Prometheus (2012)

Prometheus (2012)
Ridley Scott de volta às origens!
Prometheus
Original:Prometheus
Ano:2012•País:EUA, UK
Direção:Ridley Scott
Roteiro:Jon Spaihts, Damon Lindelof
Produção:David Giler, Walter Hill, Ridley Scott
Elenco:Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron, Idris Elba, Guy Pearce, Logan Marshall-Green, Sean Harris, Rafe Spall, Emun Elliott, Benedict Wong, Kate Dickie, Branwell DonagheyVladimir 'Furdo' Furdik

Existe uma linha tênue que divide os gêneros horror e ficção científica. Durante décadas cada estilo ousou invadir o território do outro, principalmente nos anos 40, 50 e 60, com invasores hostis, ou quando uma ameaça de guerra nuclear trouxe ao mundo criaturas gigantes e a possibilidade da solução vir de outros planetas. Orson Welles já havia mostrado ao público o quanto o espaço poderia espalhar o medo e o desespero ao fazer uma narração da obra Guerra dos Mundos, em 1938, deixando evidente que uma invasão de seres desconhecidos seria capaz de assustar mais do que entreter. Ainda assim, foi apenas em 1979, que essa linha foi definitivamente cortada, numa produção assinada por um diretor especialista em episódios de séries de TV chamado Ridley Scott.

Nascido em 30 de novembro de 1937, na Inglaterra, Ridley Scott iniciou sua carreira por trás das câmeras em 1965 com o curta Boy and Bycicle para depois dirigir episódios de séries como Thirty-Minute Theatre, Adam Adamant Lives!, Half Hour Story, The Informer e The Troubleshooters. Foi em 1977 que ele realizou seu primeiro longa-metragem, Os Duelistas, com Harvey Keitel, Albert Finney e Keith Carradine, recebendo várias indicações para prêmios como BAFTA, British Society of Cinematographers, Cannes (onde ganhou na categoria Best First Work e quase levou uma Palma de Ouro) e David di Donatello Awards (vencendo como Melhor Diretor de Filme Estrangeiro). Foi o suficiente para que seu nome fosse associado a um projeto da Fox, com roteiro de Dan O’Bannon, que mais tarde faria A Volta dos Mortos-Vivos (1985).

O sucesso de Alien, o Oitavo Passageiro surpreendeu o estúdio e a todos os envolvidos, deu fama ao diretor e ao elenco, encabeçado pela desconhecida Sigourney Weaver. O longa arrecadou cinco vez o seu custo e foi nomeado ao Oscar, ganhando nas categorias Efeitos Especiais e Visuais, algo bastante incomum para o gênero fantástico. Pode-se dizer que a produção foi um divisor de águas, sendo precursora no estilo horror com elementos de ficção científica, abrindo as portas para que outros trabalhos similares fossem feitos nos anos seguintes: O Enigma de Outro Mundo (1982), Videodrome (1983), Força Sinistra (1985), A Mosca (1986), Bad Taste (1987), Eles Vivem (1987), A Experiência (1995), O Enigma do Horizonte (1997), entre tantos outros.

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Depois de Alien, Ridley Scott se transformou num cineasta cult, assinando filmes com grandes orçamentos e trabalhos conhecidos como Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982), Chuva Negra (1989), Thelma & Louise (1991), Até o Limite da Honra (1997), Gladiador (2000), Hannibal (2001), Falcão Negro em Perigo (2001), Os Vigaristas (2003), Cruzada (2005) e Robin Hood (2010). O Gângster, de 2007, foi seu último filme premiado, pois ele só receberia indicações ao Emmy pela produção de séries como Os Pilares da Terra (2010) e The Good Wife (2009-2012). Estava na hora mesmo de voltar ao gênero que ajudou a criar.

Alien, o Oitavo Passageiro deu vida a uma franquia com mais três filmes: o sensacional Aliens, o Resgate (1986), de James Cameron, Alien 3 (1992), de David Fincher, e Alien, a Ressurreição (1997), de Jean-Pierre Jeunet. Depois seriam feitos alguns fanfilms e os crossovers Alien Vs Predador e Alien Vs Predador 2, colocando a criatura frente a frente com outro ser alienígena popular. Desde o começo do novo milênio, houve a intenção de realizar um quinto filme oficial para a série, com Ridley Scott e James Cameron sugerindo ideias para a produção de um prelúdio, já que ambos preferiram ignorar os filmes 3 e 4.

