Críticas

O Gorila Branco (1945)

Um daqueles trashaços de rolar de rir, que deixaria até mesmo o lendário Ed Wood envergonhado!

O Gorila Branco
Original:The White Gorilla
Ano:1945•País:EUA
Direção:Harry L. Fraser
Roteiro:Harry L. Fraser
Produção:Louis Weiss, Harry L. Fraser e George M. Merrick
Elenco:Ray Corrigan, Lorraine Miller, Budd Buster, Francis Ford, Charles King e George J. Lewis

Quer fazer um filme de aventura/horror na África, mas está sem grana para contratar figurantes, construir aldeias indígenas, pagar figurinos, alugar animais selvagens? Ora, não se desespere: com um pouquinho de malandragem e um muitinho de cara-de-pau, você consegue rodar sem dificuldade e com orçamento praticamente zero o tal filme. Basta se inspirar no “exemplo” do diretor e picareta de marca maior Harry L. Fraser e seu clássico da sem-vergonhice The White Gorilla (no Brasil, O Gorila Branco), produzido no longínquo ano de 1945.

Fraser queria fazer um filme sobre um gorila assassino na África, mas obviamente não tinha dinheiro para filmar em território africano, e muito menos para recriar a África nos Estados Unidos, como faziam outros produtores de mais cacife. O que você faria se estivesse no lugar dele? O mais correto seria desistir da ideia, claro, mas o cineasta aparentemente era um sujeito teimoso. Resolveu, então, “reproduzir” a África usando cenas de um filme mudo de 1927, Perils of the Jungle, dirigido por Jack Nelson, que foi cortado e reeditado na maior cara-de-pau para “encaixar-se” em meio à meia dúzia de cenas filmadas pelo próprio Fraser em 45.

Agora imagine: você não tem mais os atores daquele filme de 1927, muito menos os cenários da tal produção. Como fazer para que estas cenas “reaproveitadas” se encaixem com aquelas filmadas 18 anos depois? Fácil: basta transformar todas as cenas mudas de Perils of the Jungle na história contada em flashback por um dos personagens de The White Gorilla!!!! Não é demais? Dá até vontade de fazer seu próprio filme de aventura na África depois de ver o resultado do “copiar + colar” de Fraser. E o resultado, claro, é um daqueles trashaços de rolar de rir, que deixaria até mesmo o lendário Ed Wood envergonhado.

Com as cenas de Perils of the Jungle ocupando a maior parte da narrativa, os produtores de The White Gorilla não precisaram de muito esforço para realizar seu filme. Consta que as filmagens levaram apenas três dias e uma noite, e o elenco tem apenas seis atores: Ray Corrigan, Lorraine Miller, Budd Buster, Francis Ford, Charles King e George J. Lewis. Todos os outros atores que dão as caras ao longo do filme são os atores de Perils of the Jungle, e portanto não foram creditados, mas são Harry Belmour, Eugenia Gilbert, Will Herman, Frank D. Hutter, Walter Maly, Frank Merrill, Milburn Morante, Bobby Nelson e Albert Smith. Não perca as contas: só aí, os produtores já economizaram nove cachês!!!

The White Gorilla começa no Posto de Trocas do Morgan, no coração do continente africano, onde uma dupla de caçadores, Stacey (Francis Ford) e Hutton (George J. Lewis), espera por notícias de um explorador chamado Ed Bradford, que desapareceu há algumas semanas na selva. Enquanto eles jogam conversa fora com o proprietário do lugar, J. Morgan (Charles King), eis que surge um dos batedores da expedição do desaparecido Bradford, Steve Collins (“interpretado” por Ray Corrigan), com as roupas em farrapos e coberto de ferimentos ensanguentados.

Pelos próximos 62 minutos, Collins põe-se a narrar o que aconteceu ao azarado grupo que integrava. E a maior parte destas cenas de “flashback” são, na verdade, cenas extraídas do já citado Perils of the Jungle. Como tal produção de 1927 ainda era muda, é fácil de identificar quais são as (poucas) cenas filmadas por Fraser para The White Gorilla e quais são as (muitas) cenas roubadas da produção dirigida por Jack Nelson. E para “maquiar” o problema destas cenas reaproveitadas serem mudas, não há diálogos, apenas a narração em off de Collins explicando a história. Acredite: é de rolar de rir!

Collins conta como Bradford e sua turma se meteram em encrencas com uma tribo belicosa da região. Bradford, no caso, é o personagem construído a partir das cenas que Frank Merrill fez em Perils of the Jungle, quando se chamava Rod Bedford. O engraçado é a forma utilizada pelo editor Adrian Weiss (um notório produtor e diretor de exploitation movies do período) para casar as cenas de 1945 com as filmadas em 1927: alguns takes com o ator Ray Corrigan escondido em meio a moitas ou árvores são encaixados entre a ação de Perils of the Jungle, e Corrigan, obviamente, nunca se mistura ou interage com os atores dos anos 20.

