Críticas

O Aprendiz (1998)

A produção bem cuidada e o bom elenco ajudam nesta triste jornada, que deve ser vista como uma própria reflexão do comportamento humano!

O Aprendiz (1998)

A essência do Mal!

O Aprendiz
Original:Apt Pupil
Ano:1998•País:EUA, França
Direção:Bryan Singer
Roteiro:Brandon Boyce, Stephen King
Produção:Jane Hamsher, Don Murphy, Bryan Singer
Elenco:Ian McKellen, Brad Renfro, Joshua Jackson, Mickey Cottrell, Michael Reid MacKay, Ann Dowd, Bruce Davison, James Karen, Heather McComb

A palavra maldade pode ter vários significados. Original do latim malitate, o termo é atribuído, entre outros, para indivíduos que fazem ações de crueldade e perversidade seja contra uma ou demais pessoas. Assassinatos, guerras, homicídios, torturas, são apenas alguns dos atos provocados por sujeitos que são considerados maus. Mas e se a maldade for um tipo de pré-disposição existente em cada um dos homens e que falte apenas um estímulo para que ela seja despertada? Adaptado de um conto de escritor Stephen King, O Aprendiz (Apt Pupil, 1998) trata brilhantemente deste tema, narrando uma trama bem conduzida sobre como a maldade pode ser descoberta e estimulada.

O filme conta a história de Todd Brown (Brad Renfro), um adolescente de 18 anos que fica curioso com as aulas de história sobre o holocausto praticado pelos nazistas contra os judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Mas o interesse de Todd passa a ser algo além de pesquisas de livros quando ele descobre em um pacífico vizinho chamado Arthur Denker (Ian McKellen) um ex-comandante nazista procurado pela justiça e que vive com identidade falsa nos Estados Unidos. Para não entregá-lo às autoridades, Todd exige que o fugitivo lhe relate as suas memórias como assassino nos campos de concentração. A partir de então, um tenso jogo psicológico surge entre os dois, ameaçando a sanidade do jovem.

O diretor Brian Singer (X-men, 2000) faz aqui um de seus melhores trabalhos mostrando a relação de domínio do jovem Todd para com o ex-nazista Denker, que logo será subvertida criando uma situação de dependência para ambas as partes. Através dos relatos, o garoto começa a se envolver e posteriormente se ver trancado em um mundo que ele conhecia apenas em livros. Essa relação é um dos pontos fortes do filme, que vai conduzindo o espectador por um terreno de interesse e curiosidade aliados com medo e arrependimento. O garoto passa a enxergar a maldade com novos olhos, na verdade, como uma forma de controle perante uma situação, onde os fortes dominam os fracos. Indiretamente, o velho Denker percebe no garoto um elo com um passado e passa a ver possibilidades para o jovem.

Original do livro Quatro Estações (Different Seasons, 1982), o conto Verão da Corrupção: Aluno Inteligente (Apt Pupil), que teve sua história como base para o filme O Aprendiz, faz parte de um trabalho de King que foge da temática que o consagrou: o suspense sobrenatural. Nesta obra não temos fantasmas ou monstros e sim o homem sendo visto através de sua essência, seus conflitos e medos, o que pode gerar uma realidade bastante aterradora e histórias que apelam para um drama bem construído. No caso de O Aprendiz, é traçado um estudo de caráter de seus personagens, que guardam terríveis segredos e utilizam vários métodos para não serem apanhados. Além do conto Aluno Inteligente, as histórias Outono da Inocência: O Corpo (The Body) e Primavera Eterna: Ryta Hayworth e a Redenção de Shawshank, (Rita Hayworth and the Shawshank Redemption), também pertencem ao livro, tendo sido adaptadas para o cinema com sucesso como Conta Comigo (Stand by Me, 1986) e Um Sonho de Liberdade (The Shawshank Redemption, 1994), respectivamente. Ambas as histórias também trabalham o drama existente nos personagens através de suas realidades.

O Aprendiz (1998) (2)

Grande parte do sucesso de O Aprendiz se deu pela forma como o diretor Singer conduziu a história. A ação, acontece de forma lenta e gradativa criando uma atmosfera quase claustrofóbica através de diálogos. Aliás, as cenas envolvendo os encontros dos dois protagonistas são muito bem conduzidas. O próprio horror dos campos de concentração também é inserido no filme através de falas, o que gera um efeito muito forte para o telespectador, uma vez que a imaginação ainda é um importante elemento que pode e deve ser utilizado em produções cinematográficas. A sensação de assistir ao filme é como se andar em uma montanha russa. O percurso começa devagar, onde se pode admirar a paisagem, mas de repente, na hora da descida, se é tomado por medo e adrenalina. O Aprendiz é um filme com grandes momentos dos quais se destacam a sequência do banho de Todd no vestiário ou os seus sonhos, ou quando o garoto presenteia Denker com uma fantasia semelhante à farda utilizada por ele durante a Segunda Guerra.

