Críticas

Estranhas Mutações (1974)

Estranhas Mutações não tem violência nem sangreira explícita, mas choca pelo clima totalmente amoral e grotesco!

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Estranhas Mutações
Original:The Mutations
Ano:1974•País:UK
Direção:Jack Cardiff
Roteiro:Edward Mann, Robert D. Weinbach
Produção:Robert D. Weinbach
Elenco:Donald Pleasence, Tom Baker, Brad Harris, Julie Ege, Michael Dunn, Scott Antony, Jill Haworth, Olga Anthony, Lisa Collings, Joan Scott, Toby Lennon

Em 1932, o diretor Tod Browning (o mesmo que anos antes havia feito o clássico Drácula, com Bela Lugosi) chocou o mundo ao lançar Freaks (em bom português, “Aberrações“), produção polêmica onde utilizava pessoas deformadas reais, como gêmeos siameses, anões e hermafroditas, num artifício sensacionalista para assustar o espectador, décadas antes de documentários “shock” tipo Faces da Morte. O filme ganhou má fama – sendo acusado de explorar deformidades reais sem o mínimo escrúpulo – e acabou relegando a carreira de Browning ao esquecimento.

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Quarenta anos depois, em 1973, um outro diretor usou a mesma tática, também com resultados controversos. Trata-se do inglês Jack Cardiff e seu Estranhas Mutações (The Mutations). Ao contrário de Freaks, Estranhas Mutações tem uma história sádica e de mau gosto que, mais uma vez, explora de forma sensacionalista deformidades humanas reais. Mas é justamente este o maior mérito do filme.

O diretor Cardiff nasceu em 1914 e trabalhava com cinema desde os anos 20. Assumiu o cargo de diretor de fotografia em filmes como Rambo 2, até seu falecimento em 2009. Estranhas Mutações é sua produção mais conhecida, em parte pela polêmica criada na época de seu lançamento. O filme começa com uma seqüência de imagens hiper-ampliadas de flores desabrochando e sementes germinando em câmera acelerada. As primeiras imagens são interessantes, mas o artifício logo se torna repetitivo – até porque o diretor repete as cenas (provavelmente retiradas de documentários) diversas vezes durante a projeção.

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Donald Pleasence interpreta o professor Nolter, um cientista obcecado por pesquisas genéticas (isso muito antes do tempos atuais, onde já se fala tranquilamente sobre clonagem e sobre a composição do DNA humano). Seu sonho é criar um ser humano perfeito a partir da combinação entre homem e vegetal. Enquanto não está sonhando acordado, Nolter dá aulas em uma faculdade, onde suas teorias são alvo de brincadeiras por parte de um grupo de alunos.

O que eles não sabem é que o professor está levando muito a sério suas teorias e já pensa em usar cobaias reais para testar a mutação de homem em planta. Nolter conta com a colaboração de um freak, Lynch (Tom Baker, que é “normal” e aqui atua sob pesada maquiagem), cujo rosto bastante deformado impede-o de viver uma vida normal. Ele é proprietário de um circo que exibe aberrações reais. Prometendo desenvolver uma fórmula que transforme Lynch em uma pessoa “normal“, o cientista pede que ele lhe traga espécimes vivos para experimentos.

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A primeira vítima é a jovem Lauren (Jill Haworth), agarrada pelo freak quando passeia por um parque. Mas a experiência não dá certo, e ela se transforma em uma criatura grotesca. Para não levantar suspeitas, o professor Nolter entrega a vítima viva para que Lynch exiba como “nova atração” de seu circo de aberrações. Certo dia, os amigos de Lauren – Tony (Scott B. Anthony), Hedi (Julie Ege) e Brian (Brad Harris) – vão visitar o show de freaks e suspeitam de Burns (Michael Dunn), o anão que apresenta o espetáculo, pois ele está usando o medalhão pertencente à garota. Na mesma hora, Lynch impede que o trio vá ver a “Mulher-lagarto do Tibete” – que é, claro, a amiga desaparecida do grupo!

