A Vampira de Veludo (1971)

A Vampira de Veludo
Original:The Velvet Vampire
Ano:1971•País:EUA
Direção:Stephanie Rothman
Roteiro:Maurice Jules, Charles S. Swartz e Stephanie Rothman
Produção:Charles S. Swartz e Roger Corman (Não Creditado)
Elenco:Michael Blodgett, Sherry E. DeBoer, Celeste Yarnall

O universo dos filmes exploitation não costuma ser muito tentador para as mulheres. Elas quase sempre são colocadas em situações perigosas, com pouca ou nenhuma roupa e a inteligência não é o forte da maioria das personagens. No entanto, uma mulher ousou invadir o ambiente masculino destes sets para colocar moças nuas em perigo. Só que agora havia espaço para questionar, ou pelo menos deixar um leve rastro da força feminina nas tramas.

Stephanie Rothman nunca escondeu que não estava no ramo dos exploitations por amor à causa, mas sim porque era um terreno fértil para se trabalhar e ela precisava de um emprego. Esse distanciamento é seu grande trunfo em A Vampira de Veludo, quarto longa-metragem da americana como diretora depois de uma boa trajetória como roteirista. Ancorada pelo produtor Roger Corman, Rothman criou um terror psicodélico que não se assume como tal, mas que nem por isso deixa de divertir.

O fiapo de roteiro é focado no casal Lee (Michael Blodgett) e Susan (Sherry Miles), convidados pela misteriosa Diane LeFanu (Celeste Yarnall) para passarem um final de semana em sua casa no deserto. Conhecer essa breve sinopse é praticamente dispensável, já que não é em seu elenco ou em seus diálogos que A Vampira de Veludo conquista o espectador. Se dermos um desconto às frases de efeito e as interpretações picaretas, a produção faz lembrar, em muitos momentos, a fase inicial do italiano Tinto Brass, em especial O Uivo (1970).

O deserto é o pano de fundo para que Diane arme emboscadas e consiga alcançar o pescoço suculento de suas vítimas. Seus “ataques” são permeados por um forte erotismo. Porém, indo contra a ideia do feminino como algo perigoso, que alguns filmes de gênero reforçam, aqui a ideia é criar uma fantasia macabra. As sequências de sonho são, de longe, as melhores, justamente por reforçarem a atmosfera etérea e aproveitarem todo o significado das cores, em especial o vermelho sempre presente no figurino de Diane. Não é nem um pouco inovador, mas mostra o talento de Rothman como diretora e roteirista e cria um contraste um tanto cômico com as cenas mais “tradicionais”. Quando os personagens conversam, a paciência do público é testada. Mas vale persistir na sessão e se deixar levar pelos arroubos poéticos da cineasta. Aliás, o filme poderia ser todo deles, impecavelmente fotografados por Daniel LaCambre, que já havia trabalhado com Eric Rohmer e Jean Eustache.  Aí sim teríamos um filme e tanto!

Por mais que deixe impressa sua assinatura em alguns momentos, Stephanie Rothman segue as regras básicas do terror exploitation setentista. Não deve ter sido fácil, mas ao invés de tentar romper com os padrões, a diretora opta por pitadas de rebeldia dentro da trama. Há mais presença feminina que em muitos exemplares do gênero e suas personagens tomam a iniciativa não apenas para satisfazer o fetiche dos homens, mas como forma de exercer poder. Isso está nas entrelinhas e pode ser que não tenha sido notado na época de seu lançamento. Mas só o fato de carregar o título de única mulher a ocupar a cadeira de direção na produtora de Roger Corman já faz o trabalho de Rothman digno de nota. O exploitation sempre destacou as mulheres em frente às câmeras, musas de realizadores sempre prontas para tirar a roupa e serem atacadas por monstros de todos os tipos. Perceber uma preocupação em construir personagens mais complexas, por mais discreta que seja essa complexidade, já nos permite uma outra leitura, uma outra proposta de exploitation.

A revisão de A Vampira de Veludo faz desejar que mais mulheres invistam no terror exploitation, que, ao contrário do que pensam muitos críticos e estudiosos, não é só diversão perversa com sangue, nudez e afins. Uma vampira não é apenas uma vampira. Basta alguém com perspicácia dar a ela muito mais que sede de sangue na hora de criar um roteiro. E Stephanie Rothman é uma ótima referência para isso.

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Bianca Zasso

Bianca Zasso

Bianca Zasso é jornalista e possui especialização em cinema. É editora e sócia do site Formiga Elétrica. Apresenta a série de vídeos Bia na Toca, realizada pela produtora Toca Audiovisual. Integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) e do Elviras – Coletivo de Mulheres Críticas de Cinema.

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