Para justificar essa falta de interação, a narração em off usa cenas como “Escondido, descobri que Bradford e Allison eram prisioneiros de uma das tribos“, ou “Eu resolvi segui-los à distância“. Abaixo você pode ver como isso funciona na edição: a cena da esquerda foi feita em 1945 e mostra o ator Corrigan teoricamente testemunhando a ação da cena da direita, que foi retirada do filme de 1927! Sim, amiguinhos, é muita cara-de-pau!!!

Finalmente, quando acabam as tais cenas de Perils of the Jungle, finalmente surge a criatura que dá nome ao filme, o tal gorila branco (que, em várias cenas, foi interpretado pelo próprio Ray Corrigan, para economizar ainda mais dinheiro em cachê de figurantes!!!!). O monstruoso animal vive hostilizado na selva justamente pela sua cor, diferente da pelagem negra dos gorilas “comuns” – o que não deixa de ser irônico, considerando que o filme foi feito em plena época de preconceito racial dos brancos contra negros. Collins acaba topando com o monstro enquanto “participa” como observador das cenas de Perils of the Jungle, e escapa por pouco. Mas a conclusão prevê um novo e mortal duelo entre o caçador e o gorila branco.

Acho que já deu para entender a mensagem: The White Gorilla é um trashão picareta e muito divertido, onde a edição das cenas de épocas diferentes funciona como perfeita comédia involuntária. Afinal, a montagem é tão cara-de-pau que quase todas as cenas filmadas por Fraser em 1945 mostram os (poucos) atores sentados e ouvindo a “narração” da “história“.

Na conclusão, como não existe qualquer possibilidade de os atores dos anos 40 encontrarem os dos anos 20, o roteiro do próprio diretor utiliza uma solução que beira o surreal: todos estes personagens originais de Perils of the Jungle morrem devorados por tigres – “off-screen“, é claro, porque isso não acontecia no filme de 1927!

Mas filmes sobre gorilas assassinos estavam em alta naquela época, e isso deve ter sido uma grande motivação para os realizadores dessa pérola, que certamente estavam buscando um dinheiro fácil. Os chamados “gorilla movies” começaram a pipocar ainda na década de 30, com The Monster Walks (1932), de Frank R. Strayer, que mostrava um gorila assassino aprontando o diabo em um casarão durante uma noite de tempestade. Isso um ano antes do clássico King Kong de 1933, dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, trazer o famosíssimo gorila gigante que já ganhou duas refilmagens, uma sequência e inúmeras aventuras não-oficiais.

Vai saber que graça o povo enxergava nesse tipo de história, mas os gorilas assassinos (obviamente enfiados dentro de ridículas fantasias de macaco!) continuaram fazendo vítimas no cinema até os anos 60, em produções paupérrimas como The Ape (1940), de William Nigh, com Boris Karloff; Bride of the Gorilla (1951), de Curt Siodmak, com Lon Chaney Jr., onde um homem é vítima de uma maldição vodu e se transforma em gorila à noite (vai ver não tinham dinheiro para comprar uma roupa de lobisomem, então inventaram um “gorilatropo” ao invés de um licantropo!) ; e The Bride and the Beast (1958), de Adrian Weiss, outro trashão impagável, este com roteiro do mitológico Ed Wood!

Até o pobre Bela Lugosi, que um dia foi Drácula, viu-se perdido no inferno dos “gorilla movies“, interpretando um cientista que se transforma em gorila assassino nos filmes The Ape Man (1943), de William Beaudine, e Return of the Ape Man (1944), dirigido por Phil Rosen (e que, apesar do título, nada tem a ver com o outro filme). Lugosi também pagou um mico símio em Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla, dirigido novamente por William Beaudine em 1952, e o último filme “normal” do ator antes de ele começar a trabalhar exclusivamente com Ed Wood.

Voltando a The White Gorilla, uma resenha do filme que encontrei na internet sugere usá-lo para um criativo “drinking game“, e acho que é mesmo uma boa forma de encarar algo tão ruim. As regras são as seguintes: cada vez que a cena muda de 1945 para 1927, você e seus amigos tomam uma dose de alguma bebida alcoólica potente, e vice-versa. De tanto que isso acontece, será bem fácil acabar completamente embriagado ou em coma alcoólico antes do “The End” aparecer – e isso que o filme é curtíssimo!

E não bastasse a edição criminosa, e os malabarismos que ela exige para manter uma narrativa minimamente coerente, The White Gorilla ainda está coalhado com todo tipo de defeito de produção classe Z, do cenário pobre (a “selva africana” parece o quintal da casa de alguém) às roupas dos gorilas, onde percebe-se nitidamente os buracos para os olhos nas máscaras!!! Resumindo: um filme divertidíssimo, hilário, de rolar de rir do começo a fim, e que com certeza fica ainda melhor quando visto em turma, preferencialmente sob efeito de álcool ou substâncias entorpecentes.

Leia também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *