Lua Negra (1996)

Lua Negra (1996) (2)

Lua Negra
Original:Bad Moon
Ano:1996•País:EUA
Direção:Eric Red
Roteiro:Eric Red, Wayne Smith
Produção:James G. Robinson
Elenco:Mariel Hemingway, Michael Paré, Mason Gamble, Ken Pogue, Hrothgar Mathews, Johanna Marlowe, Gavin Buhr, Julia Montgomery Brown, Primo

Se a década de 80, principalmente nos anos iniciais, é considerada um divisor de águas (ou, no caso, poderia ser divisor de pelos?) para a licantropia devido à realização dos melhores filmes do subgênero (Um Lobisomem Americano em Londres, Grito de Horror, Bala de Prata…), há, pelo menos, dois exemplares que salvam os depressivos anos 90 de um total esquecimento. Numa safra com mais de 40 produções sobre lobisomens, é possível considerar acima da média Lobo (Wolf, 1994) e Lua Negra (Bad Moon, 1996). O primeiro por trazer um elenco estelar (Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader) e uma luta de criaturas que não se observava com a mesma qualidade desde 1935; e o segundo, pela história simples, com bons efeitos e mortes violentas, numa trama que esbarra levemente em Olhos de Gato, de Stephen King.

Sabe-se lá por que (só existem teorias) o filme não teve boas avaliações pelos críticos, desde a época de seu lançamento. O medidor de análises da internet, Rotten Tomatoes, por exemplo, aponta uma porcentagem muita baixa de aceitações, mesmo depois de tantos anos, quando o longa passou a ser cultuado por uma legião de fãs. No período de estreia, a partir do dia 1 de novembro de 1996, Lua Negra teve uma miserável arrecadação nos cinemas: para um orçamento estimado em U$7 milhões, o filme só conseguiu pouco mais de U$1 milhão nas 825 salas em que ficou em cartaz, durante quinze dias. Consequentemente, não houve estreias nas telas grandes pelo mundo, incluindo Brasil, que se rendeu a um lançamento discreto nas locadoras em VHS pela Warner.

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Ora, se King Kong, de 1933, foi considerado apelativo na sua passagem pelos cinemas, como podemos levar em consideração essas críticas rasas, daqueles que não estão acostumados com esse subgênero? Basta pensar no que foi dito no primeiro parágrafo: há cenas gráficas de morte, principalmente nos minutos iniciais, para depois o filme desandar para o drama familiar, deixando o horror apenas à espreita, como um animal observando sua presa. Talvez essa diferença de ritmo, não se definindo como terror ou drama, tenha contribuído para uma rejeição dos espectadores na época, algo que seria corrigido com o passar dos anos. De toda forma, é uma produção must-see, que comprova que o estilo pode ser trabalhado de maneira satisfatória num enredo simples, sem grandes exageros na mitologia de concepção da criatura.

Baseado no romance Thor, de Wayne Smith, Lua Negra teve roteiro e direção de Eric Red, autor do argumento de outras produções legais como A Morte pede Carona (1986), Quando Chega a Escuridão (1987), Jogo Perverso (1989) e Anatomia de um Assassino (1991). Seu último trabalho, também na direção, foi em 2008, com Refém do Espírito, um dos poucos filmes que se salvam da The Asylum. Ele se especializou em comandar bons atores em tramas sobrenaturais, com toques familiares, sem se esquivar da violência e da sanguinolência. Ele adapta Thor no mesmo estilo, com uma condução correta até mesmo quando utiliza a câmera na visão do cachorro-protagonista (!!!).

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Aliás, Thor é realmente quem assume as principais ações, evidenciando sua confusão particular sobre defender ou não a família dos ataques do lobisomem, se o monstro está com a carcaça de alguém que ele conhece. O animal entra para a galeria dos cães heróis do gênero fantástico como Nanook, de Os Garotos Perdidos (1987), e a dupla Beast e Beauty, de Quadrilha de Sádicos (1977). Contudo, sua “atuação” está mais relacionada com o episódio final de Olhos de Gato, podendo ser comparado ao gato General, que também é acusado pelas ações de um inimigo e afastado, apenas para retornar no clímax e salvar o dia.

