Black Sabbath: há 50 anos nascia o heavy metal

“What is this that stands before me?
Figure in black which points at me.
Turn around quick, and start to run.
Find out I’m the chosen one – Oh no!“

O trecho acima poderia ser uma rápida passagem sobre um personagem de Clive Barker, divagando em uma noite sombria e chuvosa, minutos antes de ser exterminado por uma entidade sobrenatural em busca de sangue. Ou poderia ser uma fala do reverendo Vincent Price, dita de forma cadenciada em algum clássico do cinema de horror enquanto um trovão maligno estoura na penumbra de uma noite trevosa. Porém, o trecho citado não faz parte do universo literário, tampouco cinematográfico. Essas palavras foram proferidas no primeiro disco de heavy metal da história, logo na primeira estrofe da primeira música.

Quando o tema é a origem do heavy metal, as opiniões entre os fãs do estilo se dividem e o assunto sempre rende umas rodadas a mais na mesa do bar. Artistas como Iron Butterfly, Cream, Steppenwolf, The Kinks, The Who, Humble Pie, até o fenômeno fab-four de Liverpool, dentre outros ativos no período 1968-1970, são citados como pioneiros do metal pesado, mas a verdade é que nenhum desses “pesou” o som a ponto de criar um novo estilo. Essas bandas até conseguiram esquentar o popular rock’n’roll com trechos que remetem à sonoridade conhecida hoje como heavy metal, mas a temática sombria e a verdadeira aura do metal pesado não existiam antes do primeiro álbum do Black Sabbath.

Além do Black Sabbath, outras duas bandas encabeçam a lista dos artistas mais cotados para o título de pioneiro do heavy metal: Deep Purple e Led Zeppelin. Mas para alcançar essa posição não basta dar velocidade e peso ao rock’n’roll. É preciso estar do lado negro da força. E das três, a única que apresentou uma obra sombria e impactante a ponto de ser o marco que envolve a gênese do metal e todos os seus sub gêneros através dos tempos foi o Black Sabbath. Uma rápida pesquisa sobre a origem do nome de cada uma das bandas pode ter informações suficientes para dar fim à dúvida. O nome Led Zeppelin nasceu de uma piada de Keith Moon sobre a decolagem da nova banda derivada do Yardbirds, o nome Deep Purple veio de uma música romântica que a avó de Ritchie Blackmore era fã, e Black Sabbath é uma referência ao clássico do cinema de terror I Tre volti della paura (As Três Máscaras do Terror), do diretor Mario Bava, estrelado por Boris Karloff, exibido nos cinemas na Inglaterra sob o título Black Sabbath.

Lançado na primeira sexta-feira 13 da década de setenta, provavelmente um dia nublado e frio com trovões trevosos, o primeiro e homônimo disco do Black Sabbath aterrorizou a juventude paz e amor com uma sonoridade sombria que revolucionou o rock’n’roll. Mesmo sem noção da importância dessa obra para a história da música mundial, os quatro jovens de Birmingham ousaram na composição e deram início a uma nova era no mundo do rock, pondo fim ao movimento flower-power da geração Woodstock.

No primeiro disco do Black Sabbath, cada segundo dos trinta e oito minutos  é um hino. A faixa título, uma das canções mais assustadoras e impactantes de todos os tempos, abre o disco com a guitarra distorcida de Tony Iommi executando um intervalo musical conhecido como trítono (acorde proibido pela igreja católica porque sua sonoridade remete ao macabro), enquanto Ozzy narra a história de um personagem atormentado por uma força maligna sobrenatural, criando um clima assombroso inédito até então. Na sequência, seguindo a linha curta e grossa, temos The Wizard, segunda faixa do lado A, marcante pela gaita inusitada que acompanha o riff de guitarra. Em uma referência ao conto Beyond the Wall of Sleep (H.P. Lovecraft), a terceira faixa Behind the Wall of Sleep arrepia com seu “mantraTake your body to a corpse, fazendo uma ponte para a empolgante N.I.B., que conta com um dos riffs mais icônicos da história do heavy metal.

Uma curiosidade sobre o lançamento desse disco é que a primeira faixa do lado B varia de acordo com a região onde ele foi lançado. A música escolhida para abrir o lado B da versão européia é Evil Woman (cover da banda Crow), com sua pegada blues-rock cadenciada e refrão inconfundível, e na versão americana, o lado B começa com a eletrizante Wicked World, uma composição relativamente simples, porém enriquecida com uma avalanche de arranjos e solos de Tony Iommi, muito bem acompanhado pela “cozinhaGeezer Butler e Bill Ward.  O disco segue com a quase instrumental Sleeping Village e finaliza com uma versão épica de Warning, da banda Retaliation, faixa com mais de dez minutos e uma variação espetacular de arranjos.

Em suma, o primeiro disco do Black Sabbath continua em evidência, encabeçando as listas de melhores de todos os tempos, mesmo com 50 anos nas costas. Esse feito é para poucos. Vida longa à obra do glorioso Black Sabbath!

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Juliano Jacob

Juliano Jacob

Marketeiro digital, mineiro da gema e viciado em xadrez. Fã de filmes e livros aterrorizantes, guitarrista/baterista amador, escreve sobre música macabra no Boca do Inferno.

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