Crítica Infernauta: Yamishibai – 1ª Temporada (2013)

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Yamishibai - 1ª Temporada
Original:Yamishibai - Season One
Ano:2013•País:Japão
Direção:Tomoya Takashima
Roteiro:Hirotake Kumamoto
Produção:Toshio Akashi, Nobuyuki Hosoya, Shôko Kunisada
Elenco:Kanji Tsuda, Miho Okasaki, Sara, Shôichirô Masumoto, Ryôta Murai, Sawaki Akimoto, Keisuke Ueda, Ayaka Ônishi, Ryô Hirano

por Lucas Freitas

Tudo começa com o som dissonante e metálico de um realejo que ecoa ao entardecer. Atraídas por aquele som, as crianças interrompem suas brincadeiras no parquinho e se aproximam do homem mascarado, que as atraí com sua música curiosa.

Aproximem-se e deslumbrem-se!” diz o kamishibai-ya (o narrador das histórias), enquanto bate em um pequeno tambor e abre as portas de seu kamishibai: É hora de ouvir histórias de terror japonesas”.

É com essa introdução, repetida, com algumas variações, em todo episódio, que o anime Yamishibai (conhecido aqui com o subtítulo Histórias de terror japonesas), já prepara seu público para aquilo que está para ver: um mundo estranho, peculiar e aterrador que, desde 2013, tem dado espaço para lendas urbanas e tradicionais do Japão.

Agora, o que torna essa série de terror tão fascinante e, ao mesmo tempo, única, é sua escolha em trabalhar com a estética do kamishibai, uma tradicional forma de contação de histórias japonesa, unindo, assim, o tradicional com o moderno.

Mas vamos por partes, sim?

Kamishibai – o tradicional teatro de papel:

 O Kamishibai (紙芝居), é uma técnica de contação de histórias tradicional japonesa, cuja tradução poderia ser “teatro de papel” (Moriki, Franca, 2017, p.174). Originada no século XII nos templos budistas, essa modalidade de narrativa se tornou extremamente popular no Japão dos anos 1920, florescendo durante a Grande Depressão e se tornando particularmente popular no período do pós-Segunda Guerra (idem, p.176-177). De fato, como apresentado no artigo “Mukashi, Mukashi, o Kamishibai e a Formação de Leitores”, estima-se que, no auge da sua popularidade, “por volta da década de 1950, havia cerca de 3.000 artistas que se utilizavam do ‘teatro de papel’ em Tóquio, e 50.000 em todo o território japonês.” (p.179).

Composta por uma caixa de madeira, o Kamishibai permite que o narrador insira ou remova cartões ilustrados à medida em que vai contando sua história, de modo que as imagens servem de apoio à atividade oral. Podendo variar entre oito a vinte por história, são compostos tanto por ilustrações, no anverso, quanto por texto que pode se referir tanto à narrativa quanto ao modo correto de passar os cartões (idem).

No que diz respeito aos temas, o kamishibai oferecia uma variedade de temas, indo de contos tradicionais a outras divisões como notícias, narrando os eventos da Segunda Guerra, por exemplo (p.177), histórias cristãs e até mesmo sendo adaptado para a educação, em um processo bastante parecido com o que acontece com o cordel brasileiro, ainda que se tratem de mídias bem diversas.

Igualmente rica era a escola artística que se originou dessa indústria, que foi a formação de muitos mangakás, responsáveis pela confecção dos cartões ilustrados. Dentre eles, talvez tenha sido  Shigeru Mizuki (1922-2015), o artista com maior destaque dessa geração. Mais conhecido por seu trabalho em Gegege no Kitarou, e por seu papel no resgate e popularização dos youkais, Mizuki teve seus primeiros trabalhos artísticos no pós guerra nos teatros de papel. De fato, o próprio Gegege no Kitarou tem suas origens no kamishibai, na obra Hakaba Kitarou (algo como o Kitarou do Cemitério), desenhada pelo próprio autor.

Como se isso por si só não já não fosse impressionante o suficiente, o kamishibai também pode ter apresentado ao mundo o primeiro super-herói na figura de Fantomas (mais conhecido lá fora como Golden Bat, ou Ōgon Batto) que teve suas origens em 1930, criado por Ichigo Suziki e Takeo Nagamatsu. De tão popular, o personagem sobreviveu à era do kamishibai, sendo adaptado para o mangá e até mesmo para o cinema.