Cameron abandonou o barco em 2006, depois que a criatura perdeu seu rumo nos crossovers. Carl Erik Rinsch foi apontado como possível diretor do projeto, embora a Fox admitisse que só trabalharia num novo filme se houvesse a presença de um dos diretores originais. Após a realização do segundo crossover, em 2009, o projeto começou a ganhar forma com Ridley Scott assumindo o comando definitivamente. Jon Spaihts (A Hora da Escuridão) apresentou um roteiro que contaria eventos anteriores a Alien, o Oitavo Passageiro, mas ainda não convenceu Ridley Scott a realizá-lo, já que apresentava muitos elementos da história original. Ainda assim a Fox já anunciava um lançamento para dezembro de 2011! No entanto, em 2010, depois que Scott já havia anunciado a finalização do roteiro – chamado inicialmente de Paradise em referência ao poema Paradise Lost, de John Milton -, ele passou às mãos de Damon Lindelof, autor de vários episódios da série Lost e do filme Cowboys & Aliens, que trouxe um argumento completamente novo, mas que tocaria levemente na franquia sem repetir a fórmula. Estava pronto!

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Prometheus entrou em pré-produção em abril de 2010, com o desenvolvimento do design das criaturas e dos ambientes, figurinos, escolha de elenco e tal. As filmagens oficialmente tiveram início em março de 2011, num orçamento estimado entre 120 e 130 milhões (Scott sonhava com algo em torno de $250), sendo filmado com câmeras 3D em locações na Inglaterra, Escócia, Espanha e Irlanda. Nesse interim, Scott deixou claro aos fãs que a criatura Alien estava fora do projeto, mas que os fãs reconheceriam traços do DNA da série e de seu grandioso universo em diversos momentos, principalmente no terceiro ato, mais precisamente nos oito minutos finais.

Foi realizada um campanha de marketing repleta de virais e imagens curiosas, tendo início em 28 de fevereiro de 2012, com um discurso de Guy Pearce sobre sua visão do futuro. Dirigido pelo filho de Ridley Scott, o vídeo é ambientado em 2023, numa conferência de tecnologia e design, ocorrida em Long Beach, Califórnia. Era apenas o começo da campanha: em 6 de março, foi colocado no ar um site da Weyland Corporation, pedindo a ajuda de investidores para uma expedição que seria realizada e traria respostas às principais perguntas da humanidade. Durante a WonderCon, havia um painel da empresa com o endereço do site e um número de telefone; quem ligasse para lá receberia uma mensagem de texto com o endereço de um novo vídeo viral. Narrado por Michael Fassbender, ele apresentava um anúncio para a realização de um novo andróide, David 8. Foi feita uma extensão desse viral em 17 de abril de 2012, incluindo sua capacidade em representar emoções. Com ele, uma página do jornal The Wall Street, onde era revelado o twitter David8. Novos vídeos, páginas oficiais no Facebook, declaração dos atores e envolvidos foram instigando o público ao que seria apresentado a partir de sua premierè, no dia 31 de maio de 2012.

A ansiedade do público e crítica refletiu no box office, com mais de um milhão de ingressos sendo vendidos antes de sua estreia, incluindo cinemas com a tecnologia IMAX. Foi recorde em pré-venda em vários países, tendo como principal rival a animação Madagascar 3, que arrecadou boa parte da bilheteria por incluir mulheres e crianças. Depois, começaram a surgir as primeiras avaliações da produção, entre críticas positivas e algumas expressões de decepção, surgindo então a pergunta que todos querem saber, com um trocadilho inevitável: Prometheus cumpre o que promete?

Visualmente deslumbrante e tecnicamente impressionante, o longa está acima da média do que é feito hoje em dia no gênero ficção científica, mas as expectativas em torno de um novo clássico, um novo divisor de águas, foram tantas que a decepção tornou-se evidente quando os créditos surgiram na tela, as perguntas não foram respondidas e ele não conseguir ir além do que prometia. É como visitar uma galeria de arte, admirar os quadros, mas não entender porque eles estão ali.

