Críticas

Death Note (2017)

Há poucos méritos nessa adaptação que não chega nem a raspar na essência de sua obra original

Death Note
Original:Death Note
Ano:2017•País:EUA
Direção:Adam Wingard
Roteiro:Jeremy Slater
Produção:Roy LeeDan, LinJason Hoffs, Masi Oka
Elenco:Nat Wolff, Margaret Qualley, Keith Stanfield, Paul Nakauchi, Shea Whigham, Willem Dafoe

Um dos motivos do mangá/anime de Death Note ser tão popular mesmo depois de uma década da obra original é o fato de ele ser global. A fórmula saiu dos padrões que em geral cercam os produtos do estilo japonês, com uma trama funcional, sem enrolações e extremamente inteligente, num jogo investigativo onde personagens icônicos discutem questões éticas voltadas sobre o poder de controlar a morte através de um misterioso caderno.

E bem… essa essência não é nem de longe o foco da adaptação americana de Death Note feita pela Netflix.

No filme, o jovem Ligth – um esperto estudante revoltado pela morte da mãe e irmã – encontra um estranho caderno capaz de matar pessoas apenas escrevendo seu nome nele e focando em seus rostos. Junto com o objeto, seu real dono, o deus da morte Ryuk acompanhará e aconselhará Light, que começa um romance com Mia, líder de torcida que acaba partilhando o segredo do caderno. Quando os dois começam a achar que são donos do mundo e assumem o codinome Kira, o maior detetive do planeta, conhecido apenas como L, passa a caçá-los após a morte de cerca de 400 criminosos.

Se na obra original, a trama investigativa era o principal foco, com uma dezena de reviravoltas capaz de explodir e mente daqueles que assistiam o anime, no filme americano a coisa muda de figura. É o esquisito romance entre Light e Mia que norteia a obra, afinal não nos aprofundamos direito em nenhum dos dois para entender seus sentimentos, enquanto a investigação acaba correndo como pano de fundo, sempre muito rápida e com soluções simples que beiram o banal. Tudo parece muito fácil para esse L, enquanto Light deixa de ser o puro psicopata do mangá para assumir traços muito mais de um mero mortal sempre em conflitos internos.

Há sim alguns pontos interessantes no filme. O diretor Adam Wingard parece ser fã de detalhes da obra. O Death Note da adaptação é incrivelmente bem caracterizado, mostrando páginas amareladas e sujas, com dezenas de listas de nomes anteriores, revelando que Light não é o primeiro a ter esse poder em mãos. Numa das páginas das regras (que são inúmeras e mais uma vez não entregam boa compreensão ao telespectador) há a inscrição “Não confie em Ryuk” e é aí que vem a melhor coisa do filme: o deus da morte.

Willem Dafoe está incrível como Ryuk. E seu visual é definitivamente a única coisa que supera expectativas aqui, nunca sendo mostrado em totalidade e assumindo traços sombrios bem além da obra original, onde a entidade funciona às vezes até como recurso de humor.

Infelizmente não podemos dizer o mesmo do restante dos atores, embora ficamos sempre na dúvida se é o potencial deles que não foi aproveitado o suficiente pelo roteiro apresentado, ou eles falham em suas atuações. Nat Wolff não parece entregar um bom Ligth nem com a proposta do filme. Já Keith Stanfield até nos empolga como L no começo, mas o mau desenvolvimento do personagem e sua mudança de personalidade drástica no final do filme o prejudicam. Margaret Qualley como Mia deveria ser uma surpresa por ter uma personalidade completamente diferente de sua original, mas a falta de inteligência da personagem prejudica o desempenho da atriz.

As mortes acabaram virando outro ponto explorado a esmo no filme. Se no original Light transforma o ataque cardíaco das vítimas em sua marca, aqui o filme se aproveita das regras de poder “desenhar” as mortes, dando um espetáculo visual em decapitações, suicídios e tantos outros tipos de finalizações que beiram o gore. Isso não ajuda quando o assunto é definir um estilo para a obra, enquanto transita entre terror teen e humor bobo (a cena das fotos com a cartola chega a ser ofensiva para os fãs). Some isso a uma trilha sonora que diversas vezes não cabe na cena apresentada, como na última, onde uma já não muito boa construção entre Light e o pai fica ainda pior junto à música de fundo.

O duelo de Light/Kira e L no mangá/anime é um jogo de inteligência extrema da parte dos dois. É a caçada entre eles que fez de Death Note um estrondoso sucesso mesmo no ocidente. O filme pode até mesmo funcionar como um entretenimento leve e despretensioso para um público que não teve contato com o original, mas a obra de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata tinha potencial para gerar algo grandioso e realmente marcante, não um filme notavelmente tão sem ambição.

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