Lua Negra tem início numa expedição no Nepal, onde o jornalista e fotógrafo Ted (Michael Paré) e sua namorada Marjorie (Johanna Marlowe) são atacados por um lobisomem. Acompanhados por índios e alguns locais, a dupla estava num momento de sexo tórrido, quando a criatura surgiu como uma sombra na barraca, consolidando um massacre violento, com a garota sendo rasgada em cortes profundos, entre gritos de dor e desespero. Ted é ferido gravemente, mas consegue explodir a cabeça do animal antes de perder a consciência para despertar para uma nova condição. Esse início intenso sofreu alguns cortes pela censura, pois trazia mais detalhes do ataque e até mesmo do momento íntimo do casal.

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As ações saltam para uma região distante, numa residência familiar isolada por árvores. É lá que habitam Janet (Mariel Hemingway, de A Invasão Zumbi, 2012), seu filho Brett (Mason Gamble, que é sempre lembrado como o menino travesso Dennis, o Pimentinha, de 1993) e o pastor-alemão Thor (Primo, que esteve em outros seis filmes). Após receber a visita de um vendedor oportunista, Janet fica sabendo da aproximação de seu irmão Ted, agora vivendo isoladamente num trailer. Sua chegada à região coincide (ou não) com os ataques de um animal selvagem, deixando aos pedaços os incautos que cruzarem seu caminho, do trabalhador noturno ao vendedor inoportuno.

Janet convence o irmão a se mudar para o quintal da morada, com seu trailer, já causando o estranhamento de Thor, que até marca território nos pneus do veículo. Também incomoda Janet as corridas noturnas de Ted, e a algema que ele possui entre seus acessórios particulares. Enquanto xereta o trailer, Brett encontra um livro sobre a maldição dos lobisomens, e, mais tarde, Janet também lê registros num diário de Ted, em que ele diz ter tentado todos os recursos médicos e agora estaria apostando no amor familiar como cura da doença. Embora atue como bom moço durante boa parte do filme, Ted demonstra no terceiro ato que seu lado animal está cada vez mais resistente, tanto que ele encontra meios de se livrar de Thor e desiste de se algemar para controlar seus impulsos.

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Com bons efeitos de maquiagem, no talento de Christopher Allen Nelson (que também trabalhou no lobisomem de Amaldiçoados, 2005), e boas atuações, Lua Negra tem ainda como mérito a tensão causada pela sensação de insegurança imposta pela situação, fazendo com que o público se preocupe realmente com as personagens, incluindo o ingênuo Brett. Também vale menção o modo como a mitologia da fera é explicada, na cena em que o menino assiste ao clássico O Lobisomem de Londres, de 1935. Rindo da artificialidade da sequência de transformação de Henry Hull, Ted diz que não entende essa teoria de lobisomens só se transformarem em dias de lua cheia e a necessidade de uma bala de prata ser o único recurso de eliminação das criaturas, lembrando do momento em que explodiu a cabeça da fera que o amaldiçoou.

Simples em sua concepção, sem deixar de ser aterrorizante, Lua Negra é o respiro de um período lânguido para o cinema fantástico e para os lobisomens. Merecia um reconhecimento maior na época do seu lançamento, mas nunca é tarde para rever e redescobrir um dos grandes exemplares desse subgênero.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

12 comentários em “Lua Negra (1996)

  • 17/09/2016 em 23:39
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    Um dos melhores filmes de lobisomens, com um enredo simples, ótimos efeitos e atuações, é uma pena que ele não teve o mérito merecido e também por ter sido um dos últimos filmes de lobisomem que realmente prestaram.

