Críticas

Goosebumps – Monstros e Arrepios (2015)

Apesar dos erros, precisamos de mais filmes como este…

Goosebumps (2015)

Goosebumps: Monstros e Arrepios
Original:Goosebumps
Ano:2015•País:EUA, Austrália
Direção:Rob Letterman
Roteiro:Darren Lemke, Scott Alexander, Larry Karaszewski, R.L. Stine
Produção:Deborah Forte, Neal H. Moritz
Elenco:Jack Black, Dylan Minnette, Odeya Rush, Ryan Lee, Amy Ryan, Jillian Bell, Ken Marino, Halston Sage, Steven Krueger, Keith Arthur Bolden, Amanda Lund, Timothy Simons

Como um infernauta casado e recém-chegado à casa dos trinta, já começo a vislumbrar a expansão da linhagem dos Paixão (a existência está na continuidade do sangue, como diria Zé do Caixão) e não é segredo para nenhum pai ou mãe que seus rebentos tenham gostos parecidos que os seus próprios, mesmo que depois encontrem seus próprios caminhos.

No caso da iniciação ao gênero fantástico a coisa é mais delicada, já que você não pode entrar de sola em uma sessão de Quadrilha de Sádicos acompanhado de seu(sua) garoto(a) de oito anos, é preciso encontrar meios mais delicados. Embora o medo seja atemporal, os quadrinhos da EC Comics há muito não são publicados, Os Goonies e Deu a Louca nos Monstros ficaram confinados aos anos 80 e na televisão você só pode escolher entre Galinha Pintadinha e Peppa Pig… Você começa a se perguntar, como o horror para infantes ficou tão esquecido no tempo?

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Creio que parte do que explica este fenômeno está contido em duas respostas: a sociedade está engessada pelo politicamente correto e agora a cultura pop foi tomada por nerds adultos. Em suma, nos dias de hoje quadrinhos e TV de horror agora é coisa de gente grande e para os pequenos só o que é “adequado para a idade“… No cinema a segregação está ainda maior. Com a notória exceção a Super 8 (2011), iniciativas de mesclar os públicos são raras e concentradas em animações computadorizadas, como Hotel Transilvânia, Monstros vs. Alienígenas e A Casa Monstro.

Por isto acho que obras cinematográficas como Goosebumps – Monstros e Arrepios, filme live action que adapta para o cinema a popular série de livros escrita por R. L. Stine, devem ser apreciadas. Para terem uma dimensão do alcance da “grife”, desde 1992 já foram publicados mais de 180 livros com mais de 350 milhões de exemplares vendidos no mundo todo.

Goosebumps (2014)

Se a militância pela iniciativa é boa, será que o filme em si também é? Na verdade sentimentos mistos de uma premissa com potencial não totalmente aproveitada surgem, porém ainda assim é um competente filme pipoca para divertir velhas crianças como nós e, principalmente, a molecada no cinema.

Como os livros da série Goosebumps não tem exatamente recheio que se justifique um longa baseado em um livro só (e antologias ultimamente estão fora de moda), o roteiro usa da metalinguagem para colocar todos os monstros em um grande caldeirão. O filme abre com o adolescente Zach Cooper (Dylan Minnette, Deixe-me Entrar), que se muda com a mãe Gale (Amy Ryan, Ponte dos Espiões) para uma pequena e pacata cidade do interior, onde ela será a nova vice-diretora da escola local.

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Uma rua tediosa perfeitamente normal, não fosse por seu misterioso vizinho recluso e nervoso, conhecido apenas como “Sr. Calafrio“. Zach conhece sua filha Hannah (Odeya Rush, Somos o que Somos) e imediatamente se simpatiza com ela, porém é impedido pelo pai de vê-la.

Após o primeiro dia de aula na nova escola, onde Zach faz amizade com o nerd desajeitado Champ (Ryan Lee, Super 8). Ele retorna para casa e ouve uma discussão e gritos na casa ao lado. Ele chama a polícia, todavia é desacreditado pelo vizinho, pelos policiais e pela própria mãe. Temendo que Hannah esteja em perigo, Zach consegue entrar na casa junto com seu novo aliado Champ, enquanto “Calafrio” está fora.

