
A Vingança dos Mortos (Sugar Hill, 1974), único longa dirigido por Paul Maslansky, certamente se trata de um filme de zumbis, mas essencialmente é um filme de vingança, como a tradução brasileira do título sugere. O diretor, que é mais conhecido como produtor das diversas sequências de Loucademia de Polícia, também atuou como roteirista em O Castelo dos Mortos Vivos (The Castle of the Living Dead, 1964), de Warren Kiefer, estrelado por Christopher Lee. Este, um terror gótico franco-italiano, se aproxima mais do que Maslansky apresenta em seu filme, feito dez anos depois, ao lidar com a vida pós-morte. Porém, diferente de um cientista insano que busca preservar o corpo humano pela eternidade com seus experimentos, Maslansky resgata, através de rituais vodu, um exército de homens mortos para que a protagonista, Diana “Sugar” Hill, consiga a vingança que tanto deseja.
Sugar, uma moça jovem, doce e apaixonada, interpretada por Marki Bey, tem sua paz abalada quando seu namorado, Langston, é brutalmente espancado até a morte por uma gangue comandada por Morgan (Oliver Quayle), um magnata branco que se mostra muito interessado em comprar o Haiti Club; uma casa noturna que Langston administrava e que não tinha intenção de vender.
O longa se inicia com uma intensa apresentação de dança africana, embalada pela canção-tema “Supernatural Voodoo Woman”, do grupo The Originals. Corpos se movimentam ao som de tambores e cantos ritualísticos do lado de fora da boate, emulando um tradicional festejo vodu. Logo após, nos introduz ao casal que estava prestes a se desfazer de maneira fatal, e dá o tom mais obscuro que se seguirá na narrativa de Maslansky.

Contrariado e movido pelo ódio, o ganancioso gangster toma uma atitude precipitada acreditando que terá o Haiti Club para ele ao retirar Langston de seu caminho. Ele certamente não contava com a força que a dor da perda de Sugar, que antes mostrava ares de ternura em seu semblante, a faria se transfigurar em uma mulher inquieta e sedenta por vingança, pronta para encarnar uma heroína blaxploitation imponente, disposta a fazer um inferno na vida dos homens que destruíram seu sonho romântico; aproximando-se das protagonistas interpretadas por Pam Grier em Coffy (1973) e Foxy Brown (1974), ambos de Jack Hill – o segundo traz uma personagem com narrativa bastante semelhante a de Diana Sugar Hill: duas mulheres que buscam sua própria justiça através da violência, após terem seus namorados mortos por gangues lideradas por homens brancos. Grier é uma atriz mais experiente e uma verdadeira estrela do subgênero, mas Bey, que estrelou Class of ’74 (1972), de Mack Bing, um sexploitation com estudantes bastante levadas, não fica nem um pouco atrás.
Sugar Hill percebe que precisa de ajuda para concretizar seu plano sangrento, ao mesmo tempo que decide sabotar qualquer chance de Morgan e seu braço direito, “Fabulous” (Charles Robinson), de assumirem o controle da boate. O que diferencia crucialmente A Vingança dos Mortos de Coffy ou de Foxy Brown, é que, ao invés de assumir o caráter mais comum de um filme de ação blaxploitation dos anos 70, que carrega bastante influência das artes marciais nas cenas de briga e da perseguição policial, como também vemos em TNT Jackson (1974), de Cirio H. Santiago, por exemplo, ele abraça o cinema de horror e segue por uma via mais obscura e sanguinária, situando sua narrativa em um espaço essencialmente negro.
O longa escolhe abordar o zumbi haitiano (aquele que não se alimenta de cérebros como os de Romero, e revive através de rituais de encantamento vodu), e usa signos abolicionistas africanos, referenciados por vestígios de correntes de homens aprisionados, fazendo menções aos tempos de escravidão. Os mortos-vivos em A Vingança dos Mortos trazem consigo fortes vestígios dessa época tão sombria. Como um símbolo abolicionista, eles portam braceletes de ferro velhos e mofados, que ora são encontrados abandonados pelos locais onde passam, e servem de auxílio à investigação policial, remetendo às suas correntes outrora arrebentadas, de homens que saíram de suas tumbas em um cemitério de escravos. A cultura vodu teve origem na África, foi trazida pelos escravos e, para sobreviver, incorporou elementos religiosos dos dominadores, como o batismo e conceitos católicos. Em Vudú Sangriento, também conseguimos identificar o trabalho dessa herança escravocrata.
Sugar busca a ajuda de Mama Maitresse, uma alta sacerdotisa vodu, interpretada por Zara Cully, atriz conhecida por seu papel na sitcom americana The Jeffersons (1975-1985). A heroína suplica por reforços para que consiga aniquilar todos os homens da gangue de Morgan. A anciã então, por meio de um ritual de invocação na floresta, materializa a presença de Barão Samedi, o deus vodu, interpretado por Don Pedro Colley, que atuou em De Volta ao Planeta dos Macacos (Beneath the Planet of the Apes, 1970), de Ted Post e em THX 1138 (1971), de George Lucas. O ator negro de quase dois metros de altura, faz de seu personagem uma imagem verdadeiramente assustadora. Trajado com uma capa e cartola negras, e acompanhado por um cajado, sua figura é semelhante a de nosso personagem tupiniquim mais macabro, Zé do Caixão, emblemática figura do horror criado por José Mojica Marins.
