Críticas

Gritos Mortais (2007)

Apesar de suas limitações, deve agradar aos menos exigentes pela trama incomum e efeitos especiais. Mas é só isso!

Gritos Mortais (2007)

Gritos Mortais
Original:Dead Silence
Ano:2007•País:EUA
Direção:James Wan
Roteiro: Leigh Whannell, James Wan
Produção:Mark Burg, Gregg Hoffman, Oren Koules
Elenco: Ryan Kwanten, Amber Valletta, Donnie Wahlberg

No século VI acreditava-se que os espíritos dos mortos falavam através da região abdominal dos vivos. Do latim VENTER de ”estômago” e LOQUI de ”falar”. Esta é a origem da palavra “Ventriloquismo”.

No pequeno povoado de Ravens Fair todos conhecem a lenda da ventríloqua Mary Shaw, uma senhora que enlouqueceu e matou uma criança inocente. A população, inconformada, vingou de modo bizarro a morte da criança: cortou a língua de Mary e enterrou o seu corpo junto de seus bonecos.

Tempos depois do terrível incidente, os moradores da região começaram a sofrer mortes misteriosas onde suas línguas eram arrancadas, ao mesmo tempo em que os bonecos de Mary Shaw sumiam de suas covas.

Muito tempo depois, o jovem Jamie Ashen tem sua esposa brutalmente assassinada no mesmo dia em que recebe uma entrega anônima contendo um estranho boneco. Principal suspeito do assassinato e inconformado com a tragédia, Jamie regressa à sua terra natal, Ravens Fair, a fim de provar sua inocência e punir os culpados pela morte de sua amada.

Quando, em 2004, James Wan e Leigh Whannell rodaram, com pouco mais de U$ 1 milhão e em pouco menos de um mês, Jogos Mortais (Saw), talvez não imaginassem que estavam realizando o que seria um dos melhores e mais bem sucedidos suspenses de toda uma década. O êxito comercial permitiu aos jovens a produção, com um orçamento bem mais avantajado, de sequências que, mais caprichadas tecnicamente (principalmente a segunda e a terceira parte, dirigidas por Darren Lynn Bousman) foram sucessos absolutos de público, projetando o personagem Jigsaw (interpretado brilhantemente por Tobin Bell) ao posto de primeiro grande vilão do cinema de horror deste milênio. A dupla James e Leigh enchia os bolsos de dinheiro e tornava-se cada vez mais poderosa em Hollywood, ganhando liberdade criativa e financeira para o que seria seu próximo projeto: Gritos Mortais (enquanto a soma dos orçamentos dos três primeiros filmes da franquia Jogos Mortais foi de aproximadamente U$ 17 milhões e meio, os recursos disponíveis à dupla em sua nova investida ultrapassou os U$ 20 milhões).

Por tudo isso, criou-se grande expectativa em torno do lançamento de Dead Silence. O roteiro original foi desenvolvido pelos próprios James Wan e Leigh Whannell, e de acordo com a definição dos próprios autores, aproxima-se mais do horror clássico, e seria ainda inspirado nas produções da lendária Hammer (produtora inglesa responsável pelas primeiras adaptações coloridas de Drácula e Frankenstein). Portanto, a trama desenvolveria muito mais a atmosfera e exploraria menos a violência do que Jogos Mortais. Entretanto, apesar do empenho da dupla em realizar um filme “definitivo” sobre ventriloquismo (novamente palavra dos autores), Gritos Mortais traz algumas deficiências que acabaram condenando uma boa ideia a um relativo fracasso, pelo menos nos cinemas norte-americanos.

O próprio roteiro cria algumas situações pouco verossímeis, como o esposo “vingador”, que parece mais interessado em desvendar o mistério do estranho boneco, do que sofrer pela morte violenta da esposa recém assassinada ou o policial que persegue um suspeito de assassinato sem nenhum empenho real em prendê-lo. Talvez a pouca credibilidade dos personagens seja em grande parte responsabilidade do elenco escolhido. O protagonista é interpretado pelo novato Ryan Kwanten, cujo currículo contava apenas com algumas participações em séries de TV pouco conhecidas no Brasil, além do drama Flicka (Flicka, EUA, 2006). Já o seu perseguidor, o Detetive Jim Lipton, é representado pelo ex-New Kids on the Block Donnie Wahlberg (e de quebra irmão do astro Mark Wahlberg, de O Planeta dos Macacos). Donnie já havia trabalhado com a dupla de produtores no segundo e terceiro capítulos da série Jogos Mortais, também como um detetive (no caso chamado Eric Mattews). A trama macabra e a atmosfera carregada de Dead Silence acabaram exigindo um empenho e talento dos atores que não foi correspondido em momento algum. A limitação dos mesmos em demonstrar emoção acaba tornando o filme apático em quase todos os seus 90 minutos de exibição. O elenco conta ainda com uma pequena participação do ótimo Bob Gunton (o diretor do presídio em Um Sonho de Liberdade).

Mas nem tudo é decepção em Gritos Mortais: a concepção artística do “boneco assassino” (embora os produtores jurassem que o filme não seria sobre “bonecos assassinos”) e os efeitos especiais são bem convincentes (o visual macabro do boneco chega a ser perturbador em determinados momentos).

