Críticas

Bruxa – Encontros Diabólicos (1988)

David Hasselhoff e Linda Blair num violento Eurotrash em que o roteiro é um mero detalhe cenográfico!

Bruxa - Encontros Diabólicos (1988) (1)

Bruxa - Encontros Diabólicos
Original:La casa 4 (Witchcraft)
Ano:1988•País:Itália
Direção:Fabrizio Laurenti
Roteiro:Harry Spalding, Daniele Stroppa
Produção:Joe D'Amato
Elenco:David Hasselhoff, Linda Blair, Catherine Hickland, Annie Ross, Hildegard Knef, Leslie Cumming, Robert Champagne, Rick Farnsworth, Michael Manchester, Frank Cammarata, Victoria Biggers

Fabrizio Laurenti. Você nunca deve ter ouvido este nome e nem poderia, pois este italiano nunca conseguiu projeção no seu ofício de diretor, contudo teve um feito memorável em pleno ano de 1988: juntar dois nomes populares dos Estados Unidos para rodar um filme de terror na Terra da Bota. Mas sem um bom roteiro (Eurotrashs efetivamente carecem de esmero nesta parte) e usando pouco o carisma de seus nomes populares, é apenas um ponto curioso e talvez um dos mais confusos – confira mais abaixo – na história do cinema italiano.

Linda Blair, de fama conhecida desde O Exorcista, e David Hasselhoff, astro internacional pelo seriado Baywatch, estrelam Bruxa – Encontros Diabólicos (lançado como La Casa 4 no seu país de origem), mas quem abre o filme é uma mulher anônima que está grávida correndo pela praia fugindo de alguns homens que a perseguem. Ela entra numa velha e enorme casa e busca um lugar para se esconder, porém todas as portas estão trancadas (apesar de uma delas ter uma chave na fechadura, reparem) e encurralada decide tirar a própria vida pulando da janela do segundo andar da residência.

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Linda Blair, opa, Jane acorda suada no meio da noite. Era um pesadelo vívido. Ela coincidentemente está grávida e usa uma camisola igual a Dona doida do seu pesadelo… Isto não é importante agora pois cortamos para Leslie (Leslie Cumming), que está justamente na mansão “sonhada” por Jane, a quilômetros de distância, mas desta vez todas as portas estão abertas. Trata-se de um hotel falido e abandonado em uma ilha deserta que é visitada por ela para escrever um livro sobre sua fama de assombrada. Só que ela não está sozinha, tem a companhia de Gary (The Hoff, o próprio e que até tem umas cenas sem camisa), namorado e fotógrafo para o livro nas horas vagas.

Agora voltamos para Jane. Ela está andando na cidade perto da construção de um edifício e pára quando uma velha assustadora vestida de preto (Hildegard Kneft) chama sua atenção com seu broche exageradamente brilhante, lembrando o artefato de seu sonho. Só que a luz refletida pelo broche a cega, bem na hora que uma viga gigantesca se desprende da construção e cai a sua frente na calçada! E a reação dos operários é hilária! Eles perguntam se ela está bem e vendo que “nada” aconteceu, voltam a seus afazeres como se nada tivesse acontecido… Claro que a velha sumiu sem deixar vestígios.

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Na ilha, Leslie e Gary tem uma conversa sobre Patience do Guns’n’Roses: Ela é virgem e não está muito a fim de perdê-la com Gary, mesmo ele achando que não é natural uma mulher na idade dela ainda não ter dormido com um homem (esse Hoff é um machista mesmo). Assim, eles resolvem passar a noite no hotel – em camas separadas, claro. Acontece que Rose (Annie Ross), a mãe de Jane, pretende comprar o hotel e torná-lo um clube, fazendo com que todos decidam visitar a habitação no dia seguinte: Rose, seu marido mulherengo Freddie (Robert Champagne), Jane e seu irmãozinho Tommy (Michael Manchester), a arquiteta Linda (Catherine Hickland) e o corretor Jerry (Rick Farnsworth).

Na manhã seguinte, a excursão parte – apesar do aviso de uma garota em cadeira de rodas para Tommy não ir porque tem uma bruxa vivendo na ilha -, e Leslie percebe que está numa fria, pois os verdadeiros donos estão chegando e eles estão invadindo o local, obrigando ela e Gary a se esconderem… Não que a pesquisa para o livro tenha dado qualquer fruto, pois tudo o que ela faz é andar pelo mesmo corredor para cima e para baixo fazendo alguns apontamentos óbvios para compor sentenças igualmente óbvias.

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O barco aporta e o grupo inspeciona a edificação. O barqueiro fica na margem e, pela luz brilhante da velha de preto, acaba morto e o barco desaparece. Jerry nos dá uma dica sobre a velha: ele conta ao grupo sobre uma atriz meio maluca que foi a última pessoa a morar no hotel e que deixou de fazer filmes por não querer que ninguém a visse mais. “Mas ela já era aposentada e não pode estar mais viva“, diz o corretor.

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A exploração continua, só que sem o barco. Com a maré subindo decidem passar a noite na propriedade, encontrando eventualmente Leslie e Gary, formando um grupo maior, contudo coisas estranhas começam a acontecer… como o brilho do broche dragando alguns personagens para um vórtex para uma dimensão alternativa onde coisas ruins acontecem, como ter sua boca costurada ou ver figurantes degustarem um feto assado como churrasco. E é só o começo!

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Enumerar a bagunça é o grande problema, ainda que as cenas “dentro do vórtex” sejam impactantes e a violência inclua corpos incinerados e outros mimos; existem centenas de perguntas sem resposta e outra centena de ideias conceitualmente interessantes que se misturam à trama principal, mal costurada, e nos diálogos preguiçosos para bagunçar a mente ainda mais para quem tenta prestar atenção.

