Críticas

A Múmia (2017)

Mais próximo dos exageros de Stephen Sommers do que dos bons exemplares que construíram a trajetória do estúdio!

A Múmia
Original:The Mummy
Ano:2017•País:EUA
Direção:Alex Kurtzman
Roteiro:David Koepp, Christopher McQuarrie, Dylan Kussman, Jon Spaihts, Alex Kurtzman, Jenny Lumet
Produção:Sarah Bradshaw, Sean Daniel, Alex Kurtzman, Chris Morgan
Elenco:Tom Cruise, Sofia Boutella, Annabelle Wallis, Russell Crowe, Jake Johnson, Courtney B. Vance, Marwan Kenzari, Stephen Thompson, James Arama, Matthew Wilkas

A Múmia é um monstro amaldiçoado. Não pelos rituais egípcios realizados no passado, a interrupção de algum relacionamento ou a busca por um poder absoluto, mas pelas versões cinematográficas pós-era-do-cgi. Quando envolvia atores maquiados, com trapos velhos que escondiam uma possível estrutura cadavérica, além da lentidão de seus movimentos compassados, com os braços esticados na horizontal, você tinha uma assustadora concepção de sua condição imortal. Conservado para um possível retorno, aprisionado em um sarcófago maldito e dotado de uma força descomunal, a Múmia trazia referências históricas das crenças dos povos antigos e um contexto de mistério e exploração. Boris Karloff, Christopher Lee, Tom Tyler e até mesmo Lon Chaney Jr. já honraram a tradição dos farrapos ambulantes em produções ingênuas e inesquecíveis, que pontuavam uma época de poucos recursos visuais e muita criatividade.

Com o passar dos anos, a criatura, desgastada pelas obras que repetiam o argumento da velha maldição, ela foi deixada de lado, participando de poucos exemplares que merecem a recomendação, como Deu a Louca nos Monstros (1987), de Fred Dekker, e o episódio Papai Múmia, de 1985, de William Dear, que fez parte da antologia Histórias Maravilhosas, desenvolvida por Steven Spielberg. Depois, mais alguns filmes medianos ou ruins foram feitos até a série de Stephen Sommers, com Brendan Fraser e Rachel Weisz, iniciada em 1999. Os dois primeiros filmes, A Múmia e O Retorno da Múmia, são até divertidos, funcionando como aventuras ao estilo Indiana Jones, mas distantes do aspecto assustador das tradicionais múmias para espalhar efeitos digitais extremamente artificiais por praticamente todas as cenas.

Com a intenção de resgatar seus monstros clássicos, a Universal Pictures deu início ao selo Dark Universe. A proposta é trazer novas produções com as criaturas que fizeram parte da história do estúdio nas décadas de 30, 40 e 50, em versões milionárias e que futuramente poderiam permitir crossovers. O primeiro filme que participaria da série seria Drácula: A História não Contada, com Luke Evans no papel do vampiro, mas a baixa receptividade impediu a conexão com o universo sombrio. Assim, independente da aceitação do novo A Múmia, a Universal já tratou de dar luz verde aos demais filmes, com a perspectiva de honrar seu passado histórico e a confiança de seu sucesso, graças ao elenco encabeçado por Tom Cruise e Russell Crowe.

Os trailers já davam a entender que A Múmia estaria mais próximo do que fizera Sommers ao invés de resgatar a mitologia original. Os efeitos de CGI e as cenas de ação ajudavam a imaginar essa possibilidade, e ainda permitiam a brincadeira sobre a carreira de Cruise: Missão Impossível: Protocolo Múmia foi um dos apelidos que o filme recebeu pelos sites de cinema. Dirigido por Alex Kurtzman (Bem Vindo à Vida, 2012), A Múmia chegou aos cinemas, no dia 8 de junho, e todas as perspectivas e brincadeiras sem confirmaram na tela grande, em 3D: muito distante dos monstros originais, o filme é mais um trabalho de Tom Cruise, no combate a uma vilã sedutora e sobrenatural.