Goosebumps (2016)

Na sala de estar eles descobrem dezenas de manuscritos de livros da série Goosebumps trancados à chave. Hannah os confronta sobre a invasão, porém Zach acidentalmente destranca e abre o livro “O Abominável Homem das Neves de Pasadena“, liberando um Yeti de verdade que foge para a rua.

Depois de encurralados pelo Yeti em um ringue de hockey, o pai de Hannah surge com o livro em branco e draga o monstro de volta. Ele revela que é na realidade o autor R.L. Stine e que ao criar as mais diversas criaturas em dezenas de livros, elas criaram vida e ficaram fora de controle, motivo pelo qual mantém os frutos de sua imaginação em manuscritos trancados à chave.

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Acontece que ao voltar para casa o grupo é confrontado por Slappy, boneco de ventríloco vivo criado por Stine em uma de suas obras mais famosas (O Mistério do Boneco), que está irado por ter sido aprisionado. Antes de qualquer possibilidade de reação, Slappy queima o próprio manuscrito para não ser capturado e foge com os outros para que sejam libertados e espalhem o medo por toda a cidade.

O filme é essencialmente um passeio numa casa assombrada: existe uma tentativa, mas os protagonistas nunca estão realmente em perigo imediato, apenas gritos, correria e sustos. O design das criaturas é extremamente bem feito e é complementado pelo competente uso do 3D e um CGI convincente. Fãs da série de livros vão ter numerosos easter eggs para encontrar com a imensa galeria de monstros aparecendo o tempo todo.

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Falando no elenco, Jack Black encarna a versão rabugenta e paranoica de Stine com força e competência, além de fazer as vozes dos monstros que falam no filme. É divertido ver suas caras e bocas quando, por exemplo, tem suas obras confrontadas com as de Stephen King (aliás, o próprio Stine faz uma pequena ponta no final como o zelador “Sr. Black”). O restante dos protagonistas não ajuda, também não compromete, porém vou abordar melhor mais a frente;

O potencial de Goosebumps se perde justamente em algumas escolhas equivocadas que com uma abordagem diferente o tornariam excelente. Em primeiro lugar, o péssimo uso dos personagens secundários… Renegados em participações minúsculas, explorar mais a divertida dupla de policiais da cidadezinha, a tia solteirona de Zach e os flertes do professor de educação física da escola em cima da vice-diretora poderiam trazer maiores possibilidades e situações engraçadas que nos fariam torcer mais por seus destinos.

Goosebumps (2014)

Outro problema está na personificação elenco principal jovem. A escolha por adultos na casa dos 18-19 anos para os papéis é equivocada, pois claramente este é um filme infantil e o roteiro foi escrito como tal, dado pela própria forma com que seus personagens falam e agem no decorrer da trama. Crianças na faixa etária dos clássicos citados no começo deste texto – lembrando: Goonies e Deu a Louca nos Monstros – se encaixariam melhor no contexto fantástico do universo criativo de Stine.

Movimentado e bem realizado, Goosebumps é um filme inocente e descompromissado que urge por um balde de pipoca cheio de manteiga. Como uma boa introdução aos livros, acertadamente sem os substituir, é uma excelente desculpa para mostrar ao seu pequeno clone/primo/sobrinho/neto monstros gigantes, lobisomens e bonecos pavorosos. Pode ser que se arrepie ou se assuste, mas com certeza vai gostar bastante.

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2 Comentários

  1. Antonio

    Caro Gabriel Paixão,

    Em consonância ao teu status atual, também sou infernauta recém-chegado aos 30, casado, mas com um pequeno (grande) diferencial: tenho uma filha de 1 ano e, tal como profetizado pelo nosso estimado Zé do Caixão, a continuidade do sangue é infalível e absolutamente existente. O gosto por horror da minha filhinha começa a ganhar contornos quando vejo-a assistindo a “Que Monstro te Mordeu?” e ao Halloween da Peppa Pig.

    Aguarde que muito provavelmente suas crias (ou seriam criaturas?) serão reflexos fidedignos do pai/mãe.

    Grande abraço.

  2. Augusto Ganzert

    Vou assistir esse filme só por causa do lobisomem.

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