Críticas

A Ghost Story (2017)

A Ghost Story não é um filme de terror, mas usa artifícios do universo sobrenatural para falar sobre o tempo e sobre o viver

A Ghost Story
Original:A Ghost Story
Ano:2017•País:EUA
Direção:David Lowery
Roteiro:David Lowery
Produção:Adam Donaghey, Toby Halbrooks, James M. Johnston
Elenco:Casey Aflleck, Rooney Mara, Will Oldham, Augustine Frizzell, Carlos Bermudez, Liz Franke, Kesha

A Ghost Story é um dos primeiros filmes em que aquela frase que vem depois do título nos cartazes resume exatamente a história toda: it’s all about time. E o filme é sobre isso. Não é um filme de terror sobrenatural, ou sobre perder alguém. É sobre o tempo e o passar do tempo.

A trama começa acompanhando um casal interpretado por Casey Affleck (C) e Rooney Mara (M). Logo no inicio C morre num acidente de carro e reaparece na forma de um fantasma clássico – esses com lençol jogado em cima do corpo. Ele vai até sua antiga residência e passa observar M, nunca deixando a casa. E o tempo vai passando…

As escolhas do diretor e roteirista David Lowery são perfeitas. A fotografia tem tons pastéis e amarelados, e o formato quadrangular da imagem com as pontas arredondadas (um 4:3 ainda mais quadradinho) deixa a sensação de que estamos olhando através de uma TV tubo ou fotografia Polaroid, algo mais antigo. Parece que somos voyeurs do fantasma assim como ele é de M.

Agora vou fazer uma comparação louca, mas é para ilustrar as coisas: porque o Gasparzinho: o fantasminha camarada tinha esse aparência de lençol? A Ghost Story faz pensar sobre isso. Esse formato traz uma inocência ou perda do aspecto humano desses seres, o que deixava mais tragável a temática da morte para uma narrativa infanto-juvenil que é proposta por Casper. No live action de Gasparzinho (1995) ele aparece com sua face humana no final do filme antes de seguir para a luz. E lembro da sensação estranha que foi ver a face desse fantasma. É como se o lençol tirasse aspectos da personalidade e não tornasse estranha a sensação de ter um ser ali stalkeando as pessoas na casa a todos os momentos. O lençol em A Ghost Story tira essas características para tratar justamente do que interessa a trama: o devir. Afinal, o que fica de nós depois que vamos embora/morremos?

O filme tem o tempo ideal, uma hora e trinta minutos. Algumas pessoas podem achar determinadas cenas arrastadas, mas a partir do momento que você consegue entender essa reflexão sobre a temporalidade, elas passam a fazer sentido. Então em alguns momentos do início você tem a sensação de que o filme vai se perder. Mas o único elemento perdido ali é a gente mesmo, que ainda não deu a moral para a narrativa.

O filme tem poucas falas, já que a maior parte da trama se constitui de um fantasma observando coisas passando pelo ambiente. Entretanto, uma fala feita por Will Oldham marca boa parte do sentido do filme. Você não precisa dela para entender do que a trama se trata, entretanto sua presença deixa mais evidente a sensação lírica e ao mesmo tempo “invisível” que o diretor/roteirista quer passar sobre as relações que estabelecemos uns com os outros e sobre a temporalidade de nossas ações.

E as sequências que nos dão a sensação dos dias estarem correndo são bem sacadas. Nada de uma tela preta com a mensagem “xx dias depois”. A repetição de alguns planos- sequência e a mudança de posicionamento do fantasma em cena realiza essas ações, o que torna a narrativa mais fluida e fácil de acompanhar.

A Ghost Story não é um filme de terror, mas usa artifícios do universo sobrenatural para falar sobre o tempo e sobre o viver. Uma narrativa linda e triste, que te faz refletir sobre o existir (profundo, mas real).

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4 Comentários

  1. Coloca seis estrelas 🙂

  2. Carlos Dente

    Será disponibilizado em DVD, no Brasil?

    • Silvana Perez Silvana Perez

      Por enquanto não há previsão de lançamento por aqui, nem os cinemas, nem em home vídeo…

  3. Ed

    O filme é de terror (tem fantasma, ruídos estranhos na casa, copos e livros voando etc.), mas como o vemos pela perspectiva do fantasma não nos assustamos.

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