O filme começa em 1127 D.C, com templários colocando um rubi na tumba de um dos soldados. No presente, em Londres, a escavação de um túnel acidentalmente descobre as tumbas, para interesse do rico Dr. Henry Jekyll (Russell Crowe) – com o sobrenome ainda sendo mantido em sigilo, apesar dos trailers e vídeos dos bastidores já o identificarem. Ele nota que os hieroglifos presentes trazem uma conexão com a Princesa Ahmanet (Sofia Boutella), que era a única herdeira do Faraó Menehptre (Selva Rasalingam), que perdeu a rainha no parto. Mas, como seu pai se uniu novamente e engravidou a companheira, Ahmanet percebeu que não teria mais direito a nada e fez alguns rituais para o deus da morte Set, com a proposta de trazê-lo à forma física e com isso adquirir poder supremo. Depois de matar sua família, quando estava prestes a apunhalar seu pretendente e que seria o hospedeiro do deus, ela foi presa e condenada a ter seu corpo enterrado em um local distante do Egito, mais precisamente na Mesopotâmia, atual Iraque.

E é lá que está o ladrão Nick Morton (Cruise) e seu companheiro das tiradas cômicas Chris Vail (Jake Johnson) em busca de itens valiosos. Ao serem perseguidos na região, pedem auxílio aéreo, e uma bomba atirada ao solo revela a entrada para o sarcófago. A descoberta atrai o interesse da arqueologista Jenny Halsey (Annabelle Wallis, de Annabelle), e os três encontram a tumba, sugerindo uma retirada para estudo. No voo, acontece a cena do trailer: Vail é picado por uma aranha, libera a tumba, e o avião é atacado por um bando de corvos, fazendo jus ao 3D. Apesar da queda da aeronave, Nick não sofre um arranhão, comprovando uma ligação inicial com Ahmanet, que o escolheu como novo hospedeiro de Set.

A Múmia começa a se reconstruir sugando a vida dos incautos que a encontram pelo caminho, como dois policiais que vão verificar o acidente aéreo. Ao estilo Força Sinistra (85), seu beijo reduz a vítima a um estado cadavérico, ao passo que ela vai voltando à forma normal. Ahmanet também traz à vida aqueles que foram sugados, montando um mini exército de zumbis ajudantes. Tanto a múmia quanto a sobrevivência estranha de Nick atraem Dr. Henry, que planeja ampliar seu estudo sobre a vida e a morte. Para quem não reconheceu o nome, trata-se do personagem clássico da literatura de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro. Necessitando de doses constantes de seu antídoto, ele se mantém na forma Jekyll, mantendo sob controle sua versão Hyde – algo que, obviamente, será desperto por Nick.

Apesar da boa concepção dos mortos-vivos, aliados à fotografia escura, – bem melhor do que o exército de monstros com boca larga de Sommers -, A Múmia não se define entre filme de ação e aventura, e ainda traz doses muito discretas de horror. E tem tantos furos no roteiro, desde o ano apontado como egípcio ao formato de hieroglifos que não condizem com a escrita antiga, que chegam realmente a incomodar. Tudo se explica pela quantidade de roteiristas envolvidos: A Múmia foi roteirizado por três pessoas – David Koepp, Christopher McQuarrie e Dylan Kussman – com o acréscimo de passagens de mais três, incluindo o diretor. Tantas ideias juntas transformam o roteiro de A Múmia num argumento Frankenstein, sem que haja uma definição ou linha narrativa.

Pode-se citar como exemplo a transformação de Vail em uma assombração que persegue Nick tentando convencê-lo a aceitar sua condição de hospedeiro de Set. Qualquer fã de horror irá estabelecer uma ligação dessas cenas com os encontros entre o zumbi Jack e o monstro David em Um Lobisomem Americano em Londres. E a relação é idêntica até no constrangimento causado pelo fantasma ao aparecer em lugares estranhos, conforme acontecia no filme de John Landis.

A presença do personagem de Russell Crowe apenas serve para conectar o filme a outros monstros, sendo que nem o próprio consegue descrever seu objetivo. Ora, parece estar disposto a ajudar Nick, ora com a intenção de trazer Set à vida. Já a tal múmia perde várias oportunidades de findar seu plano, com aquele discurso típico do vilão dos filmes do 007, até o ato ousado de Nick levar a própria vilã a incredulidade. Com a sequência final – e que parece deixar fios soltos para uma continuação -, o espectador termina com a mesma face de desconfiança de Ahmanet, providenciando o questionamento: todo o objetivo era apenas para isso?

Ainda que tenha falhas e das dificuldades na bilheteria, o filme deve dar continuidade aos intentos da Universal. Para nós, fãs de horror, vale a pena saber que os monstros serão lembrados em futuras produções nos próximos anos, mesmo que os filmes não honrem suas tradições.

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