Na última edição de Engrenagens do Terror, falei sobre um recurso de roteiro bastante utilizado nesse gênero que tanto amamos, o red herring. E, se o red herring é uma pista falsa, utilizada pelo roteirista para levar o público a conclusões errôneas sobre o que está acontecendo na história, o foreshadowing, nosso assunto de hoje, é o oposto: trata-se de um prenúncio, uma pista de algo que acontecerá adiante.
Muitos foreshadowings não nascem especificamente no roteiro. Podem surgir de uma ideia do diretor, da direção de arte, do montador, etc., ou estar relacionados com a trilha musical do filme. Sempre que ouvimos o marcante tema em duas notas de Tubarão (Jaws, 1975), composto pelo maestro John Williams, sabemos que o tubarão está próximo. É um prenúncio da presença do antagonista. Certamente, o tema ainda nem existia quando Peter Benchley e Carl Gottlieb escreveram o roteiro, baseado no livro de Benchley. Esse foreshadowing musical, porém, costuma vir acompanhado de outro foreshadowing, a câmera como ponto de vista do tubarão, e isso, sim, poderia já estar apontado no roteiro.
Nos filmes slasher, a câmera como ponto de vista do assassino tornou-se uma das assinaturas estilísticas do subgênero, e prenuncia a aproximação de Michael Myers, Jason Voorhes e cia. Para indicá-la num roteiro, basta escrever na descrição “POV de (nome do personagem):”, e então descrever o que o personagem está vendo. Muitas vezes, esse foreshadowing pode se revelar, na verdade, um red herring: acreditamos que o assassino está à espreita daqueles jovens distraídos, mas quem pula do meio do mato em cima deles é o “palhaço” da turma, fazendo mais uma de suas pegadinhas e criando um falso susto! Nesses casos, para não estragar a surpresa de quem está lendo o roteiro, pode ser indicado “POV deSCONHECIDO” ou “POV de ALGUÉM À ESPREITA” (POV = Point Of View, ponto de vista).
Voltando ao quesito musical, Premonição (Final Destination, 2000) – roteiro de Glen Morgan, James Wong e Jeffrey Reddick – prenuncia várias de suas mortes por meio da canção “Rocky Mountain High”, gravada pelo cantor norte-americano John Denver, morto em um acidente de avião em 1997 – vale lembrar que toda a trama do filme começa devido a um desastre aéreo, cujos sobreviventes passam então a ser perseguidos pela Dona Morte em pessoa. A canção toca no aeroporto um pouco antes do acidente, depois, no rádio, antes da morte de Tod (Chad Donella). É ouvida em um disco por Valerie (Kristen Cloke) antes de sua morte em um incêndio, e, por fim, cantada em francês por um artista de rua (Alessandro Juliani) em Paris, na cena da morte de Carter (Kerr Smith). Isso prova que a Morte tem não apenas bom gosto musical, como também um senso de humor bastante mórbido.
Um foreshadowing pode render boas rimas temáticas. Em Carrie, a Estranha (Carrie, 1976) – roteiro de Lawrence D. Cohen, baseado no livro de Stephen King -, a primeira e a última humilhação que vemos a protagonista sofrer estão relacionadas a sangue: no início do filme, no vestiário da escola, Carrie (Sissy Spacek) vira alvo de chacota das colegas por não saber como lidar com sua primeira menstruação. E, no clímax, é o sangue de porco, derrubado sobre sua cabeça durante o baile, que se torna o gatilho de sua – também sangrenta – vingança psíquica.
Falando em sangue, a cor vermelha é usada de maneira recorrente como prenúncio do sobrenatural em O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999), com roteiro de M. Night Shyamalan. Roupas, um balão, uma maçaneta de porta… nesse filme, objetos vermelhos sinalizam a presença de algum fantasma e/ou o poder paranormal de Cole (Haley Joel Osment).
Um dos foreshadowings visuais mais interessantes dos últimos anos pode ser encontrado em Midsommar: O Mal Não Espera a Noite (Midsommar 2019), com roteiro de Ari Aster. No quarto de Dani (Florence Pugh), um quadro com uma pintura de uma garota usando coroa e beijando um urso antecipa tanto o destino de Dani – que termina o filme coroada como a Rainha de Maio – quanto o de seu namorado, Christian (Jack Reynor) – que, como parte de seu sacrifício, é colocado dentro da carcaça de um urso.
Ao invés de visualmente, alguns foreshadowings podem surgir em nomes de personagens – como esquecer o assustador Louis Cyphre (ou Lúcifer) de Robert De Niro em Coração Satânico (Angel Heart, 1987), com roteiro de Alan Parker, baseado no livro de William Hjortsberg? – e diálogos – “Aquilo não é um cachorro. É algum tipo de coisa! Está imitando um cachorro…” (sim, é isso que um personagem diz em norueguês logo no início de O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), com roteiro de Bill Lancaster, baseado em uma história de John W. Campbell Jr., entregando assim todo o enigma do filme).
Mesmo que o público não os perceba em um primeiro momento, os foreshadowings ajudam a envolver o espectador e a construir as surpresas que virão – especialmente em um gênero repleto de mistério e ameaça como o terror -, além de serem um bom motivo para uma segunda assistida.
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E até a próxima edição de Engrenagens do Terror!




