Engrenagens do Terror #02: O Terror em várias camadas ou “Decantando ‘A Substância’”

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Na última edição da coluna, comentei sobre a força motriz de um roteiro, o conflito, e de como ele pode aprofundar-se em um dilema. Se você ainda não leu, vale dar uma olhada antes de adentrar as Engrenagens do Terror desta semana, pois vamos continuar falando do nosso tão desejado conflito.

Vimos que um conflito surge quando dois ou mais personagens possuem o mesmo objetivo ou objetivos opostos. Esse conflito irá colocar em ação forças de antagonismo que passarão a tumultuar as vidas dos personagens em diferentes camadas. Vamos então ver quais são essas camadas, focando especificamente em exemplos do cinema de terror.

Podemos ter o conflito PERSONAGEM X PERSONAGEM. Este é certamente o mais comum de todos. Afinal, as histórias são vividas por indivíduos, sejam eles humanos, vampiros, alienígenas… Em Longlegs – Vínculo Mortal (Longlegs, 2024) – roteiro de Osgood Perkins -, vemos a agente do FBI Lee Harker confrontando o assassino em série Longlegs. Indivíduo contra indivíduo. Em A Hora do Lobisomem (Silver Bullet, 1985) – roteiro de Stephen King, adaptando seu próprio livro “Cycle of the Werewolf” -, o garoto Marty, sua irmã Jane e seu tio Red precisam enfrentar… bem, pelo título brasileiro do filme, você já sabe.

Temos também o conflito PERSONAGEM X SOCIEDADE. Aqui é o indivíduo contra o sistema, os costumes, um conjunto de regras, uma visão dominante. Muitas histórias sobre distopias encaixam-se nesse tipo. Mas nem precisamos olhar tão além da nossa própria sociedade. Corra! (Get Out, 2017) – roteiro (vencedor do Oscar) de Jordan Peele – mostra o quão longe pessoas privilegiadas vivendo em uma sociedade racista podem ir quando têm certeza da impunidade. Em boa parte das adaptações do livro Frankenstein, de Mary Shelley – pegue a mais bem-sucedida recentemente, a versão de 2025 dirigida por Guillermo del Toro e com roteiro (indicado ao Oscar) dele próprio -, a criatura criada pelo Doutor Victor Frankenstein é vista pela sociedade como um monstro, o que leva a trágicas consequências.

Há também o PERSONAGEM X ELE PRÓPRIO. É o que chamamos de conflito interno, quando o personagem precisa tentar lidar com seus próprios medos, fraquezas, traumas, compulsões… a lista de coisas que ferram nossas cabecinhas é longa. O Maníaco (Maniac, 1980) – roteiro de C.A. Rosenberg e Joe Spinell, a partir de uma história deste – é um dos retratos mais sujos e impressionantes da decadência mental e moral de um homem rumo à psicopatia. E não é justamente no colo de um padre em conflito com sua fé que cai a incumbência de livrar uma garotinha do demônio em O Exorcista (The Exorcist, 1973) – roteiro (também vencedor do Oscar) de William Peter Blatty, baseado em seu próprio livro -?

Temos PERSONAGEM X NATUREZA. Aqui, a Mamãe Natureza não tem um pingo de pena do personagem (muitas vezes, ela tem toda a razão para isso). Animais furiosos, territórios selvagens arriscados, catástrofes ambientais, e geralmente alguém que mal sabe diferenciar uma vaca de um quati no meio disso tudo. Existe clássico maior do subgênero de ataque de animais do que Tubarão (Jaws, 1975) – roteiro de Peter Benchley e Carl Gottlieb, baseado no livro de Benchley -, com seu protagonista com medo de água (olha um conflito interno aí…)? Em Abismo do Medo (The Descent, 2005) – roteiro de Neil Marshall -, um grupo de exploradoras de cavernas luta para sobreviver a seres monstruosos, porém o ambiente perigosíssimo em que se encontram representa um desafio igualmente terrível.

Já em PERSONAGEM X DEUS/DESTINO, o que tumultua a vida do personagem é uma força superior, muitas vezes inexplicável e aparentemente inevitável – chame de destino, de Deus (ou seria o Diabo?)… Muitas vezes, trata-se de uma profecia. E é claro que já veio direto à mente A Profecia (The Omen, 1976) – roteiro de David Seltzer, a partir de uma ideia de Harvey Bernhard (não creditado). Ali, a previsão do nascimento do Anticristo concretiza-se na figura do menino Damien, acarretando uma série de mortes e desgraças. Especialmente no segundo filme da franquia, acabamos nos compadecendo do já adolescente Damien quando ele descobre seu horrendo e inexorável destino. A Morte te Dá Parabéns (Happy Death Day, 2017) – roteiro de Scott Lobdell – apresenta a protagonista presa em um loop temporal que parece sempre conduzi-la ao mesmo sangrento desfecho.

Em PERSONAGEM X MÁQUINA, a luta é contra uma tecnologia avançada. Hardware: O Destruidor do Futuro (Hardware, 1990) – roteiro de Richard Stanley (com diálogos adicionais de Michael Fallon), baseado na tira em quadrinhos SHOK!, de Steve MacManus e Kevin O’Neill – mostra humanos presos em um apartamento com um robô assassino capaz de se auto reconstruir. Mas nada impede que a ameaça seja imposta por uma tecnologia antiquada. Em Christine, O Carro Assassino (Christine, 1983) – roteiro de Bill Phillips, baseado no livro de Stephen King -, um carro modelo 1958 com vontade própria seduz e atormenta seu jovem proprietário.

É natural que uma história contenha mais do que somente uma dessas camadas de conflito, e, quanto mais ela possuir, mais rica essa história será. Vejamos como o sucesso A Substância (The Substance, 2024) – roteiro de Coralie Fargeat – costura incrivelmente várias dessas camadas.

Sua protagonista, Elisabeth, é uma estrela da tevê demitida pelos executivos (todos homens) da emissora em que trabalha por já não ser mais tão jovem. Temos aí um conflito PERSONAGEM X SOCIEDADE, uma sociedade patriarcal que se desfaz daquelas mulheres que não mais atendem ao padrão vigente de beleza e juventude. Essa rejeição leva Elisabeth a desenvolver um conflito interno – PERSONAGEM X ELE PRÓPRIO -, passando ela mesma a acreditar não ser mais merecedora da admiração alheia, algo impecavelmente representado na já clássica sequência em que Elisabeth se arruma para um encontro. A solução para isso ela busca na tal substância, que possibilita criar uma versão mais jovem de si próprio, o que gera então um conflito PERSONAGEM X NATUREZA. A quebra das regras da natureza do envelhecimento humano – bem como das regras da própria substância – conduz Elisabeth a um conflito com sua versão mais jovem, Sue, um PERSONAGEM X PERSONAGEM que, narrativa e simbolicamente, é a personificação de todos os conflitos anteriores – Elisabeth contra a sociedade, contra si mesma e contra a natureza.

É claro que não adianta ficar criando um monte de conflitos e depois não saber como amarrar tudo. Mas isso é assunto para uma outra edição de Engrenagens do Terror! Por ora, convido todo mundo a dar uma passadinha em linktr.ee/marcelomarchi77 e conhecer meus trabalhos, cursos e serviços relacionados a roteiro, e também a sugerir temas para nossas futuras conversas.

Até a próxima!

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