Críticas, Quadrinhos

Rio Negro #01 (2016)

Folclore, Discovery Channel e Lovecraft em mais uma HQ imperdível da nova safra do terror em quadrinhos brasileiro.

Rio Negro #01
Original:Rio Negro #01
Ano:2016•País:Brasil
Páginas:44• Autor:Ikarow•Editora: Independente

A miscigenação do nosso povo, formado por culturas das mais diversas criou um berçário para os mais diferentes mitos e lendas. Um folclore riquíssimo que talvez não se repita em nenhum outro lugar do mundo com tamanha diversidade. Este folclore, ao mesmo tempo em que fascina e ensina, também assusta. Quantas lendas nós ouvimos ainda criança, contadas por nossos avós, com o intuito de nos orientar ou ensinar algo que devido aos detalhes sinistros ficaram marcadas em nossa imaginação pra sempre? A cuca, o saci, a mula-sem-cabeça, o curupira e o boitatá são apenas alguns dos infinitos seres místicos e sobrenaturais que povoam a imaginação de nosso país. É com base neste folclore que o quadrinista Ikarow constrói a narrativa de Rio Negro, HQ que começou online e que, mais recentemente, ganhou sua versão impressa.

A narrativa de Ikarow, assim como nosso folclore, é composta por diversos elementos que vão desde acontecimentos reais, como a descoberta de um peixe único na bacia amazônica em 1997, às lendas da região e, o mais inusitado, os mitos de Cthulhu, criados pelo escritor norte-americano H. P. Lovecraft (1890-1937). Ikarow amarra todos estes elementos muito bem e consegue, em sua HQ de estreia, algo que muitos autores experientes não conseguem: criar uma mitologia própria, com autenticidade e características muito particulares a partir de universos já existentes.

A premissa parte de uma descoberta de uma nova espécie de peixe nunca antes vista no Rio Amazonas. Este estranho peixe possuía características únicas e não se encaixava em nenhuma das famílias de peixes existentes. Quatro anos depois, uma nova pista surge, indicando que o habitat deste misterioso peixe possa estar prestes a ser encontrado. O casal formado pelo pesquisador, Elton e a fotógrafa ambiental, Margot, embarcam em uma expedição científica pelo Rio Amazonas em busca de mais pistas sobre o misterioso peixe e que acabará cruzando o caminho de tribos ancestrais que cultuam um misterioso deus anfíbio chamado “O Senhor dos Pesadelos”.

As influências d’O Senhor dos Pesadelos sobre uma perturbada Margot são um prato-cheio para que Ikarow explore o universo onírico e perturbador dos horrores cósmicos criados por Lovecraft que contrastam muito bem com o universo “real” e mundano que cercam os personagens em seu dia a dia. O traço marcado de Ikarow, com linhas fortes e sinuosas, acrescenta certa regionalidade visual à história remetendo à tradicional xilogravura muito presente na nossa cultura, e seu posicionamento da “câmera” muito próximo, às vezes consegue nos colocar na mente dos personagens, mas poderia ser mais aberto em algumas cenas para detalhar mais o ambiente, transmitindo uma sensação maior do horror cósmico pretendido.

A primeira edição de Rio Negro ainda conta com textos intercalando os capítulos que apresentam detalhes do universo da HQ ajudam a criar o clima documental da expedição. Estes textos ainda nos remetem aos contos lovecraftianos, muitas vezes narrados em forma de cartas, diários e documentos encontrados. A única, e importante, ressalva para a revista é a capa. A ilustração escolhida para a capa deve chamar a atenção e atrair o leitor, mas no caso, não diz muita coisa e não representa o rico conteúdo interno do gibi. No mais, Rio Negro é mais um excelente representante do nosso horror que, mesmo que bebendo nas fontes ancestrais concebidas por Lovecraft, traz uma brasilidade e um regionalismo que dão um prazer extra à já deliciosa leitura que a HQ proporciona.

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