Críticas

Batman Vs. Superman: A Origem da Justiça (2016)

Na batalha entre Batman e Superman, perdeu o bom cinema.

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Batman Vs. Superman: A Origem da Justiça
Original:Batman v Superman: Dawn of Justice
Ano:2016•País:EUA
Direção:Zack Snyder
Roteiro:Chris Terrio, David S. Goyer
Produção:Geoff Johns, Deborah Snyder, David S. Goyer, Charles Roven
Elenco:Henry Cavill, Ben Affleck, Gal Gadot, Jesse Eisenberg, Amy Adams, Lawrence Fishburne, Jeremy Irons, Holy Hunter, Diane Lane, Tao Okamoto, Scoot McNairy, Jason Momoa, Ezra Miller, Ray Fisher

Superman, o primeiro super-herói, foi criado em 1938 como um herói do povo e lutava contra as injustiças sociais, reflexo daqueles tempos pós-crise pelos quais passavam os EUA. Seu surgimento deu início à Era de Ouro dos quadrinhos, leves e otimistas, que mesmo durante a Segunda Grande Guerra ainda serviam para manter a moral dos soldados no front, e gibis eram distribuídos para as tropas nos acampamentos longe de casa. Com o fim da Guerra veio a Era de Prata e os quadrinhos de super-heróis foram reformulados, adotando um tom de ficção científica, mais leve ainda. Então vieram o Vietnã, Watergate, Era Reagan, Guerra do Iraque…e os heróis foram ficando cada vez mais cínicos e violentos.

Então,11 de setembro de 2001 mudou tudo.

O mundo pós 11-09 tornou-se um lugar frio, violento e paranoico, e a suspensão de descrença necessária para aceitar que um alienígena com a cueca por fora das calças e os poderes de um deus inspirassem o melhor na humanidade, usando seus superpoderes para o bem. A moral e a ética de um garoto simples do interior pareciam ter sido derrubadas junto com uma das torres do World Trade Center. E é nesse mundo pós 11-09 que Zack Snyder concebeu o seu Homem de Aço.

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Homem de Aço

Sua visão sombria e realista do Superman desagradou a grande maioria dos fãs do personagem, apesar de alguns momentos inspirados onde Snyder ressalta as características messiânicas de Kal-El. Assim como a fatídica e equivocada decisão de fazer com que Superman, em um ato de desespero, optasse pela solução extrema e partisse o pescoço de Zod. O Superman de Snyder não é um escoteiro de azul que resolve as coisas da melhor maneira; ele lida com ameaças estrangeiras da mesma forma com que as tropas americanas lidaram com Bin Laden ou Sadam Hussein. Ironicamente, as grandes corporações (Lex Corp) lucraram com os destroços da batalha de Metrópolis da mesma forma que as grandes companhias americanas de petróleo lucraram com a Guerra do Golfo, mas isso não vem ao caso.

Quando foi anunciado que a continuação de Homem de Aço não seria apenas um novo filme do personagem, mas que a película mostraria o seu embate ideológico com Batman, os detratores de Superman já sabiam o que esperar: mais violência e mais super-heróis distorcidos. E Batman Vs. Superman – A Origem da Justiça escancara para aqueles que ainda tinham alguma dúvida que Zack Snyder não só não entende de super-heróis, como também não gosta deles. O diretor, que já havia tornado um herói que em sua origem tem paralelos com Jesus Cristo em um irresponsável quebrador de pescoços, desta vez extrapola todas as características fascistas de Batman em uma das versões mais terríveis do personagem em muito tempo. O Batman de Snyder é um fascista assassino e escroto. Muito escroto!

A Trindade

Apesar de celebrado como o melhor Batman das telonas até o momento – sem dúvida, se pegarmos o aspecto visual do personagem – o Homem-Morcego de Snyder faz uso do herói violento concebido por Frank Miller no clássico Cavaleiro das Trevas e o extrapola à quinta potência. Seja pela frieza com que o limitadíssimo Ben Affleck dá “vida” a um sempre emburrado Bruce Wayne ou pela hipocrisia de um Batman que mata intencionalmente a torto e direito e se revolta com um alienígena que faz o mesmo sem querer, novamente evocando os fantasmas do pós 11 de setembro. Batman nunca foi tão fascista e nunca esteve tão longe de seu código moral dos quadrinhos. E é impossível falar em código moral de heróis dos quadrinhos sem pensar em Superman.

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Snyder tenta se redimir do final de O Homem de Aço e apresenta um Superman em busca de seu lugar no mundo fazendo o melhor. Kal-el aqui se desdobra entre sua vida com Lois Lane – vivida por uma ainda figurativa Amy Adams –, o Planeta Diário e a vida de super-herói. Fica claro que ele sente as consequências dos fatos do filme anterior e que não se sente confortável enquanto parte da população o adota como salvador, e outra parte o acusa da destruição de Metrópolis e da morte de milhares de inocentes. As mais belas sequências do filme ficam por conta do Superman em ação, novamente resgatando as características messiânicas do herói. Uma pena que Henry Cavill pareça tão apático no personagem.

