Charlie Sheen e Guinea Pig: Uma história de excessos

Hoje em dia, Charlie Sheen é mais lembrado pelo seriado Two and a Half Men e pelas festas insanas que frequenta. Mas no início dos anos 1990, ele era um dos astros mais quentes de Hollywood. Seu nome era associado a filmes vencedores do Oscar como Platoon e Wall Street: Poder e Cobiça e a produções estreladas ao lado de seu irmão Emilio Esteves, como Os Jovens Pistoleiros e Trabalho Sujo. Tudo indicava que Charlie se tornaria um ator sério como seu pai Martin Sheen, e quem sabe um dia entregar uma performance digna de um prêmio da Academia.

Mas mesmo no auge da sua popularidade, Charlie Sheen nunca foi santo. Num incidente muito mal explicado em 1990, ele teria atirado acidentalmente em sua noiva Kelly Preston, que mais tarde se casou com John Travolta. Ainda nessa época ele teria se envolvido com atrizes pornô como Ginger Lynn e Heather Hunter, e era famoso como um dos maiores baladeiros de Hollywood. Mas o incidente mais bizarro em que ele esteve envolvido no início daquela década foi a denúncia que ele fez ao FBI em relação ao filme japonês Guinea Pig: Flowers of Flesh and Blood.

Composta por seis filmes, a série japonesa Guinea Pig foi criada em 1985. Os episódios possuem pouca conexão além da violência extrema, embora os dois primeiros episódios, Devil Experiment e Flowers of Flesh and Blood, sigam a mesma proposta narrativa, a de simular filmes snuff através de efeitos especiais. Dirigido pelo mangaka Hideshi Hino, Flowers of Flesh and Blood foi lançado em 1985, e mostra um assassino vestido de samurai que sequestra e esquarteja uma mulher. Apesar da falta de história, o filme impressiona pelo realismo dos efeitos especiais, e merece ser visto mesmo que por curiosidade.

Foi através do crítico de cinema especializado em horror Chris Gore que uma cópia pirata de Flowers of Flesh and Blood foi parar nas mãos de Sheen em 1991. O realismo dos efeitos especiais fez Sheen acreditar que estava diante de um legítimo filme snuff, onde pessoas são mortas de verdade. O ator imediatamente ligou para o FBI exigindo uma investigação do que havia visto. O FBI então confiscou a fita pirata e abriu um inquérito – o filme aparentemente já estava sendo investigado por autoridades japonesas – que só foi resolvido quando os produtores do filme lançaram Guinea Pig Two: The Making of Guinea Pig One, um documentário detalhando o processo dos efeitos especiais do filme.

A história poderia ter acabado aí. Sheen continuou sua carreira em filmes como Os Três Mosqueteiros, Censura Máxima e a série Top Gang, até encontrar sucesso na televisão em Two and a Half Men, sitcom que estrelou entre 2003 e 2011, até ser demitido por conta dos escândalos de sua vida pessoal, enquanto estrelava em desastres cinematográficos como A Guerra das Comidas e Todo Mundo em Pânico 5. Foi então que Stephen Biro, da Unearthed Films, resolveu produzir e dirigir o filme American Guinea Pig, uma espécie de reboot/homenagem à série japonesa. Com o subtítulo Bouquets of Guts and Gore, o filme foi financiado através de crowdfunding pelo Indiegogo e lançado no meio underground em 2015, ganhando um sucesso cult. Mais uma vez, o filme é um snuff simulado. Mais uma vez uma cópia foi parar nas mãos de Charlie Sheen. E mais uma vez ele chamou o FBI.

A situação dessa vez foi resolvida com menos confusão, já que uma rápida busca na internet revelou a natureza do filme.“Basicamente a essa altura nós não estamos mais recebendo denúncias de filme snuff de Charlie Sheen,” declarou o diretor do FBI Marshall Givens. “Ele provou mais uma vez que não sabe diferenciar filme de realidade e desperdiçou nosso tempo, outra vez, num filme de terror“.

Enquanto a carreira de Sheen continua estagnada, a nova série American Guinea Pig parece estar emplacando. O segundo volume, The Song of Solomon, sai em 2017, ao passo que Sheen continua mais famoso por suas aventuras fora das telas do que dentro dela. Considerando a quantidade de comerciais que o ator vem estrelando nos quais faz chacota com sua própria imagem, talvez Stephen Biro decida contratá-lo como porta voz dos próximos filmes de American Guinea Pig. Só é melhor deixar o FBI fora disso.

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Matheus Ferraz

Matheus Ferraz

Mineiro, autor publicado e mestre em Biografia pela University of Buckingham

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