A transformação de Todd também é feita através de ações do garoto tomadas fora da presença do velho nazista. Seja com amigos, professores, ou até com uma machucada pomba, um novo rapaz começa a surgir, mais malvado. Ou seria mais forte? Uma cena em especial mostrará a total mudança do garoto quando um mendigo vai pedir ajuda na casa do aparentemente indefeso senhor Denker e que acaba por encontrar um triste destino. Os acontecimento que serão desencadeados servem quase como um batizado, no qual os relatos do carrasco nazista vão ser vistos como se fossem transmitidos por um professor para seu aluno. A questão da sexualidade também é mostrada no filme, de forma sutil, porém, interessante, uma vez que o homossexualismo passa a ser visto como um ponto de fraqueza. O final da trama merece destaque, pela sua ousadia, ou mesmo por um teor quase real.

O elenco também contribuiu muito para um resultado positivo do filme. Mais conhecido pela sua estreia em O Cliente (The Client, 1994), Brad Renfro faz um jovem perturbado e que mesmo com um olhar perdido, pode provocar estranhamento e medo. É possível apontar O Aprendiz como um dos grandes destaques da curta carreira de Renfro, que morreu em 2008, vítima de overdose de heroína. No papel do velho Denker, foi escolhido o excelente ator inglês Ian McKellen, que ganhou notoriedade participando de adaptações de Shakeaspeare nos palcos e nas telas, alcançando então fama internacional ao interpretar o bondoso mago Gandalf, da saga O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings, 2001) e o vilão Magneto da trilogia X-Men. McKellen cria um homem frágil, mas que também provoca calafrios. Ainda participam como coadjuvantes os atores Joshua Jackson (Lenda Urbana, 1998), David Schwimmer (da série de TV Friends) e James Karen (A Volta dos Mortos-Vivos, 1985).

O filme de Singer conduz a um estudo da origem do mal, assim como as transformações e comportamentos que surgem com ele. A produção bem cuidada e o bom elenco ajudam nesta triste jornada, que deve ser assistida como uma própria reflexão do comportamento humano. O filme procura mostrar principalmente que a maldade é inerente a épocas, religiões e sociedades e desta forma pode estar mais próxima do que se possa imaginar.

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3 Comentários

  1. MORCEGO

    Confesso, sou fã do Stephen King sobrenatural, com seus monstros, fantasmas, vampiros, etc… mas, o Stephen King psicológico também consegue ser assustador.
    O APRENDIZ é o melhor exemplo disso, ao lado de LOUCA OBSESSÃO.
    Tá certo, esse foi um dos últimos acertos de Bryan Singer – porque SUPERMAN – O RETORNO foi um desastre – e devo dizer que ele acertou na mosca (os dois primeiros “X-Men” não me deixam mentir)! Ele conseguiu criar um filme tão assustador e chocante que deixa muita porcaria de hoje no chinelo, e que tem seu lugar garantido ao lado de outros clássicos chocantes, como “O Massacre da Serra Elétrica”, “Cannibal Holocaust” e outros.
    Difícil dizer qual dos dois protagonistas é o mais diabólico, porque não dá pra medir o nível de maldade de ambos – com certeza, empatariam no Índice da Maldade, do Dr. Michael Stone… Sem falar que são inteligentíssimos, o que os torna ainda mais perigosos!
    É interessante observar o desenvolvimento de Todd ao longo do filme – de adolescente curioso a assassino e manipulador impiedoso, e isso, é uma das coisas que Stephen King faz como ninguém – pega pessoas normais e as transforma em monstros.
    E a medida que se tem a impressão que as surpresas acabaram, surgem novas, mais aterrorizantes que as anteriores.
    Enfim, O APRENDIZ é um filme Nota 10, daqueles de tirar o chapéu toda vez que se assiste.
    Uma pena que, depois dos dois primeiros “X-Men”, Bryan Singer tenha pisado na bola – e feio – com seu filme do Superman, mas, pelo menos, se redimiu como produtor-executivo de HOUSE, uma das melhores séries de TV de todos os tempos.
    O APRENDIZ é um clássico moderno, um filme que prova que Stephen King também consegue gelar nossa espinha em uma história sem monstros!

    Nota: 10,0/10,0

  2. Artur Barbosa deOliveira

    Brad Renfro vive em mim! Somos um!!!

  3. vanessa vasconcelos

    até que eu me interessei,depois eu vejo.

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