Gal Gadot rouba a cena como Mulher Maravilha e, mesmo com pouquíssimo tempo de tela, já fica claro que a Diana que veremos no filme solo da personagem e no vindouro Liga da Justiça será uma guerreira muito próxima daquela dos desenhos do começo da década passada e da ótima animação lançada em DVD no selo DC Universe. Estamos presenciando o surgimento da primeira super-heroína forte e com personalidade também nos cinemas e este é, sem dúvidas, o ponto alto de Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. No extremo oposto ficam os vilões.

A Mente Mais Brilhante do Mundo

Visto com desconfiança desde que foi anunciado para o papel e, com mais desconfiança ainda depois de aparecer pela primeira vez nos trailers, Jesse Eisenberg entrega um Lex Luthor equivocado e insuportavelmente irritante. Seus trejeitos amalucados não são nada compatíveis com a “mente mais brilhante do mundo” e ele acaba parecendo mais com o Coringa do Cesar Romero do que um Lex Luthor a altura de enfrentar um herói que quebrou o pescoço de Zod. Apesar disso, tornar Luthor mais jovem, traçando paralelos com os novos milionários da internet, é bastante interessante. Não é à toa a escolha de Eisenberg, que já interpretou Mark Zuckerberg em A Rede SocialLex Luthor sai da era das megacorporações e entra na era das riquezas virtuais fruto da internet, mas não vai além disso, e mais uma vez não mostra toda sua grandeza nas telonas.

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A conexão entre Luthor e Apocalipse, apesar de evidente, encaminha o filme para seu clímax resultando em um combate tão épico quanto aquele de O Homem de Aço. O diferencial é que agora os heróis escolhem uma área abandonada para distribuir porrada em quantidades colossais em um clímax bem ao estilo Zack Snyder de ser. O problema fica por conta do design do vilão Apocalipse, bastante artificial, e pela direção/edição que torna as lutas apenas compreensíveis se vistas em câmera-lenta. O mesmo acontece nas sequências de ação envolvendo Batman e os capangas de Luthor e a perseguição do Batmóvel pelas ruas de Gotham. David Breener, editor do filme, que já trabalhou com Snyder em O Homem de Aço e 300, pesa a mão e entrega uma edição nervosa demais, que aliada à fotografia “sombria e realista” de Larry Fong, torna algumas cenas quase incompreensíveis.

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A Origem da Justiça

Com exaustivos 151 minutos de duração, Batman vs. Superman: A Origem da Justiça perde tempo demais explicando tudo no primeiro terço do filme. Vemos mais uma vez a origem do Batman, revemos parte do confronto entre Superman e Zod, vemos as tramoias de Luthor nos detalhes… são tantas explicações que Snyder dá neste primeiro ato, que praticamente nenhuma cena passa de três minutos de duração. Snyder chega ao ponto de apresentar a vida sexual de Batman e Superman, mesmo que sutilmente, para evitar aquelas velhas piadas e comentários de sempre. E quando chegamos finalmente à luta entre Batman e Superman é que a coisa desanda de vez. As motivações são pífias, artificiais que fica claro que o embate está ocorrendo apenas para satisfazer uma parcela da população nerd que vai ao cinema apenas para ver a reprodução de um round do jogo Injustice – Gods Among Us. A conclusão da luta é de uma pieguice tão forçada, tão simplória, que beira a vergonha alheia. Algo de se esperar de David S. Goyer, um dos piores roteiristas de Hollywood, mas não de Chris Terrio, do excelente Argo, ambos roteiristas do filme.

A tão aguardada participação dos outros heróis e a tal “Origem da Justiça” é encaixada a fórceps no filme e vai decepcionar muito fã dos quadrinhos que for ao cinema esperando mais do que pequenas pontas. Pequenas pontas que já haviam sido confirmadas pelos realizadores como nada além disso, embora tenha sido um alívio ver o Aquaman. Comentar mais do que isso pode estragar as surpresas de quem ainda não viu o filme. Aliás, vale a pena abrir um pequeno parêntese aqui para falar sobre spoilers e surpresas.

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Eu gostaria muito de ser surpreendido pelas aparições dos outros personagens e pelos indícios da possível ameaça que a Liga da Justiça irá enfrentar em seu filme. Ao contrário disso, provavelmente para garantir que um público muito mal-acostumado saia do cinema com a sensação de satisfação, é indiscutível que a Warner optou por entregar quase todas as surpresas do filme nos próprios trailers. Não há quase nada no filme que tenha ficado de fora dos materiais de divulgação, sejam eles trailers, fotos do filme ou de bastidores. Esta pratica, embora funcione para um público mais abrangente que não se informa sobre os filmes que vão ver no cinema, estraga a experiência para aqueles que, como nós, frequentamos sites sobre cinema e acompanham as notícias do universo da cultura pop. Até mesmo o desfecho do filme fica claro no trailer para aqueles mais familiarizados com os quadrinhos.

Os Melhores do Mundo?

