Engrenagens do Terror #3: O Medo Primordial no Roteiro de Terror

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Muitas vezes, quando estamos tentando criar, podemos acabar nos deparando com duas situações diversas. Uma delas é acharmos que nossa ideia não é original, e que por isso ela não vale a pena ser desenvolvida. Isso é ruim, porque nos trava. A outra situação é acreditarmos que, pelo contrário, nossa ideia é extremamente original, e que por causa disso ela precisa ser desenvolvida. Provavelmente, isso é ainda pior.

O mito da originalidade é nada mais do que isso: um mito. Estamos em 2026, e quase certamente tudo o que poderia ser criado em termos de narrativa já foi criado. Saber disso pode parecer desanimador, quando, na verdade, é uma libertação. Como roteirista, você não precisa reinventar a roda para entregar uma história envolvente, arrebatadora, que mexa com as pessoas.

E não sou eu que estou dizendo isso. Estudiosos da arte narrativa atestam que, desde a aurora da humanidade, desde que nossos antepassados começaram a se reunir em torno de uma fogueira para compartilhar histórias, nós estamos contando a mesma meia-dúzia de tipos de histórias. Esses tipos se misturam, influenciam-se mutuamente, adaptam-se às mudanças do mundo e da sociedade, mas estão sempre aí, sendo contados e recontados. E esse é o ponto: o importante é menos o que você conta, e mais como você conta. Quando conta de maneira surpreendente uma história que já foi explorada um sem-número de vezes, você automaticamente se torna essencial para o projeto, pois é a sua visão sobre aquilo, e só você vai ser capaz de contar daquela maneira.

Mas, afinal, como surgem as ideias?

É possível dizer que existem histórias que são mais character-driven (movidas pelos personagens) e outras que são mais plot-driven (movidas pela trama).

Nas histórias character-driven, o foco se concentra no desenvolvimento dos personagens, em suas psicologias. É quase um estudo daquelas personalidades diante de determinadas situações.

Nas histórias plot-driven, o foco se concentra na trama, no enredo. Existem mais eventos, mais reviravoltas.

No terror, filmes que colocam o assassino como figura central da narrativa, que nos fazem imergir em sua psicose, são bons exemplos de character-driven: Psicopata Americano (American Psycho, 2000) – roteiro de Mary Harron e Guinevere Turner, baseado no livro de Bret Easton Ellis -, Retrato de um Assassino (Henry: Portrait of a Serial Killer, 1986) – roteiro de Richard Fire e John McNaughton -, A Fria Luz do Dia (Cold Light of Day, 1990) – roteiro de Fhiona-Louise… Em outra vertente, mesmo um filme sobre vampiros pode estar mais interessado no lado humano (se é que se pode chamar assim) desses seres, e Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013) – roteiro de Jim Jarmusch – é bem character-driven.

Acredito que a imensa maioria dos filmes de terror sejam plot-driven. Por exemplo: também temos assassinos nos slashers, e sabemos o quanto tais personagens são essenciais para as grandes franquias desse subgênero, mas fica claro que Sexta-Feira 13 (Friday the 13th, 1980) – roteiro de Victor Miller e Ron Kurz (não creditado) -, A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, 1984) – roteiro de Wes Craven – e Terrifier (2016) – roteiro de Damien Leone – não têm como principal objetivo entregar ao público um retrato íntimo da psique de seus respectivos serial killers. E, por mais profundos que sejam os personagens de Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles, 1994) – roteiro de Anne Rice, baseado em seu próprio livro -, existe ali uma trama muito clara e delineada.

Muitas histórias plot-driven costumam nascer da proverbial pergunta “e se…?”. “E se uma jovem vegetariana comesse carne pela primeira vez e, a partir daí, desenvolvesse um apetite cada vez mais insaciável por carne humana?”. E temos Raw (Grave, 2016) – roteiro de
Julia Ducournau. “E se uma garota começasse a trabalhar na casa de outra garota que, por sua vez, está grávida de um lobisomem?”. Eis As Boas Maneiras (2017) – roteiro de Juliana Rojas e Marco Dutra.

Milhares de histórias de lobisomem já tinham sido contadas antes de As Boas Maneiras. Milhares de histórias de gravidez sobrenatural também. Porém, Rojas e Dutra apresentaram esses dois assuntos através de uma visão muito interessante e particular: Clara (Isabél Zuaa), a babá/governanta pobre e negra, e Ana (Marjorie Estiano), a patroa rica e branca, desenvolvem um relacionamento amoroso; a história da concepção do bebê é contada com uma brasilidade pouco comum no subgênero de filmes de lobisomem; Clara resolve criar o filho de Ana (Miguel Lobo) e precisa tomar uma série de precauções para que o segredo de que ele é um lobisomem não seja descoberto… entre outros elementos que fazem do filme único.

Muito da criatividade de um artista reside em sua capacidade de fazer conexões inesperadas. Alien – O 8º Passageiro (Alien, 1979) – roteiro de Dan O’Bannon, a partir de uma história dele e de Ronald Shusett – é basicamente uma história de casa mal-assombrada, mas a casa mal-assombrada é uma nave espacial. E os astronautas são um tipo de caminhoneiro cósmico. São conexões ao mesmo tempo tão simples, inusitadas e geniais que acabam fazendo todo o sentido.

No terror, além do “e se…?”, um bom ponto de partida pode ser o medo primordial. De acordo com o roteirista Daniel P. Calvisi, o medo primordial é “um sentimento universal de pavor, sentido por pessoas em todo o mundo”. Quando um roteirista consegue criar uma nova abordagem para um pavor desse tipo, o resultado é capaz de impactar públicos em qualquer cultura, em qualquer lugar do planeta.

Calvisi afirma que o medo primordial em Corra! (Get Out, 2017) – roteiro de Jordan Peele – é o retorno à escravidão. O roteirista Tom Vaughan nos dá outros exemplos: em A Hora do Pesadelo, é o medo de nossos próprios sonhos; em O Exorcista (The Exorcist, 1973) – roteiro de William Peter Blatty, baseado em seu próprio livro -, o medo de ver alguém que amamos transformando-se em um ser assustador; em Corrente do Mal (It Follows, 2014) – roteiro de David Robert Mitchell -, o medo de ser seguido por algo imparável. Você identifica um medo primordial e explora-o ao máximo.

Corrente do Mal (2014)

Enfim, esteja você escrevendo uma história character-driven ou plot-driven, o importante é ter em mente que não se trata de uma dicotomia. Uma história plot-driven também precisa de bons personagens, com os quais o público se importe minimamente, assim como uma história character-driven também precisa de coisas acontecendo com os personagens, para que eles revelem todas as suas facetas.

Então, até a nossa próxima edição de Engrenagens do Terror! E, se você ainda não deu uma conferida nos meus trabalhos, cursos e serviços relacionados a roteiro, clique em linktr.ee/marcelomarchi77 e seja bem-vindo!

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