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Diferente do filme de 1979, Prometheus não traz nada novo. É uma produção que bebe completamente das fontes realizadas nas últimas décadas, e peca, principalmente, pela necessidade em criar uma nova franquia, produzir novos filmes explorando a temática sobre a origem da vida. Por outro lado, sua qualidade técnica – sem traços de inovação, numa decepção similar à estreia de Matrix 2 – e diálogos afinados fazem do trabalho de Ridley Scott um excelente entretenimento para ser conferido em seus elegantes efeitos 3D, de preferência numa sala IMAX ou XD.

Prometheus começa em 2089, data em que um casal de arqueologistas – Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) – descobre o que acredita ser um mapa estelar, já visto em diversas inscrições de povos antigos como os Maias, os Mesopotâmicos e os Sumérios. Ambos imaginam que se trata de um convite dos criadores do Universo, que eles chamam de engenheiros, para que os povos do futuro possam chegar até eles. A partir dessa descoberta o Presidente da Weyland Corporation, Peter Weyland (Guy Pearce em um quilo de maquiagem), resolve fazer uma expedição ao local indicado por meio de uma nave chamada Prometheus. Nota-se aqui a primeira referência ao universo Alien com a empresa constantemente mencionada na franquia. Durante os quatro filmes, ela é citada como Weyland-Yutani Corporation, especializada em produzir armas biológicas, enquanto nos dois Alien Vs Predador (que também são anteriores a esses filmes) só temos a presença de Charles Bishop Weyland, interpretado por Lance Henriksen. Ainda não é possível saber quando houve essa fusão com a Yutani, e qual a sua influência e importância nessa corporação.

Seguindo o mapa estelar, o destino previsto é uma Lua distante chamada LV-223 (lembre-se que o planeta dos Aliens é mencionado comoo LV-426). Enquanto os 16 tripulantes dormem numa viagem de pouco mais de dois anos, eles são vigiados e estudados pelo andróide David (Michael Fassbender), que aproveita o tempo para ler os sonhos alheios e jogar basquete (numa referência discreta a Alien, a Ressurreição). O ano agora é 2093, data em que eles são autorizados pela funcionária da Weyland, Meredith Vickers (Charlize Theron, séria mas ainda linda), responsável pelo monitoramento da viagem, para pousar e explorar a região desconhecida. Entre os tripulantes, destacam-se a presença dos arquéologos já mencionados, além do Capitão da Prometheus, Janek (Idris Elba), o biologista Milburn (Rafe Spall), o geologista Fifield (Sean Harris), o médico Ford (Kate Dickie) e os pilotos Chance (Emun Elliott) e Ravel (Benedict Wong).

Antes de descer ao local, eles assistem a um vídeo em holograma onde o próprio Peter Weiland explica os objetivos da missão, das responsabilidades em encontrar as respostas que procuram e repete um clichê do cinema: se estão vendo isto, é porque já estou morto. É com ele que o público lembra do mito de Prometeu, que ousou roubar o fogo de Zeus e o entregou para os mortais, prestando um serviço para a humanidade. Ele só deixou de lado a parte em que o titã é condenado a ter o fígado eternamente comido por uma águia. Algo que pode ser traduzido como as consequências de quem ousa desafiar seu criador – não é à toa que a história de Frankenstein também é chamada de O Prometeu Moderno.

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A exploração pela superfície da LV-223 conduz o grupo a uma cadeia de túneis, hologramas de criaturas gigantes (seriam os deuses astronautas?), um corpo sem cabeça e a uma gigantesca cabeça humana de pedra, envolta por diversos cilíndros com uma cobertura líquida negra. Sentindo que o ambiente é biológico e e está se alterando com a presença deles – e somado a uma tempestade que se aproxima -, o grupo decide voltar à nave com a cabeça de um alienígena, sem notar que David recolheu um dos cilíndros. Na fuga, não percebem que dois membros ficaram por lá, Millburn e Fifield, os primeiros a sucumbir à ameaça da produção.

