![]() A Fortaleza Infernal
Original:The Keep
Ano:1983•País:UK Direção:Michael Mann Roteiro:Michael Mann, F. Paul Wilson Produção:Gene Kirkwood, Hawk Koch Elenco:Scott Glenn, Ian McKellen, Jürgen Prochnow, Robert Prosky, Gabriel Byrne, Alberta Watson, William Morgan Sheppard, Michael Carter, Wolf Kahler, Rosalie Crutchley, Frederick Warder, Bruce Payne |
Pode-se montar uma prateleira de produções que se tornaram cult com o passar dos anos, embora tenham fracassado nas bilheterias e sido consideradas ruins pela crítica especializada da época. Nela iriam figurar filmes como Possessão (Possession, 1981), O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), Quando Chega a Escuridão (Near Dark, 1987), Hardware – O Destruidor do Futuro (Hardware, 1990) e até Fome Animal (Braindead, 1992). Duna (Dune, 1984) é uma exceção à regra, no meu ponto de vista: teve um box office não muito bom, é cult, mas os críticos da época estavam corretos em defrenestá-lo. E há A Fortaleza Infernal (The Keep, 1983), uma adaptação complicada da obra do escritor americano F. Paul Wilson, porém exala uma deliciosa sensação nostálgica e é beneficiado pelo elenco e atmosfera.
Michael Mann ainda não era um cineasta requisitado pela indústria de Hollywood quando assumiu a confecção de Fortaleza Infernal. Havia feito alguns curtas, um filme para a TV e o elogiado Profissão: Ladrão (Thief, 1981), com James Caan e Jim Belushi. Seu trabalho seguinte envolveria exatamente nazistas despertando uma entidade demoníaca nas grossas estruturas de uma fortaleza, contando com nomes em ascensão no cinema como Scott Glenn, Ian McKellen, Jürgen Prochnow, Robert Prosky, Alberta Watson, Gabriel Byrne e até um discreto Bruce Payne; em outras palavras, uma junção de atores carismáticos e futuros vilões do cinema de ação.
Com filmagens desenvolvidas no País de Gales, em 13 semanas, o produto final chegou a ter 210 minutos até exibições-testes pedirem por um trabalho mais enxuto. Não conseguiu esconder as dificuldades na pós-produção e nos efeitos visuais, principalmente após a morte do técnico Wally Veevers, o que obrigou Mann a dar o trato final em 260 sequências. Os necessários cortes foram notados na trilha sonora, no desaparecimento de personagens e no final acelerado, tornando Fortaleza Infernal um videoclipe oitentista que, obviamente, desagradou o autor da obra: F. Paul Wilson depois publicaria a antologia “The Barren (and Others)“, escrevendo na apresentação que The Keep era “visualmente intrigante, mas, fora isso, totalmente incompreensível“. O conto “Cuts“, escrito por ele, fala sobre um roteirista que lançou uma maldição vodu sobre um diretor que destruiu sua obra.
A despeito de seu percurso problemático, A Fortaleza Infernal ocupa um bom lugar dentre as minhas memórias afetivas, da época em que eu caçava fitas de horror nas locadoras do bairro. Lançado pela CIC Vídeo, a capa trazia uma frase muito convidativa: “Um conto de terror gótico que beira o sobrenatural e o desconhecido.“. Na verdade, ele é absolutamente sobrenatural, mas há realmente elementos góticos bem interessantes, além de um atmosfera de horror de época, com um vilarejo próximo a uma estrutura medieval, com aspecto de um mosteiro com suas próprias lendas e mistérios.
Ambientado em 1941, na Romênia, nos Montes Cárpatos, no auge da Segunda Guerra Mundial, durante a Operação Barbarossa, uma unidade motorizada da Wehrmacht, sob o comando do Capitão Klaus Woermann (Prochnow), chega a uma comunidade isolada e próxima a um forte. Assim que adentram as muralhas da estrutura e conhecem o zelador Alexandru (William Morgan Sheppard) e seus dois filhos, os soldados já ficam sabendo de superstições que envolvem o local: não há fantasmas habitando a fortaleza, mas algo mais ameaçador, protegido por 103 cruzes sem a parte superior.
Quando percebem que as cruzes são de prata, os soldados Lutz (John Vine) e Oster (Phillip Joseph) tentam retirar uma delas e liberam um dos grossos tijolos, acessando uma espécie de passagem para outra dimensão onde habita a entidade Radu Molasar (Michael Carter), ainda sem aspecto corpóreo. Como uma fumaça intensa, os dois soldados explodem no contato com a criatura, agora à solta, vagando pelo edifício. Sem explicação para as mortes, imaginando que se trata de uma ação dos partisanos, protegidos pelos locais, chega ao forte o destacamento SS Einsatzkommandos, comandado pelo sádico Erich Kaempffer (Byrne). Mesmo a contragosto de Woermann, ele executa três moradores e ameaça matar mais.
A aparição de uma mensagem enigmática em uma das paredes atrai a atenção do Padre Mihail Fonescu (Prosky), que sugere que tragam o historiador judeu doente Theodore Cuza (McKellen) de um campo de concentração para ajudar na tradução. Ele e sua filha Eva (Watson) se instalam por lá, depois que decifram que a língua é de origem eslavo antigo. Outras mortes acontecerão, enquanto o estranho Glaeken Trismegestus (Glenn), com olhos claros, será atraído ao local partindo da Grécia para ajudar a deter Molasar, que terá dado uma condição melhor para Theodore Cuza, desde que ele retire de lá um talismã escondido, permitindo seu deslocamento além da “fortaleza infernal“.
A base narrativa, tanto do autor da obra quanto do roteiro de Michael Mann, é muito interessante. Nazistas enfrentando uma ameaça sobrenatural em um período de ascensão na Segunda Guerra é puro deleite. E pode-se elogiar o elenco de rostos promissores, o cenário gótico e alguns dos efeitos visuais na movimentação da criatura numa época sem excessos digitais. A direção de Mann é excessivamente artística, a partir da fotografia de Alex Thomson, com um panorama paisagístico bem desenvolvido, apesar das muitas sequências em câmera lenta; ele já se mostrava um diretor competente e hábil em lidar com um elenco tridimensional.
Associado à trilha sonora, com gelos secos usados à exaustão, Fortaleza Infernal tem aspectos de um clipe oitentista, um arthouse com elementos de horror sobrenatural. Os efeitos especiais se alternam entre bem realizados e os extremamente datados. Há aqueles raios azulados que saem dos dedos, olhos brilhantes artificialmente, bonecos sendo atirados contra a parede em explosões… são evidências de que o filme pede uma nova versão, mais refinada, com um roteiro dinâmico, ainda que mantenha a boa atmosfera de “conto de fadas de horror“, como foi a proposta do diretor desde que aceitou o projeto.
Revisto depois de anos de aluguel da fita, A Fortaleza Infernal perdeu algumas caveiras na avaliação saudosista, mas ainda coloco-o entre os cults que aprecio. Realmente há momentos confusos e um final acelerado, uma solução rápida na busca por uma conclusão mais otimista, porém tem uma trama forte, é um terror levado a sério, com exposição de cadáveres e uma ambientação sinistra. A geração atual pode não curtir tanto tendo outros exemplares mais intensos e dinâmicos até porque nunca terão a sensação nostálgica de confrontar um inimigo poderoso e manipulador à mostra na prateleira de uma locadora de bairro.







