Críticas

Cidade Submarina (1962)

Aventura de FC que procura instigar a nossa imaginação prevendo um futuro onde a humanidade pudesse viver em belas e complexas cidades construídas no fundo dos oceanos

Cidade Submarina
Original:Underwater City
Ano:1962•País:EUA
Direção:Frank McDonald
Roteiro:Owen Harris
Produção:Alex Gordon
Elenco:William Lundigan, Julie Adams, Roy Roberts, Carl Benton Reid, Chet Douglas, Paul Dubov, Karen Norris, Kathie Browne, Edward Mallory

“O mar, mais que qualquer outro reino da natureza, tem estimulado a imaginação da humanidade desde os primórdios da história. O conhecimento do oceano é mais que uma questão de mera curiosidade. Nossa própria sobrevivência pode depender disso. Estamos apenas no limiar da exploração do mundo no espaço interno. O Homem, agora na sua tentativa de adquirir maiores conhecimentos, está retornando ao lar ancestral de todas as coisas vivas que é o mar. ‘Manta Ray’, um submarino hidrojato especialmente fabricado, com capacidade para 12 pessoas, está transportando um grupo de oceanógrafos para um local previamente selecionado onde eles marcarão o lugar da primeira colônia humana permanente a ser estabelecida no leito do oceano. Medirão e verificarão também as correntes oceânicas, pois os oceanógrafos acreditam que esses rios do fundo do mar tem o segredo das condições atmosféricas. Se pudermos aprender a controlar essas correntes, poderemos um dia ser capazes de controlar o clima do mundo. A conversão de água salgada em água potável é outro projeto vital para uma população mundial sempre crescente, assim como reunir informações para localizar a fonte e o trajeto das marés”.

Essa introdução narrada dá início a um delicioso e típico filme de Ficção Científica no melhor estilo “Sessão da Tarde“, com um história investindo num tema pouco explorado pelo gênero, cujos produtores ao longo principalmente das décadas de 1950 e 60 preferiam abordar o desconhecido espaço externo sideral, apresentando alienígenas, naves e mundos exóticos, Cidade Submarina (Underwater City, 1962), o chamado “mundo do futuro” como o próprio filme se auto denomina, focaliza seu argumento na também fascinante exploração submarina dos mares, que sempre despertou grande interesse e curiosidade na imaginação da humanidade. Pois nosso Planeta Azul, a Terra, é dominada por aproximadamente 75% de água, tornando ainda boa parte do nosso mundo interno desconhecido, e consequentemente uma fonte rica para os roteiristas do cinema desenvolverem suas histórias.

Uma poderosa companhia de construção civil é contratada para a realização de um projeto científico inédito e de proporções colossais: a instalação de uma cidade no fundo do mar. Uma equipe de engenheiros e mergulhadores sob a liderança de Bob Gage (William Lundigan) e outra equipe de geologistas, oceanógrafos e cientistas coordenados pelo veterano Dr. Junius Halstead (Carl Benton Reid) estão empenhados na construção da primeira cidade submarina do mundo, batizada de “Anfíbia“. A cidade é formada por unidades celulares construídas na superfície, em hangares especiais, e depois transportadas para um local previamente estudado e afundadas até o leito do oceano, onde são fixadas através de enormes colunas hidráulicas.

Um pequeno e versátil submarino chamado “Manta Ray” é o responsável pelo transporte de passageiros até “Anfíbia” e um grupo inicial de humanos colonizadores passa a viver nas instalações submarinas estudando e realizando pesquisas marinhas. Fazem parte desse grupo principal o engenheiro chefe Bob Gage, o cientista Dr. Halstead, sua sobrinha a bela médica Dra. Monica Powers (Julie Adams, de O Monstro da Lagoa Negra, 1954), o mergulhador profissional Chuck Malowe (Chet Douglas), a nutricionista Phillys Gatewood (Karen Norris) e o jovem casal formado pelo militar Tenente Wally Steele (Edward Mallory), especialista em comunicação aquática, e sua esposa Dotty (Kathie Browne).

As cenas cômicas do filme ficam por conta do jovem mergulhador Chuck, conhecido por sua habilidade na preparação de diferentes “drinks” e que, ao explorar um navio afundado próximo à cidade submarina, encontra uma caixa repleta de garrafas cheias de “whisky“, propiciando bons momentos de embriaguez “aquática“.

Com o passar dos meses a cidade acaba tornando-se auto-suficiente na geração de seu próprio alimento, com pequenos submarinos pilotados por duas pessoas controlando a criação de peixes num interessante paralelo aos tradicionais vaqueiros montados em seus cavalos e conduzindo o gado. Equipamentos geradores de energia elétrica, recarregadores de atmosfera e filtros conversores de água salgada em potável completam a independência de “Anfíbia” em relação à superfície.

