Críticas, Literatura

Evangelho de Sangue (2016)

Pinhead e D’Amour o convidam a um passeio pelo Inferno, nas escritas sangrentas de Clive Barker!

Evangelho de Sangue
Original:The Scarlet Gospels
Ano:2016•País:EUA
Autor:Clive Barker•Editora: Darkside Books

O Inferno de dor e prazer apresentado por Clive Barker na obra The Hellbound Heart se materializou na imagem do cenobita Pinhead em suas adaptações cinematográficas e quadrinhos. Na proposta inicial, o demônio é visto discretamente na descrição inicial, assim como no filme de 87, mas a representação de Doug Bradley foi tão assustadoramente convincente que o vilão passou a ser a marca registrada da literatura macabra do escritor, apelidado por Stephen King como “futuro do horror“. Barker aproveitou da entidade demoníaca nos quadrinhos, também com ampliação da mitologia da Configuração dos Lamentos, e decidiu fazer de The Scarlet Gospels sua participação definitiva.

A obra, iniciada em 1998, foi desenvolvida em longos 15 anos, e tinha a previsão inicial de 2000 páginas. Barker confeccionou lentamente o que traria definitivamente uma continuação do universo criado na década de 80, fundindo-o com seu personagem Harry D’Amour, o detetive do sobrenatural. A perspectiva era épica, e permitiria uma literal viagem ao Inferno no encontro com o Anjo Caído. Pode-se dizer que Barker conseguiu se aproximar bem de seu objetivo, mas se alongou demais em algumas passagens, incluindo cada confronto com os inimigos, repetindo algumas situações e se afastando do medo para configurar uma obra de fantasia e busca pela concretização dos objetivos.

O livro começa com a morte de feiticeiros que tentavam ressuscitar o falecido Ragowski. A intenção era se defender dos ataques do cenobita conhecido como Sacerdote do Inferno (Hell Priest), algo que foi impedido com a chegada do demônio para finalizá-los de maneira sádica – em um quase fetiche erótico -, na localização de poderosos talismãs. Apenas um é mantido vivo como uma criatura escrava, que dará dores de cabeça para o investigador Harry D’Amour, personagem recorrente de outras obras do escritor como Everville, e que possui em seu corpo inúmeras tatuagens que servem de alerta contra presenças sobrenaturais. Ele está em New Orleans com o objetivo de destruir as evidências de prática de ocultismo de um cliente recém-falecido, e que, como fantasma, teria pedido ajuda para a médium cega Norma Paine.

Depois de um confronto sangrento no ambiente, percebendo que tudo não passava de uma armadilha de Pinhead para acioná-lo, Harry se une aos amigos Dale, Caz e Lana na proteção de Norma, que pressente uma passagem ao Inferno e a chegada de algo aterrorizante. O Sacerdote tentará fazer do detetive uma testemunha de suas ações, nem que para isso precise arrastar sua amiga vidente para uma viagem aos confins do Inferno, provocando o herói a uma perigosa aventura de resgate, atravessando florestas e edifícios imensos, um mar onde habita uma criatura voraz, enquanto confronta demônios poderosos e explora o habitat das almas perdidas.

Barker descreve cada luta e monstro encontrado pelo caminho com detalhes impressionantes, conduzindo o leitor a acompanhá-lo nessa jornada épica. Também impressiona o modo como transforma Pinhead num guerreiro infernal, tornando-se inimigo de outros demônios, em sua busca por Lúcifer. Os cenários gigantescos se misturam às descrições grotescas, envolvendo as páginas com aberrações diversas em confronto com a relação fraterna dos humanos. O resultado é uma obra pesada em conteúdo, fria em sua concepção e curiosa em seu contexto. Uma dosagem mais adequada na narrativa – os embates nos últimos capítulos soam repetitivos e não chegam a lugar algum – e a retirada de algumas sequências humorísticas que destoam de seu ambiente depressivo, fariam da obra um complemento fidedigno do trabalho do escritor.

Evangelho de Sangue foi lançado pela Darkside em um excelente acabamento, como sempre. Vale ao leitor fã de Pinhead e do detetive, da escrita sangrenta de Clive Barker, e também para aqueles que querem se aventurar por lugares obscuros e tenebrosos, habitados por seres abomináveis, divididos em hierarquias. E você nem precisa explorar a Configuração dos Lamentos para tal feito, bastando apenas uma visita à livraria mais próxima.

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1 Comentário

  1. Leonardo Gehring

    Vou ser eternamente grato para a DarkSide pelas traduções de The Hellbound Heart e Scarlet Gospels, porque pelamor a espera foi longa mesmo, mas fiquei beem decepcionado com esse, Clive escreve linhas melhores do que escreveu nesse, em alguns pontos pareceu fanfic.

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