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Mother Mary
Original:Mother Mary
Ano:2026•País:EUA, UK, Finlândia, Alemanha
Direção:David Lowery
Roteiro:David Lowery
Produção:Toby Halbrooks, Jeanie Igoe, James M. Johnston, Jonas Katzenstein, Maximilian Leo, David Lowery, Jonathan Saubach
Elenco:Anne Hathaway, Michaela Coel, Hunter Schafer, Sian Clifford, Atheena Frizzell, FKA twigs, Jessica Brown Findlay, Kaia Gerber, Alba Baptista, Kaia Gerber, Alba Baptista, Isaura Barbé-Brown, Jeanne Nicole Ní Áinle

David Lowery é um dos poucos diretores americanos atualmente que parece genuinamente desinteressado em fazer um cinema confortável, e A Ghost Story (2017) continua sendo o melhor argumento a favor disso na filmografia dele. Mother Mary (2026) parte da mesma recusa de ser um filme simples, mas chega a um resultado menos convincente do que o material sugeria. A premissa é boa e ambiciosa: uma pop star em crise vai até a estilista que a ajudou a se tornar quem é, e pede que ela crie o vestido do seu show de retorno. Duas mulheres com uma relação longa e mal resolvida, isoladas num espaço fechado, com tempo e pressão suficientes para tudo o que ficou pendente vir à tona. Como eu disse, é ambicioso. E funciona, mas só em partes.

O roteiro é o ponto mais consistente do filme, principalmente nos diálogos. Era fácil cair no erro de escrever trocas que soam inteligentes sem dizer muita coisa, cheias de frases sobre arte e identidade que ficariam bem numa sinopse mas pesariam no meio de uma cena. O que Lowery escreve para Mary (Anne Hathaway) e Sam (Michaela Coel) vai em outra direção: as conversas entre as duas têm uma qualidade de embate real, onde cada ponto levantado por uma é respondido pela outra de forma que move a discussão para um lugar diferente do que estava antes, e as viradas de posição entre elas acontecem de forma orgânica ao longo dos diálogos. A fotografia funciona bem em paralelo com isso, alternando tons quentes e frios de maneira inteligente e usando o contraste para marcar os momentos em que o filme sai do registro realista para o surrealista.

Falando nelas, Anne Hathaway está convincente, mas o roteiro a coloca numa posição difícil desde o início: a personagem chega já no pico da intensidade, desesperada e descontrolada desde a primeira cena, e isso deixa pouco espaço para qualquer movimento emocional significativo a partir daí. Ela sustenta o nível, mas não tem muito para onde ir. Michaela Coel, por outro lado, faz algo mais difícil com mais facilidade aparente, construindo Sam com uma economia que impressiona: a personagem passa da vulnerabilidade para a frieza e para a ameaça sem que você perceba exatamente quando essa mudança aconteceu. É a atuação mais interessante do filme, e nos momentos em que o restante vacila, ela é o que segura a atenção. Vale destacar a participação de FKA Twigs, que aparece brevemente como Imogen, numa cena de sessão espírita que é uma das melhores do filme, surpreendente e muito bem conduzida, e que acaba rápido demais, o que é sintomático de onde Mother Mary acerta e onde desperdiça o que tem disponível.

O problema central do filme é que ele trafega entre o thriller psicológico, o drama de câmara e o musical sem conseguir aprofundar nenhum desses registros o suficiente. O aspecto musical é o mais prejudicado por isso. Não é surpreendente que um filme sobre uma pop star internacional tenha muito espaço dedicado para a música, mas o filme não encontra uma forma consistente de inserir essas passagens. Algumas sequências são realizadas com a lógica de um filme musical de verdade, com transições de cenário e uma construção visual que justifica a ruptura com o realismo. Outras vezes a música entra como trilha não diegética no meio de cenas que tinham outra dinâmica funcionando, e o efeito é de interrupção, não de complemento, já que o tom delas destoam demais do que estamos acompanhando.

As composições originais de Charli XCX e FKA Twigs (há mais compositores envolvidos, mas vou realçar as cantoras para que este ponto fique mais claro) têm um problema adicional que vai ficar mais óbvio com o passar do tempo: elas carregam a marca do pop etéreo e eletrônico característico desse período musical muito específico de agora (2026), que não soam atemporais, e que são de um estilo que funciona bem para outras artistas, mas que soa descombinado com o universo de uma cantora de dark pop marcado por letras densas e uma iconografia que flerta com o sacro. Há uma desconexão enorme entre o que o filme constrói visualmente para o personagem de Mother Mary e o que toca quando ela canta, e essa desconexão incomoda de forma crescente. Quem quiser entender mais concretamente o que estou tentando dizer pode assistir aos dois primeiros minutos do clipe “Diamond Hard”, da cantora Kerli, que representa o tipo de som que faria mais sentido para o que o filme tentou montar.

E, sobre os figurinos, posso dizer que são deslumbrantes e funcionam como extensão direta do que o roteiro discute, mas entrar em mais detalhes seria estragar algo que vale mais ser descoberto ao assistir.

Mother Mary vai decepcionar quem foi atrás do thriller que o marketing prometeu, e vai satisfazer apenas parcialmente quem se abrir para a proposta mais surrealista do filme. O embate moral entre as duas protagonistas tinha potencial para ser muito mais tenso do que é, para criar algo que fizesse o espectador genuinamente preocupado com o que poderia acontecer com uma ou com as duas, e isso não se concretiza em nenhum momento. Há um bom filme aqui, mas a sensação que fica é de que o material permitia um resultado mais interessante do que esse.

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