Críticas

O Gabinete do Dr. Caligari (1920)

Um filme surpreendente e que talvez seja ainda mais gótico em sua essência que o próprio Nosferatu!

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O Gabinete do Dr. Caligari
Original:Das Cabinet des Dr. Caligari
Ano:1920•País:Alemanha
Direção:Robert Wiene
Roteiro:Carl Mayer, Hans Janowitz
Produção:Rudolf Meinert, Erich Pommer
Elenco:Werner Krauss, Conrad Veidt, Friedrich Feher, Lil Dagover, Hans Heinrich von Twardowski, Rudolf Lettinger, Rudolf Klein-Rogge

“No ano de 1783, um místico chamado Dr. Caligari, perambulava pelas cidades do norte da Itália com um sonâmbulo de nome Cesare, apresentando-se nas quermesses. E, durante meses, manteve uma cidade após a outra em pânico, com assassinatos que sempre ocorriam sob as mesmas circunstâncias, nas quais ele levava o sonâmbulo, que estava sob seu inteiro controle, a executar seus planos aventureiros. Colocando um boneco no lugar de Cesare, quando este não estava em seu caixão, o Dr. Caligari conseguia afastar qualquer suspeita de culpa do sonâmbulo.”

Este é o pequeno prefácio que dá início ao filme O Gabinete do Dr. Caligari (Das Kabinett von Dr. Caligari, ALE, 1919), um dos maiores clássicos do horror. Dirigido por Robert Wiene, esta obra-prima do cinema mudo forma, ao lado de Nosferatu (1922) e Fausto (1926) a “santíssima trindade” do cinema de terror expressionista alemão; e incorporam o que há de mais sombrio e expressivo na arte cinematográfica.

São filmes que pertencem a tradição do pessimismo pós-guerra, uma vez que foram realizados numa das fases mais conturbadas da história alemã: o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). E como tal, voltam-se para um horizonte negativo, onde o domínio da sombra é quase que absoluto. Em O Gabinete do Dr. Caligari (o filme que deu origem ao expressionismo cinematográfico alemão), o contraste luz e sombra é aterrador quando analisado em sua essência. Foi o filme que estabeleceu os padrões gerais para o expressionismo, usando e abusando do jogo de luz e sombra, ângulos imprevistos, movimentos rápidos e retilíneos, cenários tortuosos e desfigurados, tudo envolto numa atmosfera sobrenatural que surpreende os desavisados até hoje. Por estes e outros elementos, que Wiene soube explorar até a exaustão, este filme é considerado a primeira obra-prima do cinema de horror.

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E com todos os méritos, pois foi, certamente, um dos primeiros também a incorporar o horror ao suspense; a fonte que alimentou e serviu de referência para os filmes posteriores, com situações inusitadas e personagens que vivem em um mundo sombrio, onde nada é espontâneo ou natural, mas sim fruto do desespero e da demência.

Como legítimo exemplo do expressionismo, este filme foi todo rodado em estúdio (Nosferatu foi o único a abdicar esta tradição ambientando-se ao ar livre), e os cenários, na maioria feitos de papelão e madeira, são completamente desfigurados e encaixados sem nenhum padrão ou norma pré-estabelecida, o que o torna mais sombrio e reflete-se como um hórrido pesadelo.

Robert Wiene (inspiradíssimo!) orquestrou uma sequência arrasadora de imagens insólitas e sufocantes, num verdadeiro show de demência. É impressionante a criatividade de Wiene, pois o diretor não só conseguiu, logo no início da história do cinema, relatar uma história de horror, temperada com um requintado suspense, como criar uma das mais originais sequências do cinema mudo; as imagens mostram que não é necessário o uso de diálogos para relatar a aflição e a neurose humana.

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Inclusive Alfred Hitchcock (o maior mestre do suspense, conhecidíssimo por seu filme Psicose,  1960) certamente “bebeu” em O Gabinete do Dr. Caligari para elaborar a sequência de imagens de seus principais filmes, notadamente os contrastes de luz e sombra, sempre sugerindo as cenas e nunca as evidenciando, uma das características básicas do gênero.

A trama do filme é basicamente simples (mas muito original!). É a sombria história do Dr. Caligari (interpretado pelo magnífico Werner Krauss), um mestre do hipnotismo, que mantém o sonâmbulo Cesare (interpretado pelo jovem Conrad Veidt) em estado de transe por 23 anos ininterruptos. Em total sonambulismo, Cesare é apresentado pelo doutor Caligari em feiras e quermesses de pequenos vilarejos da Itália.

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“Entrem, aqui está Cesare, o sonâmbulo. Aqui ele pode ser visto pela primeira vez, Cesare, o prodígio…
23 anos de idade, dorme à 23 anos ininterruptos dia e noite. Cesare vai levantar-se desta rigidez cadavérica frente a seus olhos…”

De fato, as apresentações do Dr. Caligari despertavam a curiosidade da população. Até aí tudo bem. O caso é que o velho hipnotizador, através de seus métodos eficientes, induz o jovem Cesare a cometer assassinatos noturnos pelas cidades onde faz suas apresentações.

Durante vários meses, o Dr. Caligari manteve muitos vilarejos em pânico, sempre com assassinatos insolúveis e indecifráveis. E não é só. Ele também colocava um boneco no caixão onde Cesare “dormia” para encobrir o pobre rapaz, caso este fosse tido como suspeito. Tudo ia perfeitamente bem para o velho mestre até que um jovem começa a suspeitar do sonâmbulo e consequentemente avisa as autoridades, que por sua vez saem ao encalço do Dr. Caligari. Este é finalmente pego em seu gabinete, enquanto Cesare continua solto pela cidade, e após uma frustrada tentativa de rapto a uma garota, foge de seus perseguidores.

Um filme surpreendente e que talvez seja ainda mais gótico em sua essência que o próprio Nosferatu.

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As razões que levaram Wiene a ambientar sua obra-prima na Itália eu confesso que desconheço, talvez seja um simples motivo de fuga de seu país, que estava mergulhado na depressão, econômica e política, do pós-guerra.

O expressionismo cinematográfico que nascera com este filme, duraria até 1933, passando por clássicos admiráveis deste gênero artístico tão prolífero que é o horror. Obras como Nosferatu (1922), Orlacs Haende (1925), Fausto (1926), Metropolis (1926), M, O Vampiro de Dusseldorf (1931), Frankenstein (1931), O Médico e o Monstro (1931) – estes três últimos já incorporados ao cinema sonoro, mas ainda com características expressionistas – são definitivas.

Antes de O Gabinete do Dr. Caligari, filmes importantes já haviam sido feitos como O Golem (1915) e Homunkulus (1916) e já davam os primeiros passos para o expressionismo, mas somente com o advento da obra de Wiene nasceria o expressionismo propriamente dito. Em 1933, com o domínio nazista, a Alemanha veria o fim deste movimento cinematográfico admirável, que nos legou obras inigualáveis.

A partir de então o expressionismo não mais existia; mas convenhamos, ele já fez a sua parte!

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3 Comentários

  1. Paulo R. Carvalho Jr

    Concordo com TUDO o que foi escrito, principalmente com a última frase. Parabéns pelo texto e pelo trabalho.

  2. Sensacional!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. Antonio

    Estupendo filme. Finalmente uma (ótima e oportuna) resenha sobre a obra.

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