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Devaneios de uma Mente Perturbada
Original:
Ano:2021•País:Brasil
Autor:Adam Mattos•Editora: Editora Flyve

A literatura de Adam Mattos é pavimentada de incômodos. Já havia deixado rastros em uma estrada de árvores secas em sua primeira obra, a antologia poética Alma em Pedaços, ao lidar com temáticas como aborto, estupro, pedofilia, suicídio… além de apresentar demônios, criaturas advindas dos mais obscuros oceanos da mente. “Um demônio sussurra no meu ouvido“, na expressão de um de seus versos, provavelmente é a melhor definição de sua id perturbada. Em Devaneios, ele se aprofunda ainda mais em pesadelos urbanos na composição de crônicas do “absurdo” – pelo menos deveriam ser chamadas assim, embora retratem também situações que dialogam com episódios que poderiam acontecer em qualquer lugar.

Lançado pela Editora Flyve, com capa de Anael Medeiros, revisão de Isabelle Drumm e diagramação de Ronald Monteiro, Devaneios de uma Mente Perturbada é composto de 25 contos curtos, passeando por causos do cotidiano e personagens que habitam as diversas camadas da sociedade, mas mergulhados numa construção perversa. Adam Mattos não poupa o leitor de uma escrita fria, vagando por narrativas simples e agressivas, capazes de criar feridas na mente dos que tentarem atravessar cada passagem. Por mais tortuoso que seja o percurso, vale cada cicatriz que despontar em sua retina, cada gota de sangue que verterá como lágrima.

Iniciando com “Solidão“, ele apresenta um drama de um cotidiano melancólico, escrito em primeira pessoa. Depois parte para o curioso “A Lenda das Duas Cruzes“, com toques sobrenaturais em uma típica história de fantasmas. Já “Assassinato?” leva o leitor a se questionar sobre os prazeres que a morte pode trazer às testemunhas, assim como ela é reflexo de acordos e vinganças da “Máfia Paulistana“. Também é abordada na visão de um monstro na narrativa “Enfeite“. Uma visão do Inferno pode ser traduzida no simbólico “Escuridão do Infinito“, provavelmente um pesadelo que o “Jogador” enfrentará se não souber lidar com seu vício. Adam Mattos volta a descrever uma situação horrivelmente comum com “Um Pobre Senhor“, relatando mais uma triste jornada.

Apocalipse” narra uma distopia com a apresentação de um mundo em ruínas, onde a carne humana pode ser o único prato viável; “O Sonho” relata o amor dos pais na realização do melhor desejo do filho, envolto em drama e lágrimas; também aborda um pai desesperado no conto “O Acidente“, mostrando que existem coisas mais horrendas que a própria culpa; o conto “Membros Perdidos” conduz a personagem Alice a saber detalhes macabros sobre sua banda favorita; “O Forasteiro” sugere cautela às novas amizades, principalmente as vindas de fora; enquanto “Benjamin” mostra a rotina de um mercenário na caça a sua próxima vítima. Conspiração, lavagem cerebral ou invasão alienígena…qual é o fio condutor de “O Condomínio“? – você irá se perguntar no avançar das páginas, assim como o fará em “Julieta” e seu final aterrador.

Cinzas” é uma das histórias mais divertidas da obra ao mostrar um detetive envolto em um mistério com um toque do absurdo. E a mesma sensação será transmitida por “O Caçador de Buzinas” com sua trama sendo contada por um diferente prisma. O “Sentir” permite, como o título sugere, que o protagonista desafie seus limites em busca de uma simples sensação; esta que irá perseguir os desejos de “Romulo” até confrontar seu próprio veneno; Os contos “Paulo e Liza” e “Pânico” poderiam ser lindas histórias de amor sobre o encontro com a alma gêmea, se não fossem certas descobertas perturbadoras de seus últimos atos. O autor volta a abordar a solidão em “Sozinho“, mas até chegar a ela será preciso acompanhar situações envolvendo núcleos macabros que se integram para a construção do título.

No penúltimo conto, “Terrível Decisão“, Adam Mattos reescreve o horror vivido por um rapaz que resolveu exagerar em suas ações, relembrando o caso do assassinato do jogador Daniel Corrêa, em 2018. E a publicação se encerra com o bizarro “O Quarto 12“, envolvendo o Bran Plaza Inn, estranhamente mantido sem acesso aos hóspedes. A descoberta que motiva o mistério não tem elementos sobrenaturais ou maldição fantasmagórica. É algo pior e bem mais assustador, que somente alguém em seus “devaneios perturbadores” seria capaz de construir.

Com uma linguagem simples, sem exageros descritivos, em pouco mais de 180 páginas, o autor e suas obras merecem sua atenção. Muito ainda se falará sobre a produção literária e a capacidade imaginativa de Adam Mattos, seja na composição de pesadelos ou no gatilho de seus piores medos.

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