Apesar de ter mais defeitos do que qualidades, Batman vs. Superman: A Origem da Justiça cumpre o papel a que se propõe dentro das limitações de um elenco fraco nas mãos um diretor medíocre como Zack Snyder. Na batalha entre Batman e Superman, perdeu o bom cinema. Os incontáveis furos de roteiro superam em número as referências ao universo dos quadrinhos DC, mas pode agradar os fãs menos exigentes que estão buscando apenas uma sessão de pancadaria entre heróis e vilões, descompromissada e carregada de efeitos especiais. Para aqueles que conhecem mais a fundo o Universo DC, indo além do que viram nos vídeo games, ou apenas procuram um bom cinema com preocupações maiores do que bilhões em bilheteria e merchandising: este filme definitivamente não é pra vocês. Neste caso, o S significa a esperança de que a Warner ouça os críticos e os verdadeiros fãs destes ícones sagrados dos quadrinhos e aponte uma nova direção para o filme da Liga da Justiça. Uma nova direção e, não custa nada torcer, um novo diretor.

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7 Comentários

  1. Peterson

    Vocês Foram Modestos Falar que Ben Afleck é limitadíssimo na verdade nem um Canastrão (Jargão Do Boca) ele Consegue ser é um ator sem Expressão se fosse para Chamar Qualquer um para fazer O Batman então Pegava o Ator Brasileiro Fernando Pavão que se sairia bem melhor que o Afleck kkkkkk

  2. Concordo totalmente com a crítica.
    Snyder é um péssimo diretor e Goyer um roteirista meia-boca e apesar de achar até legais os filmes, MOS e BVS são péssimas representações dos dois maiores super-heróis de todos.

  3. Alex

    A versão da qual a crítica foi feita não deve ter sido da versão ultimate lançada em DVD E Bluray. Tem alguns pontos que o crítico acerta sobre o filme, mas em outros é levado ao extremo. Eu fiquei descontente de ver o Batman de Frank Miller neste filme pelo fato dele nem sequer se importar com as vidas dos criminosos. Ben Affleck o interpretou bem, e o Batman convence como herói, mas o qual é apresentado é meio deturpado, não tendo a ética e a moral que o dos quadrinhos e da série Arkham possuí. Não faz sentido como o Rodrigo disse sobre o Batman se importar tanto com a justiça do Superman se o mesmo é mais um vigilante que um herói. O morcego tenta matar o Superman e só não o mata por causa do elo de nome que a mãe dele tem com a do Clark, é compreensível até, porque o Bruce nunca realmente superou a morte de seus pais, mas chegar a tentar matar o Superman é algo ridiculo. Se ele não matou o maior psicopata porque mataria o Metahumano mais forte?! A motivação do Superman ao lutar ou melhor tentar conversar com o Batman é plausível, mas do lado do Batman não faz sentido justamente por ele ser o maior detetive. O Homem de Aço foi um dos melhores filmes de Super Herói, e definitivamente o melhor filme do Superman, apesar dos seus poucos defeitos(sendo a cena da morte do General Zod), apresentou o Superman de maneira real e forte. Muitos criticaram a cena da destruição de Metropolis, mas deviam rever uma vez que haviam duas maquinas planetárias e 12 Kryptonianos contra um Super Homem. Cada um tem a sua opinião e gosto, mas aqui no site Esquadrão Suicida tem uma nota maior que B Vs S e Esquadrão Suicida foi um filme da DC que teve o conceito das HQs muito mal feito e com personalidades diferentes dos personagens.

  4. Celso

    Acho o site excelente. Mas tbm não concordo com a crítica acima especificamente. Porém, respeito o ponto de vista do autor. Uma única coisa me deixa encucado. Por que tanto barulho pelo fato de Superman matar Zod neste filme? No filme de 1980 o personagem vivido por Reeve mata os três kriptonianos. Bom. Ele mata Zod, Lois mata a vilã e o outro cai sozinho. Com o agravante que eles já não tinham mais poderes e podiam ser presos. No filme mais recente a opção era matar Zod ou deixar uma família ser morta. Como os filmes com Reeve são mais leves, esquecemos q ele matou ainda mais friamente.

    • Hierofante1970

      Cara você mandou mandou muito bem. É o mesmo caso que falaram do Batman matar os vilões, ora se o cara está lá para salvar a mãe do Super contra duas dúzias de mercenários armados até os dentes não dá para pegar leve.

  5. Leandro S. Pires

    Puxa, eu muitas vezes concordo com as criticas do site. Mas essa tenho que discordar. Acho que esse filme foi feito para os fãs de quadrinhos que esperaram muito tempo para ver uma briga entre os dois heróis. Ainda tem o lado sombrio, Lex Luthor e a ótima trilha de Hans Zimmer.

    • Eu sou fã de quadrinhos, mas não gostei. E sem falar que você não gasta meio milhão de dólares pra agradar um nicho minúsculo de fãs de quadrinhos. Um filme feito com esse preceito está fadado ao fracasso comercial.

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