Naquela noite, Tony volta ao circo dos horrores e encontra a mulher-lagarto (em uma cena que chega a ser chocante). Mas é visto por Lynch, que o persegue e aprisiona, levando-o ao cientista e assinando seu triste destino. Transformado em uma mistura de humanoide e planta carnívora, Tony consegue fugir do laboratório e ainda tem consciência do que lhe aconteceu, então procura a amiga Hedi para explicar-lhe, mas é claro que sua aparência monstruosa vai levá-la a chamar a polícia.

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O final é o tradicional clímax entre freaks e mutantes versus malvados, quando as vítimas dão o troco em seus algozes. Infelizmente, o confronto é mostrado de forma muito rápida e resumida (como se o diretor tivesse que acabar tudo em 10 minutos porque as latas de filme estavam acabando!), deixando algumas coisas em aberto.

Estranhas Mutações não tem violência nem sangreira explícita, mas choca pelo clima totalmente amoral e grotesco, como ao mostrar o cientista alimentando uma planta carnívora pra lá de fake com coelhos vivos (e o diretor faz questão de mostrar os guinchos aterrorizados do animal sendo devorado). O sadismo de Nolter ao aplicar a fórmula em suas vítimas, enquanto faz discursos sem um pingo de ética, também incomoda, e no final chegamos à conclusão que ele não recebeu a devida punição pelas atrocidades cometidas.

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O roteiro não engana ninguém: trata-se de mais uma variação da história A Ilha do Dr.Moreau, de H.G. Wells, onde um cientista louco cruzava homens e animais em busca de um ser humano perfeito. A única diferença, aqui, é a preferência do professor Nolter por vegetais na hora de misturar com DNA humano. Sendo uma produção barata dos anos 70, os efeitos especiais são fracos, especialmente a caracterização do “homem-planta carnívora” em que Tony se transforma. Mas é a visão das aberrações reais que tem destaque na metade do filme, quando as “atrações” são apresentadas ao espectador. Entre os freaks reais, temos uma tal de mulher-jacaré (com a pele toda escamosa), muitos anões, o “homem-rã” (que nasceu sem cálcio nos ossos das pernas e por isso precisa andar com os braços), o esquisito Popeye (que consegue fazer seus olhos saltarem para fora das órbitas) e um cara que atravessa o corpo com espadas.

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A exposição gratuita destas deformidades é discutível, mas por outro lado é exatamente o que valoriza o filme. E o ponto alto da produção é o esforço do roteiro em não mostrar os freaks como monstros, e sim como pessoas normais – apesar de Lynch ser um dos vilões. O ápice desta tentativa de humanizar as aberrações é quando elas realizam uma festa de aniversário para uma das anãs. O roteiro consegue atingir, ainda, um interessante nível dramático, na cena em que Lynch passeia à noite e provoca repulsa até nas prostitutas, tendo que pagar 10 dólares apenas para que uma delas diga que o ama.

O sonho de Lynch é transformar-se em uma pessoa normal, e se o roteiro tenta humanizar as aberrações, por outro lado nem tenta passar a ideia de que eles são cem por cento felizes por terem nascido deformados. É como na cena em que Lynch ameaça os freaks, dizendo que vai fazer com que eles se arrependam de ter nascido. Um deles, com olhar triste, responde: “Você vai fazer com que nos arrependamos?“.

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2 Comentários

  1. Meg

    Eu vi este filme quando criança e fiquei aterrorizada com as aberrações. Hoje acho que nem quero revê-lo para não estragar a imagem que tenho na cabeça rs.

  2. Cristiano

    Eu já vi este filme este filme na TV, apesar de ter um bom ator, eu achei este filme estranho, os efeitos são fracos demais.Serve apenas como diversão passageira.

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