Porém, na fase preliminar de estudos da região onde seria instalada a cidade, um importante geologista morreu num acidente envolvendo uma gigantesca enguia antes de completar seu trabalho e descobriu-se mais tarde que o local escolhido estava sendo consumido por uma enorme erosão do solo proveniente de uma poderosa corrente marítima. No momento em que “Anfíbia” recebia a importante visita de oficiais da Marinha, descobriu-se a falha geológica do local com o surgimento de grandes rachaduras e a cidade foi evacuada de forma emergencial, afundando no gigantesco fosso que se formou devido à erosão. Entretanto, o desastre não significou o fim do projeto e a equipe passa a se preparar para a construção de uma nova cidade num local mais seguro.

Um destaque é a cena envolvendo uma luta mortal entre dois gigantescos seres das profundezas do oceano: um polvo morador do barco afundado e uma enguia habitante de uma caverna localizada num abismo próximo à cidade.

Os efeitos especiais são super divertidos, com as maquetes da cidade aquática, um aglomerado de domos e cúpulas de diferentes tamanhos e disposições, além do pequeno submarino de transporte de pessoas. Sem contar todos os instrumentos eletrônicos “avançados” da época, com painéis repletos de botões, alavancas, televisores e todo tipo de equipamento característico dos filmes de Ficção Científica dos anos 1950 e 60, um período especial do cinema fantástico.

Um dos principais argumentos levantados pelo próprio filme justificando que a humanidade invista na exploração submarina e construção de cidades no fundo dos oceanos, ao invés de unir seus esforços na exploração do espaço sideral e construção de plataformas espaciais ou colônias humanas em outros planetas, é a possibilidade real de uma guerra nuclear, principalmente na época da produção do filme, início dos anos 1960, onde a Guerra Fria entre Estados Unidos e a extinta União Soviética estava alcançando seu clímax. Com uma guerra mundial atômica, a devastação do planeta pela radiação obrigaria a humanidade a se refugiar como única salvação, em cidades submarinas independentes da superfície e auto-suficientes na produção de alimentos não contaminados e minerais, sem contar que essas colônias humanas de nosso mundo interior poderiam servir como estratégia de defesa militar (dos imperialistas americanos, é claro, através de postos de abastecimento de combustível para submarinos atômicos), e um núcleo de aprendizagem dos infindáveis conhecimentos dos mares que poderiam ser aproveitados para o desenvolvimento do próprio Homem.

É interessante notar que passados mais de 50 longos anos da produção de Cidade Submarina, seus eventos imaginados e previstos não aconteceram, nem ao menos uma pequena parte disso, e os oceanos continuam sendo em boa parte um grande mistério. Na verdade, nem a exploração do mundo exterior, o espaço sideral, também não teve grande desenvolvimento, pois apenas houve na década de 1960 uma corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética por questões políticas. Em 1960, um soviético foi o primeiro homem no espaço e em 1969 os americanos chegaram primeiro à Lua. Após isso, a exploração espacial diminuiu significativamente sua velocidade de conquista e a maioria dos eventos previstos em dezenas de filmes de ficção científica estão ainda longe de serem realidade para a humanidade. Por outro lado, nosso planeta também precisa resolver ainda uma infinidade de problemas internos, como a fome que dizima populações, a exploração inconsequente dos recursos naturais, e a ocorrência de guerras estúpidas que emperram nosso desenvolvimento, enfatizam nosso grau de irracionalidade e atrasam nossos planos de conhecimento do espaço externo.

Curiosamente, poucos foram os filmes de Ficção Científica que abordaram a temática da exploração submarina. Uma outra produção interessante do mesmo período foi Cidade Sob o Mar (City Beneath the Sea, 1970), dirigida pelo especialista Irwin Allen, criador das nostálgicas séries de televisão Viagem ao Fundo do Mar, Perdidos no Espaço, Túnel do Tempo e Terra de Gigantes, e que teve no elenco nomes famosos das telinhas na época como Stuart Whitman (do western Cimarron), Robert Wagner (Casal 20), Robert Colbert, James Darren e Whit Bissell (todos do elenco fixo de Túnel do Tempo) e Richard Basehart (o Almirante Nelson de Viagem ao Fundo do Mar), além de Joseph Cotten e Rosemary Forsyth.

Cidade Submarina é uma rápida (apenas 78 minutos) aventura de ficção científica que procura instigar a nossa imaginação prevendo um futuro onde a humanidade pudesse viver em belas e complexas cidades construídas no fundo dos oceanos, podendo ser talvez a única salvação em caso de uma guerra nuclear que devastasse a superfície por séculos de contaminação radiativa. Esperamos que a nossa civilização esteja cada vez mais longe de concretizar sua própria destruição com uma guerra fatal e que possamos desfrutar das riquezas e conhecimentos oferecidos pelos mares. Encerro a análise reproduzindo o que o próprio filme diz em sua cena final, através da narração abaixo, em meio à imagem de uma belíssima cidade submarina e os letreiros indicando “O Futuro“.

“A cidade ‘Anfíbia’ é apenas o começo. No futuro veremos outras colônias submarinas, grandes cidades no fundo do mar. Na verdade, as grandes, ricas, abundantes profundezas do oceano, berço da vida, o mundo do espaço interno, talvez venha a se constituir num futuro lar, um abrigo seguro para a humanidade”.

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