o líder da “Quadrilha de Sádicos“. Ali, também, Júpiter resolve dar ao seu próprio pai, Fred, o que ele merecia por tê-lo abandonado no deserto anos antes, retribuindo a gentileza e esmagando a cabeça do velho com uma barra de ferro.

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Neste ínterim, Doug volta ao acampamento da família depois de caminhar quilômetros sem encontrar ninguém. Bobby, que há algum tempo também havia voltado para junto da família, ficou quietinho sobre a morte de Beauty, na tentativa de não assustar ainda mais a mãe e as irmãs. Só Big Bob demora a voltar, mas há uma explicação para isso: ele foi aprisionado por Júpiter e, neste momento, está na sua caverna conhecendo os outros membros da “família“: Ruby, apresentada no início do filme, é a ovelha-negra que não gosta de matar e queria viver na civilização; Pluto (Michael Berryman, que é feio na vida real) é um rapaz deformado; Mars (Lance Gordon), um assassino sádico; Mercury (o próprio produtor Peter Locke, usando o pseudônimo “Arthur King“) é um demente que se veste como índio, e a Mamãe (Cordy Clark), que cuida da caverna. Todos vestem trapos, peles de animais e “souvenirs” das vítimas, como orelhas ressecadas e dentaduras, além de balas e projéteis do Exército recolhidas no local. O leitor atento vai perceber que os homens têm nomes de planetas – Júpiter, Marte, Mercúrio e Plutão.

É quando acontece a cena mais famosa e infame de Quadrilha de Sádicos, o ataque ao trailer da família, que está sendo utilizado como o último refúgio seguro dos Carter naquele deserto perdido e selvagem. O próprio Big Bob serve de isca para atrair os outros homens da família; quando a maior parte dos Carter sai do trailer, Pluto e Mars estão livres para entrar e abusar (no mau sentido mesmo) da hospitalidade da família – pelo menos dos que lá ficaram. Sobra para o bebê e para a pobre Brenda, que dorme na cama quando é atacada pelos dois canibais. A jovem aparentemente é estuprada, embora o crime em si não seja mostrado (Craven pegou leve provavelmente depois das críticas às cenas fortes de Last House on the Left). Paralelamente, os vilões fazem a maior zona, quebrando tudo, recolhendo qualquer coisa que possa servir como arma (facões, machadinhas), comendo carne crua da geladeira e até um dos pássaros de estimação dos Carter, que é tirado da gaiola e devorado vivo por Mars!

O assalto ao trailer termina trágico quando Lynne e sua mãe voltam para lá e tentam deter os dois psicopatas e salvar o bebê, que os vilões querem sequestrar. Consuma-se a tragédia que irá reduzir drasticamente aquela pobre família americana… Com várias perdas e o bebê raptado, os Carter sobreviventes resolvem esperar pelo amanhecer para responder à agressão na mesma moeda, caçando e matando a família de canibais – que naquele momento está se preparando para devorar a pobre criança na Ceia de Ação de Graças! A partir de então, qualquer noção de civilização, sociedade e perdão desaparecem para dar lugar à fúria, à raiva e à selvageria. No final, após o devido derramamento de sangue, os sobreviventes não serão mais pessoas comuns, e sim selvagens assassinos. “Eles não queriam matar. Mas também não queriam morrer“, lembra? Na conclusão, até o segundo cão dos Carter, Beast, manifesta um obsessivo desejo de vingança, ajudando a dar o troco nos vilões – e inclusive matando ferozmente alguns deles!

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Quadrilha de Sádicos já foi um filme bastante violento (em matéria de sangue e maquiagem), mas há muito tempo foi ultrapassado pelos excessos do horror atual. Embora até existam algumas cenas mais arrepiantes, como a que envolve um tendão-de-aquiles mutilado (brrr…), os fanáticos por gore e violência vão se decepcionar um pouco. A exemplo de Last House on the Left, o foco está mais na brutalidade do que nos litros de sangue em si, com um nível de realismo tão grande que o espectador é levado a acreditar que os atores estão mesmo enfurecidos, enlouquecidos e incontroláveis. A cena em que Brenda e Bobby atacam um dos canibais mostra bem essa ferocidade: você quase sente pena do vilão quando ele é primeiro arrastado por um cabo de aço, depois incendiado, mais tarde atingido a machadadas e, finalmente, abatido a tiros. É uma fúria tão incontrolável e vingativa que os atores parecem estar dentro do papel, berrando, brigando e se matando de verdade – duvido que ninguém tenha saído sem arranhões e ferimentos destas cenas mais “nervosas“.

O filme também parecerá um tanto lento para os espectadores da nova geração, acostumados à edição MTV e mortes sem pé nem cabeça a cada cinco minutos. Wes Craven vai construindo o clima de tensão lentamente, tirando aos poucos os elementos que dão segurança aos personagens no meio daquele deserto perdido: primeiro o carro, que os deixa sitiados; depois o trailer, que funcionava como uma espécie de fortaleza para que eles resistissem aos ataque dos inimigos. E quando são destituídos de todos estes elementos da civilização (carro, trailer, rádio…), os “civilizados” Carter se encontram perdidos, à mercê de seu próprio destino e da natureza, transformados, contra a própria vontade, em selvagens. Até lá, o filme leva uns bons 45 minutos construindo a situação básica, com os canibais cercando suas vítimas aos poucos e esperando o momento certo para atacar. Quando o inferno começa, entretanto, é de roer as unhas. Poucos finais de filmes foram e são tão tensos e agoniantes quanto o de Quadrilha de Sádicos.

Por isso, uma ressalva: apesar da sua fama, Quadrilha de Sádicos é um filme muito mais de suspense do que propriamente de sangue e tripas. Sabe-se que, originalmente, a brutalidade seria maior (como se fosse possível). O primeiro corte do diretor recebeu certificação “X” da censura, e teria que ser exibido como se fosse pornô, rigorosamente proibido para menores. Como o produtor Locke temia pelo naufrágio nas bilheterias, conseguiu convencer Craven a cortar algumas cenas mais fortes (provavelmente algo do estupro anteriormente citado), garantindo uma certificação mais branda, mas ainda assim rigorosa (“R“). E quem sonha com uma versão “uncut” pode esquecer: tanto Locke quanto Craven já disseram, em entrevistas, que as tais cenas cortadas foram perdidas.

Em comparação, Quadrilha de Sádicos é bem menos violento e sádico que o trabalho anterior do diretor, o chocante Last House on the Left. Mas, em comparação, Quadrilha de Sádicos é um soco no estômago se comparado a outros filmes mais convencionais que ele faria depois, incluindo a trilogia Pânico. E é interessante constatar como as obras de Craven em cada época têm pouco ou nada em comum entre si – ou alguém acha que Pânico, Swamp Thing e Quadrilha de Sádicos têm algo em comum? Embora alguns poucos detalhes sejam perceptíveis na maioria dos filmes do diretor, incluindo armadilhas criativas usadas pelos personagens principais contra os vilões (que já apareciam em Last House on the Left e estão também em Quadrilha de Sádicos), Craven depois se entregaria a um cinema cada vez mais convencional e preguiçoso. Se tivesse parado em Last House on the Left e Quadrilha de Sádicos, Wes Craven seria um dos maiores mestres do horror da história.

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Porém, é impossível não perceber várias similaridades deste famoso trabalho de Craven com um outro clássico daquele período, O Massacre da Serra Elétrica, dirigido por Tobe Hooper em 1974. Os dois filmes mostram pessoas fora de seu ambiente natural (uma família no de Craven e um grupo de amigos no de Hooper) sendo atacados por um clã de canibais selvagens. Não são apenas estes detalhes do roteiro que os dois filmes têm em comum, mas também a presença do diretor de arte Robert A. Burns (que suicidou-se em 2004). O texano Burns aproveitou alguns elementos “decorativos” da casa de Leatherface e sua turma, como esqueletos, medulas e crânios, para “enfeitar” a caverna onde vive a família de Júpiter & cia.

Quadrilha de Sádicos é um filme que foi feito com o intuito de chocar. Além da antológica cena do cachorro estripado, Craven ainda tem coragem de colocar um bebê recém-nascido em meio às cenas de violência e, para piorar, como candidato a “jantar” dos canibais. Soma-se a isso a intensa crueldade dos vilões e heróis – numa cena, Mars chega a ameaçar um tiro na boca de Brenda, que só não se consuma porque a arma está descarregada; com um risinho, ele diz: “A gente se encontra mais tarde, garotinha!“. A exemplo do episódio real envolvendo a família Beane, que inspirou Craven, o filme tenta uma abordagem mais imparcial: a família de canibais não é propriamente má, e sim um bando de selvagens que, como animais, matam quem invade o seu território e matam para comer, não por gostar daquilo ou por puro sadismo. Guardadas as devidas proporções, é outra “típíca família americana“, como os Carter.

Ironicamente, o próprio Wes Craven destruiria este fascinante trabalho durante a sua fase mais decadente (em meio aos anos 80, logo depois do sucesso de A Hora do Pesadelo). Foi em 1985 que ele escreveu e dirigiu Quadrilha de Sádicos 2, uma sequência vergonhosamente apelativa e gratuita, que depois o cineasta confessou ter feito apenas por dinheiro. O roteiro chega a “ressuscitar“, sem maiores explicações, alguns personagens mortos na conclusão do original, traz de volta os sobreviventes sem aproveitá-los na trama principal e chega ao cúmulo de usar uma famosa – de tão constrangedora – cena de flashback de um cachorro!!! Porém o mais arrepiante é saber, por meio da atriz Janus Blythe (nos extras do DVD importado), que os produtores sugeriram fazer um terceiro filme, que levaria a família de canibais… para o espaço!!! Isso mesmo, 15 anos antes de Jason X! Se tivesse feito este terceiro capítulo, e no espaço ainda por cima, Wes Craven não só levaria seus mais famosos personagens para o espaço, mas provavelmente também a sua carreira…

E quanto ao remake de Quadrilha de Sádicos? Bem, aí é outra história, mas dá para perceber que o francês Alexandre Aja dirigiu a refilmagem com amor e respeito ao material original, só que atualizando tudo – especialmente a violência e o exagero. Só para o leitor ter uma ideia, o filme já abre com uma cena (inexistente no original) onde técnicos que medem os níveis de radiação no deserto são mutilados (e mutilados MESMO) a golpes de picareta por um dos canibais! Craven adorou a refilmagem, e muita gente entendida da área jura que é melhor que o original. Será? Agora é só esperar para ver…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

2 comentários em “Quadrilha de Sádicos (1977)

  • 26/03/2014 em 12:39
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    Assisti a pouco tempo, ótimo filme, com bons momentos de tensão e cenas de violência, sangue e nojo (o momento que a filha do ”papa” selvagem se alimenta da carnes do cachorro, hehe cult, entrou pra minha lista.

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  • 08/03/2014 em 19:57
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    os dois são ótimos,mas o remake eu gostei um pouco mais,acho que foi porque eu o assisti primeiro,sem falar que amo o Aja.

    Resposta

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