Críticas

Cega Obsessão (1969)

Um filme que deve ser sentido em toda sua complexidade. A experiência do toque nunca mais será a mesma depois de Cega Obsessão.

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Cega Obsessão
Original:Môjû
Ano:1969•País:Japão
Direção:Yasuzô Masumura
Roteiro:Rampo Edogawa; Yoshio Shirasaka
Produção:Kazumasa Nakano
Elenco:Eiji Funakoshi, Mako Midori, Noriko Sengoku

Cega Obsessão é um desses clássicões japoneses com cara de atual. A imagem já um tanto envelhecida, obviamente, mas sua abordagem é tão atemporal que se passaria facilmente por um filme do século XXI.

A trama lembra em seu decorrer a do livro O Colecionador, de John Fowles, até chegar ao clímax final de seus últimos 20 minutos de desenvolvimento, onde podemos notar toda a característica visceral japonesa.

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Na realidade só nos surpreendemos tanto no final pois permitimos nos enganar ao longo do filme, pois, logo de início temos Michio (Eiji Funakoshi), um rapaz cego que visita uma galeria de arte e toca de uma maneira um tanto quanto sexual a escultura da modelo Aki Shima (Mako Midori) nua. Aki é nossa protagonista e narra toda a história, e ao ver o rapaz fazer aquilo com “ela” começa a realmente sentir os toques, como se transpusesse os limites corpóreos. Isso nos diz muita coisa sobre o desfecho, mas nesse ponto ainda estamos muito desconectados da obra para notar isso.

Aki é uma modelo que não conseguiu deslanchar sua carreira no mundo da moda e por isso trabalha para um artista plástico japonês que faz fotografias e esculturas. Um dia, ao chegar em casa muito cansada de um dia de trabalho, chama um massagista. O homem que vai até a sua casa é Michio e, com muito esforço, Aki se recorda dele na exposição, onde ele tocava obsessivamente sua escultura. A partir desse ponto, procura fugir, mas já é tarde demais, é desacordada e levada para uma espécie de galpão/atelier no meio do nada, com a ajuda da mãe louca de Michio.

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O atelier do rapaz é uma doideira: vários pedaços de corpos femininos nos são apresentados enquanto damos um giro no lugar acompanhando o aterrorizado olhar de Aki ao ouvir os motivos de seu sequestro. Ele quer utilizá-la como modelo. Ponto e apenas isso! Mas, obviamente, Aki fica desesperada com a situação e querendo escapar a qualquer custo, inclusive seduzindo Michio e o colocando contra sua protetora mãe.

A mãe é um ponto que merece destaque nessa trama, pois se sente culpada por ter gerado um filho cego e faz absolutamente tudo que o garoto pede, mas esse mimo é extravasado pois podemos notar que a mãe sente um ciúmes doentio do garoto, fruto desta criação bizarra desenvolvida há tanto tempo.

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Em certo ponto nossos protagonistas são deixados à deriva, momento ápice do filme e onde ele realmente se destaca como uma produção de horror. E de uma forma que se assemelha a Síndrome de Estocolmo, Aki realmente cria uma afeição por seu sequestrador, culminando em cenas sensoriais e de agonia extrema, dentro da escuridão do atelier.

Então, chegamos à reviravolta final. O filme caminha para um momento não imaginado pelo espectador. Terrível e inacreditável. Você não consegue se colocar no lugar dos personagens, por que, como a própria proposta do filme aponta, o lugar deles deve ser sentido em toda a sua complexidade, e não apenas observado. A nós resta apenas assistirmos atônitos a conclusão desta história, que nos faz refletir ainda mais quando a tela escurece.

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