O desfecho do enredo, se não é tão arrebatador quanto em Jogos Mortais, é inteligente e assustador. Apenas o modo como é revelado que não inova, já que repete o estilo flashback-explica-tudo (como em Jogos Mortais).

Gritos Mortais (2007)

A direção do malaio James Wan, apesar de convencional, é competente. Entretanto, ainda que o diretor afirme que, a princípio, “Gritos Mortais” seria uma tentativa de sair da sombra de Jogos Mortais e que gostaria de evitar comparações, o resultado final remete inevitavelmente aos primeiros trabalhos do diretor. Parecia o mais provável, já que ambos os filmes foram realizados praticamente pela mesma equipe. Foram os mesmos roteiristas, produtores, compositor, diretor e ator (Donnie Wahlberg).

O título nacional numa tradução literal seria algo como Silêncio Mortal, que acabaria sendo pertinente, mas pouco original. No entanto, a escolha da distribuidora foi pelo caminho inverso: Gritos Mortais. O próprio título em inglês permaneceu uma incógnita durante muito tempo até ser definido Dead Silence, entre os “títulos temporários” foram divulgados: Shhhhh, Silence e até mesmo The Doll.

Como curiosidade, existem algumas referências propositais à série Jogos Mortais em Dead Silence. O boneco principal de Mary Shaw (o que está no pôster oficial) é chamado de Billy, o mesmo nome do boneco de Jigsaw, que sempre aparece explicando as regras de suas armadilhas. Embora ele não tenha sido citado diretamente como Billy em nenhuma cena da série Jogos Mortais, ele sempre foi chamado assim pelos roteiristas/diretores/produtores em entrevistas ou bastidores. O próprio boneco aparece numa cena em Dead Silence, aos exatos 1:13:50, no canto direito da tela, encostado em um pilar.

Os créditos finais de Dead Silence dedicam o filme à memória de Gregg Hoffman, um dos produtores dos três filmes da franquia Jogos Mortais, falecido em 4 de dezembro de 2005.

É bom lembrar que filmes de bonecos “endemoniados” não são exatamente uma novidade, basta lembrarmos as cine-séries Brinquedo Assassino (Child’s Play, EUA, 1988), Bonecos da Morte (Puppet Master, EUA, 1989) ou Brinquedos Diabólicos (Demoniac Toys, EUA, 1992), mas bonecos e ventríloquos são até raros. O filme mais conhecido com temática parecida é Magia Negra (Magic, EUA, 1978). Neste filme, o ventríloquo vivido por Anthony Hopkins sente que progressivamente é dominado por seu boneco. Uma grande curiosidade sobre este longa é que ele foi baseado no episódio final do suspense Na Solidão da Noite (Dead of Night, Inglaterra, 1945), dirigido pelo brasileiro Alberto Cavalcanti.

Enfim, Dead Silence, apesar de suas limitações, pode agradar aos menos exigentes pela trama pouco comum e os bons efeitos dos bonecos. Mas é só isso, e está muito aquém da capacidade dos criadores de Jogos Mortais.

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João Pires Neto

João Pires Neto

Formado em Letras e Literatura, embora trabalhe com Tecnologia; Vegetariano não batizado; apaixonado por Livros, Música e Filmes e colaborador desde 2005. Contato: joaopiresneto@bocadoinferno.com.br

11 Comentários

  1. Lizandra Arruda

    *SPOILER*

    Poderiam me explicar, quem seria real “boneco perfeito” o pai do James ou a madrasta? 🤔

    • Carolina

      Eu não entendi bem o que a madrasta era, mas meu pai disse que talvez ela fosse uma espécie de reencarnação da Mary Shaw

    • Elton

      É resumida mesmo em “Reencarnação”. Porque Mary Shaw possuiu a Madrasta de James. Contudo, para criar o boneco perfeito. Mas, a madrasta fez isso com o pai de James, por isso a maldição não tinha acabado quando todos os bonecos foram queimados, Mary tinha a madrasta.

  2. Guilherme Ferreira

    Acabei de assisti-lo. É um bom passatempo, mas os personagens são fracos e o final, apesar de surpreendente, passa muito rápido e não dá muitas explicações. Se fosse de um diretor qualquer seria um filme considerado bom, mas vindo de James Wan, de fato, é de decepcionar. O pior filme que ele dirigiu até então. Mesmo assim, recomendo.

  3. Vitoria

    Realmente este filme e muito bom eu adoraria se tivesse o 2?

  4. filme exelente, cheio de suspense e terror, eu adorei, esse vai pra minha coleçao…

  5. Paulinha

    Mto bom, com certeza melhor que outros filmes babacas de bonecos que existem e tem mtos fãs!!!

  6. Emerson Silva Salgueiro

    Ótimo filme. Recomendo.

  7. Queria pedir o pessoa do boca pra dar uma revisada no oitavo, nono, décimo parágrafo. Ficou meio confuso e não consegui entender.

    • Obrigado Felipe, havia um parágrafo duplicado, que já foi excluído.

  8. vanessa vasconcelos

    O PIOR FILME DE JAMES WAN HAHAHA,MAS MESMO ASSIM VALE A PENA ASSISTI-LO.

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