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  • 21/07/2016 em 11:24
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    lobosomen negra lua eu quero vei casa meu pai agora

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  • 22/08/2015 em 00:35
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    A personagem da Mariel Hemmingway é muito tapada, demora a desconfiar de tudo e perde protagonismo do longa para um cachorro. Ela conviveu com o irmão (Paré) sei lá quantos anos e não sabe dizer que há algo de errado com ele no primeiro encontro – aliás a atuação dele aqui é tão mal dirigida (especialmente se comparada ao restante do filme), dando-lhe uma naturalidade impossível a um personagem tão angustiado com sua doença. A mudança de personalidade dele raramente é passada por meio das nuâncias do personagem (carne crua, coça-se demais, faro cada vez mais apurado, etc), mas através de seu embate com Thor, principalmente depois deste. No fundo, é um filme elogioso à indústria pet, segundo a qual um cachorro é mais confiável que seu irmão – e que você é estúpido o suficiente para não perceber algo muito errado com ele (seu irmão). E o final repleto de exageros como tiros a rodo, com Thor se candidatando aos Vingadores por aguentar tanta porrada (Ted podia ter mordido o garoto, seria uma ótima ponta pr’uma sequência).

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  • 11/07/2015 em 19:04
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    Eu gosto deste filme, é um bom filme de Lobisomem, a capa do filme também é muito legal.

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  • 10/07/2015 em 12:14
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    Fico muito feliz por finalmente escreverem uma análise justa pra esse filme, ao lado de Um Lobisomem Americano em Londres, Lua Negra é um dos meus favoritos do gênero. Ele funciona quase que como um Born Again do Black Sabbath para a sua posição na história dos filmes Licantropos, digo isso pela injustiça inicial sofrida pelo subestimado Lua Negra e pelo status de cult que possui atualmente. Me lembro que antigamente aqui no Boca do Inferno, tinha uma análise horrorosa para esse filme, hoje o mesmo já é bem mais respeitado. Tenho ele em VHS e DVD e também adoro essa arte do poster. Saudades de quando passava nas noites dos SBT. Parabéns boca do inferno !

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    • 13/07/2015 em 09:52
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      Concordo com você meu caro, desde a primeira vez que vi este filme já gostei logo de cara. Tem tudo que um filme de lobisomem precisa ter. Acho que ele foi muito injustiçado na época de seu lançamento, pois nos dias de hoje há filmes bem piores desse subgênero que muita gente conhece.

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  • 09/07/2015 em 01:40
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    Pra mim está entre os melhores filmes de lobisomens , me lembro de ter visto ele no sbt também e depois não o vi mais infelizmente , é uma pérola que falta em minha coleção e merece seu destaque porque é muito melhor do que muita porcaria que saiu depois do seu lançamento .
    Merece com certeza esta nota e ser visto e revisto muitas e muitas vezes !

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    • 09/07/2015 em 15:17
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      Concordo com você meu caro. A primeira vez que vi esse filme, acho que tinha uns 8 anos, e assisti junto de minha mãe no SBT. Bons tempos onde se passava clássicos como esse na TV aberta.
      Eu baixei esse filme, faço questão de tê-lo em minha coleção. Ótimo filme sem sombra de dúvidas.

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  • 08/07/2015 em 17:09
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    Muito bom esse filme, bem acima da média para filmes de lobisomens. O que não entendo é como um filme desses pode ter lucrado tão pouco. Achei a maquiagem do lobisomem espetacular, muito boa mesmo, aterrorizante como um lobisomem deve ser.
    A nota em minha opinião é merecida, pois quem assistiu à esse clássico sabe que o filme é bom e como não sentir dó do Thor? Suor masculino escorreu no canto de meus olhos com a intensa batalha do cão com a fera.

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  • 06/07/2015 em 21:25
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    Nossa lembro de assistir no sbt esse filme,gostava bastante mas nao lembrava do nome pra procurar e assistir novamente,valeu boca

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  • 02/07/2015 em 19:35
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    Um dos últimos bons filmes do gênero , com certeza acima da média .

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  • 01/07/2015 em 19:52
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    Nota um pouco alta para o filme, mas ainda sim é uma produção boa. Acima da média dos filmes de lobisomens que, em sua grande maioria, são fraquissimos.

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