É claro que a nave ainda irá explorar a região mais algumas vezes, assim como as intenções do andróide serão aos poucos conhecidas até a surpresa final. E também é fácil imaginar que algo irá gerar a morte dos integrantes um a um, principalmente depois que Charlie se contamina e começa a sofrer alterações físicas – gerando um monstro que me remeteu ao filme O Lobisomem, de 1941. Há algumas revelações sobre os objetivos daqueles seres humanóides gigantes e a presença dos túneis como um elo a uma possível arma alienígena, mas é melhor não revelar muito para evitar estragar as surpresas. No entanto, pontos cruciais são deixados para uma possível continuação, algo que, pelo visto, deve estar nos planos da Fox. A necessidade de gerar uma nova franquia pode comprometer ainda mais o resultado da produção, como aconteceu com os primeiros capítulos de Star Wars.

Aliás, por falar neles, Prometheus comete as mesmas falhas desses episódios iniciais da série ao apresentar uma tecnologia superior ao que foi mostrado nas produções que contam situações posteriores – com datas que avançam para mais de 200 anos. O sistema de cirurgia robótica (numa das melhores cenas do filme), o mapeamento de lugares desconhecidos, o avanço dos hologramas e, principalmente, a evolução do andróide David, superior ao modelo Bishop, já pertencente à fase Weyland-Yutani. E é preciso relevar também fatores menos importantes como a evolução da criogenia, cortes de cabelo e roupas espaciais modernas.

Ridley Scott não menciona a nave Nostromo, que traria na tripulação a Tenente Ripley, mas traz o primeiro facehuggers, além da concepção original do alien. Você entenderá o motivo de sua existência, o que permitirá um leve sorriso quando você lembrar qual era o objetivo da Weyland-Yutani com as criaturas, principalmente no quarto filme. Essa mesma brincadeira do roteiro também acontece na fala do andróide David, ao questionar sua existência, já que os próprios humanos estariam naquela missão para entender a sua criação.

No entanto, os pequenos acertos não superam a quantidade de obviedade da trama, ou a repetição da fórmula do clássico numa tentativa de fazer da personagem de Noomi Rapace uma nova Tenente Ripley. A atriz é extremamente talentosa, já demonstrado na trilogia Millenium, mas não possui o mesmo carisma e presença em cena de Sigourney Weaver.

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Se o roteiro não surpreende, não podemos dizer o mesmo da parte técnica. Não será absurdo se Prometheus concorrer no próximo Oscar aos prêmios de Direção de Arte e Fotografia, esta última a cargo de Dariusz Wolski (da franquia Piratas do Caribe). A cena inicial com a nave passeando por diversas paisagens, o visual da LV-223 e a sequência final são os pontos fortes, embora eu não tenha gostado da tempestade em CGI – provavelmente o dedo de Alex Cameron, responsável por efeitos similares na cinessérie A Múmia.

Entre qualidades e alguns defeitos, Prometheus está, realmente, acima da média. Engana-se quem for aos cinemas imaginando se tratar de um filme de monstros, claustrofóbico e tenso como os dois primeiros longas da franquia Alien. Aqui temos uma produção mais voltada para a ficção científica do que para o horror, uma excelente experiência para aqueles que curtem viagens espaciais, exploração do universo e seus mistérios associados a criação humana. Há referências filosóficas e à religião, no tirar e pôr do crucifixo da protagonista e nas palavras de Peter Weiland, sem ser piegas ou soar artificial.

Longe de ser um novo clássico, o filme comete o erro do titã Prometeu ao tentar fazer uso de um excelente conceito realizado em 1979 para tentar mexer na sua obra-prima, mas sem ser ousado ou inovador. Como consequência poderá ter seu fígado comido pelos críticos ao invés de seu peito aberto para o surgimento de algo perfeito, assustador, impressionante.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

4 comentários em “Prometheus (2012)

  • 13/01/2015 em 03:21
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    Por favor nao usar termos como geologista, biologista, arqueologista. O correto é geólogo, biólogo e arqueólogo.

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  • 26/06/2013 em 00:37
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    Se você não assistir ao filme esperando ver a obra-prima do século, vai se divertir. O andróide, interpretado por Michael Fassbender, rouba todas as cenas. É uma delícia vê-lo decorando as falas de Lawrence da Arábia, o clássico de David Lean. Será que Scott estava fazendo uma sutil comparação entre os filmes?

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