Cito alguns exemplos: puxando de O Iluminado (como se a ação num hotel deserto não fosse sutil o bastante) aparentemente apenas Tommy interage com a velha de preto…e tem até um cadáver em uma banheira! Mas por apenas uma cena… Chega uma hora que Linda Blair fica possuída, literalmente chupando seu papel mais famoso (sem sopa de ervilha e cabeças girando, infelizmente) só que dura tão pouco que nem vale como um memorável exploitation. Para mim, o que me faz lembrar mais é a reação de Hoff quando ele vê uma personagem empalada pelo focinho de um Marlim empalhado, o primeiro cadáver que o grupo avista… Sem sair correndo dali ou gritar como uma pessoa comum, ele passa o olho e diz uma frase do tipo “É… Coisa chata isso…” antes de seguir seu caminho. Nem Charles Bronson tinham tanto sangue frio.

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Tem também um papo sobre três portas para o inferno que dá a entender que os que foram sugados pelo “vórtex” pararam lá, e de alguma forma voltaram para morrer, e que lá uma outra personagem é estuprada pelo próprio Satanás (uma cena excelente, devo reconhecer), e o pai de Jerry que consegue aporrinhar tanto o xerife da cidade que eles vão de helicóptero para a ilha buscar o grupo, mas a velha consegue por magia negra trancar todas as portas, apagar todas as luzes e até tornar as janelas à prova de balas (!!!) para evitar que eles sejam avistados. Mas quando o fim chega, a única pergunta que importa é: que tranqueira foi essa que acabei de ver?

Uau, é uma montanha russa de tanta porcaria que nem posso achar ruim. A atuação é canhesta, o roteiro é sem palavras, a violência é um fator interessante, efeitos baratos por toda a parte e ainda tem Linda Blair e Hasselhoff abrilhantando a produção e ganhando um cheque rápido… Lançado em VHS no Brasil pelo Grupo Paris Filmes, quando te perguntarem sobre Bruxa – Encontros Diabólicos, deixe que o próprio corretor Jerry faça um resumo: “é só um filme sobre bruxas e arco-iris e esse tipo de merda“.

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A Casa da Confusão

Distribuído com vários títulos diferentes, dependendo da distribuidora, Bruxa – Encontros Diabólicos também é conhecido como Evil Encounters, The Haunted House, Wichcraft, Witchery, entre outros. Porém foi lançado na Itália primeiramente como La Casa 4. Assim como a série Zombie, La Casa foi usado tão indiscriminadamente que faz parecer que se trata de uma franquia oficial grande, mas a verdade é que foram apenas tentativas de ganhar uns trocos sobre um primeiro filme popular. Neste caso, o La Casa original é nada menos que The Evil Dead de Sam Raimi! Agora acompanhem – ou pelo menos tentem acompanhar – a linha do tempo para desvelar este novelo:

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Tudo começa com The Evil Dead (1981), lançado na Itália como La Casa, assim como seu remake de 2013. Sua continuação, The Evil Dead 2 (1987). foi devidamente nomeada La Casa 2. Contudo a partir daí é que as coisas se complicam. La Casa 3, NÃO É Army of Darkness (1992) – que saiu com o nome L’armata delle tenebre, uma tradução mais próxima do título americano – mas uma película sem relação alguma dirigido por Umberto Lenzi, com fantasmas, não demônios.

Vivos até aqui? Então continuemos. Como o La Casa 3 de Lenzi recebeu o subtítulo Ghosthouse, La Casa 4 (este filme em questão) também foi conhecido como Ghosthouse 2 – a despeito de se passar num hotel e não ter qualquer fantasma em cena. Em 1990 o picareta Cláudio Fragasso se apropriou e esteve a frente de La Casa 5, novamente uma história independente, sem qualquer referência aos predecessores. Este também chegou a ser lançado no Brasil em VHS com o título Vingança das Bruxas e que recebe no letreiro principal o título genérico de Beyond Darkness.

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É quando resolveram agrupar A Casa do Espanto (House, no original) aos títulos: La Casa di Helen é o título italiano de A Casa do Espanto 2 (1987), e é considerado como La Casa 6 (apesar de não existir um La Casa 6, de fato), ficando La Casa 7 com The Horror Show, também conhecido como A Casa do Espanto 3 ou House 3 de 1989…

É isso mesmo que você leu: La Casa 7 foi cronologicamente lançado ANTES de La Casa 5 – apesar de uma briga judicial pelo título na Itália – e no fim das contas fizeram com que A Casa do Espanto se tornasse parte da franquia The Evil Dead! Uma meia explicação foi que o produtor Achille Manzotti já tinha registrado os títulos La Casa 3, 4 e 5 antes, “sobrando” os números posteriores que foram usados pelo distribuidor de A Casa do Espanto, que por algum motivo resolveu traduzir o título original, mesmo sabendo que já havia um monte de outros filmes denominados La Casa.

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Em 2007 La casa 7 foi lançado em DVD com o título La Casa III (remetendo ao título americano), para deixar ainda pior. Caso estejam se perguntando, A Casa do Espanto original foi chamado na Itália de Chi è sepolto in quella casa? (algo como “O que está sepultado naquela casa?“) e A Casa do Espanto 4 singelamente denominado House IV – Presenze impalpabili (presença impalpável)… Ufa!

E você reclamando de como lançaram Floresta do Mal no Brasil, hehehe…

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1 Comentário

  1. André

    Aluguei esse filme há alguns anos e somente por causa da Linda Blair. É um filme sem pé nem cabeça. Alias, boa parte da filmografia da Linda Blair é assim. Fico pensando o que a levou pra esse caminho. Não dá pra entender.

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