A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, 1968), primeiro filme dirigido por George A. Romero, é considerado por muitos a obra pioneira quando se refere a “apocalipse zumbi”, e Romero, de fato, se tornou referência mundial ao se falar de mortos-vivos. Realizado de forma independente e em preto e branco, o filme de 68 contava com um alto teor político em seu roteiro, trazendo um homem negro para o núcleo principal de uma história essencialmente branca, que age como herói e termina como mártir. Com muitas críticas ao militarismo americano e num contexto de Guerra do Vietnã, os zumbis de Romero se estendem por mais quatro filmes: Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), Dia dos Mortos (Day of the Dead, 1985), Terra dos Mortos (2005) e Diário dos Mortos (Diary of the Dead, 2008). Significativos demais para passar despercebidos por sua influência no cinema de horror, racialmente inclusivo e político, os zumbis de Romero em algum grau influenciam Maslansky, mesmo que seus mortos-vivos sejam representações de uma herança bem mais antiga, e seu contexto não seja o apocalíptico.
Me refiro a Romero para mostrar o destaque negro no universo de zumbis no cinema pré-anos 70, fora do contexto afro-americano do vodu, mas se formos explorar esse aspecto, que faz de A Vingança dos Mortos um filme único quando decide usar a temática somada ao horror, há de se mencionar os fantásticos Zumbi Branco (White Zombie, 1932), de Victor Hugo Halperin e A Morta-Viva (I Walked with a Zombie, 1943), de Jacques Tourneur, pioneiros no desenvolvimento de narrativas em torno dos rituais vodu. Ambos exploram a figura do morto-vivo somada a certo romantismo gótico: as duas obras trazem a representação de uma donzela extremamente bela e cobiçada, mas que acaba fatalmente morta e que ressurge através de magia vodu, vagando com o olhar distante e aprisionado, sem alma sob a terra (semelhantes aos zumbis de Sugar Hill). As duas obras também se passam em um contexto onde homens brancos e abastados acabam por se envolver com uma cultura negra e estrangeira para se conectarem com o além-vida.
Há um filme espanhol, bastante obscuro, chamado Vudú Sangriento (Voodoo Black Exorcist), de 1974, de Manuel Caño, ambientado em um navio de cruzeiro de luxo pelos mares caribenhos, com tripulantes brancos e de alta classe, onde a múmia de um sacerdote vodu é transportada e despertada acidentalmente no meio da viagem, através de um ritual de dança africana. Assim como nos filmes de Halperin e Tourneur, o longa também carrega a premissa romântica entre o morto-vivo e sua busca por reconexão com a antiga mulher amada.
No filme de Maslansky, os zumbis são construídos com uma sensibilidade genuinamente negra, liderados por uma figura feminina forte que busca causar sofrimento à gangue de homens majoritariamente brancos, funcionando também como uma resposta simbólica ao passado de violência e exploração imposto à população negra escravizada. As mortes fogem de serem excessivamente explícitas, mas sugerem situações terríveis e cruéis, como quando um dos homens é jogado vivo em um chiqueiro para servir de alimento aos porcos selvagens; ou quando obriga, por meio de controle mental, um dos homens a esfaquear a si mesmo até a morte.
Os assassinatos cometidos por Sugar seguem acontecendo, um atrás do outro, através dos poderes de Barão Samedi e sua horda de mortos. O tenente Valentine, um oficial de polícia charmoso interpretado por Richard Lawson, é quem segue investigando esses crimes, lutando para juntar os pontos em sua cabeça, passa a suspeitar das práticas vodu e do envolvimento de Sugar com as mortes. Os dois, no entanto, nutrem um interesse mútuo e um flerte que se desenvolve pelas beiradas dos acontecimentos. Perspicaz e extremamente sedutora, a bela protagonista, que trabalha como fotógrafa de moda, consegue lidar com Valentine e não deixar que ele atrapalhe seus planos.
A Vingança dos Mortos foi produzido pela American International Pictures (AIP), produtora independente que investia em filmes de baixo orçamento e acertou em cheio na área do blaxploitation com Blacula (1972) e Scream, Blacula, Scream (1973), que também tem um clímax vodu e segue uma fórmula semelhante; a AIP também foi responsável por Foxy Brown (1974), ficando conhecida como a descobridora de Pam Grier, o maior nome da produtora na década de 1970. É interessante reparar que, enquanto o foco dos filmes anteriores residia na transferência da tradição europeia para um novo rumo, trazendo o questionamento de porque deveriam todos os vampiros serem brancos? E, no caso de Foxy Brown, uma luta por vingança que combate o preconceito racial na cidade de Nova Iorque em meio a policiais e gangsters; em A Vingança dos Mortos, a direção de Maslansky muda completamente esse jogo, explorando um cenário já evidentemente negro para desenvolver sua trama.
Ao unir o imaginário vodu, o horror sobrenatural e a fúria política do blaxploitation, A Vingança dos Mortos transforma o morto-vivo em símbolo histórico e racial. O longa se sai muito bem ao explorar um passado histórico mantendo o teor vingativo do subgênero, mesclado com o macabro universo dos zumbis. Mais do que um filme de vingança, Sugar Hill é uma narrativa sobre fantasmas de um passado escravocrata que retornam para cobrar uma dívida impossível de apagar.



