Críticas

Mangue Negro (2008)

Sem enrolação, Mangue Negro, filme de zumbis orgulhosamente 100% nacional, é o novo clássico dos clássicos do cinema independente brasileiro

Mangue Negro (2008)

Mangue Negro
Original:Mangue Negro
Ano:2008•País:Brasil
Direção:Rodrigo Aragão
Roteiro:Rodrigo Aragão
Produção:Rodrigo Aragão
Elenco:Ricardo Araújo, Kika de Oliveira, Walderrama Dos Santos, Markus Konká, André Lobo, Antônio Lâmego, Maurício Ribeiro, Reginaldo Secundo, Julio Tigre

Sem delongas e sem muita enrolação, Mangue Negro, filme de zumbis orgulhosamente 100% nacional, é o novo clássico dos clássicos do cinema independente brasileiro. Em outras palavras, é o filme que todo cineasta independente quer fazer quando crescer, e lançou um novo patamar de qualidade para o horror nacional moderno.

Escrito e dirigido pelo gente-fina Rodrigo Aragão, que também é técnico em efeitos especiais e assina as bizarras criatura e mutilações do filme, Mangue Negro recria alguns dos melhores momentos de filmes como Fome Animal, Evil Dead e as produções de mortos-vivos de George A. Romero, porém agora num cenário tipicamente brasileiro – um mangue no interior do Espírito Santo -, e com personagens tipicamente brasileiros nos papéis principais e secundários.

Esta, acredito, é a grande qualidade e principal virtude do filme do Aragão: seus personagens são gente comum como uma velha benzedeira e um catador de caranguejos, personagens que não vemos nos filmes de terror normais e nem nas imitações destes que alguns cineasta tupiniquis, independentes ou não, costumam lançar volta-e-meia.

Como todo bom filme de mortos-vivos que se preze, Mangue Negro mostra uma contaminação zumbi que se espalha pelo mangue, transformando pescadores de uma comunidade pobre em monstros devoradores de carne humana. Parece simples, mas a história se desenvolve através de várias linhas narrativas, acompanhando paralelamente as situações envolvendo diferentes personagens, como se o espectador estivesse testemunhando episódios dentro de uma trama maior. Finalmente, estes personagens e episódios se cruzam, e todos passam a lutar juntos pela sobrevivência – uma possibilidade cada vez mais distante.

O fio condutor da narrativa é o amor platônico entre Luís (Walderrama dos Santos, impagável no papel de herói pateta, uma versão brazuca do Ash da trilogia Evil Dead) e a lavadeira Raquel (vivida pela bonita Kika de Oliveira). Luís é apaixonado pela moça, mas, tímido, não tem coragem de se declarar; para piorar, sempre que tenta fazê-lo, algo de terrível acontece e impede o rapaz de expressar seu amor.

Mangue Negro (2008) (2)

Felizmente, os zumbis do mangue e a contaminação que se espalha dão uma mãozinha ao nosso herói, já que ele e Raquel acabam muito próximos quando Luís começa a dizimar os zumbis com sua machadinha para proteger a amada.

Repleto de gosma e com banhos de sangue (literalmente) no protagonista, novamente no melhor estilo dos já citados Evil Dead e Fome Animal, Mangue Negro conta ainda com maquiagens e efeitos especiais de primeira linha (surpreendentes, considerando que não há nenhum grande estúdio por trás bancando a produção). E são estes efeitos muito bem realizados que colocam o filme um passo acima de muita coisa profissional feita no país: é coisa fina mesmo, digna dos melhores momentos do gênero, com cenas de carnificina brilhantemente sublinhadas pela belíssima trilha sonora original da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo.

Se Mangue Negro tem um defeito, este é uma quebra no ritmo no ato final, quando uma cena na casa de Dona Benedita (a tal benzedeira, que ironicamente é interpretada por um homem, André Lobo) se arrasta muito mais do que deveria, retardando os ataques de zumbis. Mas é um problema que se esquece facilmente quando o sangue volta a jorrar.

E, para fechar com chave de ouro, o filme termina de forma fantástica, na hora certa, comprovando que Aragão, além de mestre dos efeitos especiais, também sabe direitinho como contar uma história!

Em uma única palavra: IMPERDÍVEL. O filme já havia sido exibido no Fantaspoa de 2008, dentro da programação daquele ano, inclusive com a presença do diretor Aragão, mas volta ao festival depois de passar, muito elogiado, em outros eventos do Brasil (como o SP Terror, em São Paulo) e no exterior. Uma trajetória de sucesso merecida para um ótimo trabalho de um cineasta promissor no cenário do moderno cinema fantástico brasileiro.

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3 Comentários

  1. alex

    Assisti outro dia e é muito bom mesmo, me surpreendeu, pois não dava nada pelo filme. e a benzedeira é impagável , é a melhor personagem do filme. Eu me perguntando de onde tinham tirado aquela coroa , aí vejo nos créditos finais que era um homem!

  2. vanessa vasconcelos

    parece bem bacana.

  3. Hellen

    Como é bom assistir um filme feito com paixão. Mangue Negro é um orgulho pro cinema de horror nacional, é divertidíssimo e uma verdadeira homenagem ao gênero terror, especialmente o trash, são nítidas as referências a Braindead e Evil Dead no filme, Luís, o Ash dos mangues. O fato da manifestação zumbi acontecer em um manguezal foi a cereja do bolo do filme, além de criativo, realmente rendeu cenas assustadoras. A maquiagem dos zumbis é excelente, e os atores envelhecidos por aquela maquiagem bizarra rendeu momentos hilários. Impossível não rir durante inúmeros momentos do filme, diverte e diverte muito! Aliás, o filme foi feito para descontrair e homenagear, não tem intenção alguma em ser sério ou grande demais. As únicas coisas que me incomodaram um pouco foi o áudio e fotografia (em alguns momentos não dava para ouvir ou ver direito) e a duração, poderia ser um pouquinho mais curto, já que em certos momentos o filme se torna um pouco cansativo. Tirando isso, excelente e maravilhoso filme! Vida longa a cineastas como o Rodrigo Aragão!

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