No entanto, por mais popular que fosse, o kamishibai sofreu bastante com o surgimento de outras formas de entretenimento,  como revistas e a própria televisão. Assim, à medida que esses novos meios foram se popularizando, o teatro de papel iniciou seu declínio, se tornando, hoje, uma peça quase esquecida do passado, ainda que seja mantida e preservada como parte do patrimônio cultural japonês, influenciando obras até os dias de hoje, como iremos ver a seguir:

 Yamishibai – o teatro das sombras:

E eis que chegamos no tópico do artigo de hoje. Mais especificamente, vou me ater à primeira temporada de Yamishibai, que teve início em 14 de julho de 2013, na TV Tokyo, e contou com um total de 13 episódios.

Iniciando com A Mulher do Talismã, a série já de saída nos apresenta com aquela que virá a ser sua estrutura principal: ao cair da tarde, o Narrador (o kamishibai-ya) toca sua música e chama as crianças, e o espectador, para verem o conto que se desenrolará em seu kamishibai. Iniciada a história, acompanhamos uma breve introdução do homem que nos apresenta um jovem que acaba de se mudar para um novo apartamento, onde se depara com um estranho talismã no teto. A partir daí, somos entregues ao episódio, que vai evoluindo até que a narrativa curta (não mais de 5 minutos) chegue ao seu final, em uma estrutura que se manterá praticamente inalterada  ao longo de toda a temporada.

Apesar de se apoiar em uma estrutura bastante rígida, isso não significa que Yamishibai seja uma série repetitiva. Ao longo dos 13 episódios, somos apresentados a uma gama bem variada de histórias, que abordam desde o horror puro (Amaldiçoada), à traumas infantis (A Lua), passando por críticas sociais bem contundentes (O Andar Seguinte, O Bagageiro), tudo isso enquanto exploram o fascinante mundo das lendas urbanas japonesas.

As histórias, por sua vez, são bastante favorecidas pelo formato extremamente curto da série, visto que assim a produção consegue cortar toda e qualquer gordura narrativa, e se ater ao mínimo necessário para causar o efeito máximo. Existem, claro, ocasiões em que esse fator pode atuar contra a série, visto que algumas histórias poderiam ter um pouco mais de informação ou desenvolvimento. Ainda assim, no que diz respeito à primeira temporada, o efeito de curta potencializa bastante a tensão e o efeito de virada das histórias.

Mas, por mais que possua um belo trunfo narrativo, o que efetivamente diferencia Yamishibai dos demais animes de terror é, sem sombra de dúvida, sua estética.

Tomando por base o kamishibai, toda a série, de sua introdução ao desenvolvimento, se apresenta ao telespectador tal qual um teatro de papel. Isso, mais do que garantir a identidade visual, também garante muito do efeito de terror a que a série se propõe.

Porque, ao mesmo tempo em que nos remete ao que deveria ser um universo mais infantil, expectativa essa quebrada já pelo tema dos episódios, o estilo da arte, sempre bastante expressiva, com um domínio de claro e escuro que se destaca no “papel”, e os movimentos truncados dos personagens e veículos, garantem uma sensação de desconforto e estranheza tão logo somos apresentados aos primeiros segundos da série.

Mais do que colocar o pé no vale da estranheza, a sensação da movimentação travada nos deixa em alerta, quase como se ficássemos à espera de algo que está para saltar sobre nós – o que efetivamente acontece em algumas ocasiões.

Também é válido lembrar que Yamishibai utiliza bastante a mistura de mídias em sua produção, valendo-se, às vezes, de filmagens ou mesmos fotos para gerar um contraste com seu estilo principal, oferecendo aquela quebra que irá gerar um novo senso de estranheza perante o espectador.

Assim, Yamishibai consegue ser aquele produto único, onde a contação de história e estética se alinham para máximo efeito do terror, servindo, ainda, como uma porta de entrada para que uma nova geração possa vir a conhecer uma técnica narrativa tradicional que, apesar de não estar no seu auge, certamente está longe de ser esquecida.

Portanto, se está procurando por uma experiência divertida e que lhe garante aquele calafrio na nuca, faça como diz nosso Narrador mascarado: “Aproximem-se e deslumbrem-se!” com estas histórias de terror japonesas que unem tão bem o contemporâneo e o tradicional.

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