Críticas

O Perigo Bate à Porta (2016)

É quase uma versão sem violência dos acontecimentos, deixando o choque apenas no resultado e não no processo

O Perigo Bate à Porta
Original:Wolves at the Door
Ano:2016•País:EUA
Direção:John R. Leonetti
Roteiro:Gary Dauberman
Produção:Peter Safran
Elenco:Katie Cassidy, Elizabeth Henstridge, Adam Campbell, Miles Fisher, Chris Mulkey, Jane Kaczmarek, Spencer Daniels

Se o primeiro Annabelle não correspondeu às expectativas, com base na boa participação em Invocação do Mal, pelo menos havia algo digno de nota no longa de John R. Leonetti: o contexto. Além das referências ao clássico O Bebê de Rosemary, a ambientação inicial do filme em 1967, com a apresentação de uma reportagem na TV sobre o número crescente de seguidores a Charles Manson, é bem adequada à proposta. Aliás, o próprio renascimento da boneca faz uma alusão direta aos crimes de invasão domiciliar do período, e a um em especial, ocorrido dois anos depois. No verão de 1969, mais precisamente na madrugada do dia 9 de agosto, um casarão, localizado na Cielo Drive, número 10050, foi banhado de sangue e morte, de maneira grotesca e fria, com o chocante assassinato da atriz e modelo Sharon Tate e seus acompanhantes. Esposa do diretor Roman Polanski, ela estava grávida de oito meses e meio, expressando sua dor na clemência pela vida do bebê, conforme relato daqueles que a sufocaram até a morte.

Tate estava acompanhada do popular hairstylist Jay Sebring, com quem ela teve um relacionamento anterior; além do aspirante a escritor Wojciech Frykowski e sua namorada Abigail Folger. Os autores desse horrendo episódio, a mando de Charles Manson – que planejava se vingar do produtor musical, Terry Melcher, que era antigo ocupante da morada -, foram quatro jovens, sem perspectiva de suas ações: Tex Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel. Essa tragédia histórica encerraria de maneira deprimente os anos 60, e serviria para inspirações cinematográficas, muitas mudanças de comportamento na formulação do american way of life, e a completa destituição da família. O melhor representante do pesadelo configurado das ações do líder messiânico é, sem dúvida, Helter Skelter, de 1976, de Tom Gries, principalmente por ter sido desenvolvido à porta das consequências do ato cruel.

Com a boa afirmação ao conteúdo de Annabelle, Leonetti aceitou a missão de comandar uma variável do crime de 69. O Perigo Bate à Porta tenta explorar o suspense do episódio com a marca de um thriller convencional, sem chocar o espectador, apenas com a intenção de livremente imaginar como poderia ter se desenvolvido o pesadelo. Começou até muito bem, contando uma situação registrada uma noite antes, quando a trupe invadiu uma casa, mas não conseguiu concluir seu ímpeto violento em decorrência do esquecimento da linha telefônica: o casal John (Chris Mulkey) e Mary (Jane Kaczmarek) conseguiram notificar a polícia a tempo, ficando apenas com as marcas em sangue na parede com os dizeres “porquinhos” (little pigs). Na noite seguinte, após deixar o restaurante mexicano El Coyote, eles foram para a morada em Cielo Drive curtir músicas e bebidas.

Se por um lado o roteiro de Gary Dauberman se preocupa com alguns detalhes como o modo dos invasores terem usado o muro lateral, temendo que os portões pudessem eletrocutá-los ou tivessem alarme, por outro, ignora o desenrolar dos acontecimentos e o modo como as vítimas encontraram seu fim. Por exemplo, no filme, a abordagem ao estudante Steven Parent (Lucas Adams) é parecida, mas ele não foi morto com marretadas na cabeça como mostrado; e, sim, com quatro tiros no peito – parece que a intenção dos envolvidos foi imaginar como os ocupantes não escutaram os disparos, embora os fogos de artifício dessa noite já poderiam servir para isso. E essa disparidade entre os fatos vai acompanhar o longa até seu final, dando-lhe um aspecto similar a Os Estranhos, de 2008.

Como o público já conhece o desfecho, Wolves at the Door desenvolve um suspense vazio, criando possibilidades de escapatória sem feridas e rastros de sangue. Mesmo quando Abigail encontrou um caminho para a porta da frente (Elizabeth Henstridge) e contou com a ajuda de Wojciech (Adam Campbell), ambos já tinham sido esfaqueados algumas vezes – foram contadas 51 vezes só no rapaz. Fica claro que Leonetti desenvolveu uma produção com perspectiva de uma censura mais branda, ignorando as súplicas dos jovens e o choro de Tate (Katie Cassidy) no chamado à mãe, entre as dezesseis apunhaladas que recebera. É quase uma versão sem violência dos acontecimentos, deixando o choque apenas no resultado e não no processo.

O Perigo Bate à Porta vai lhe servir apenas como uma amostra branda dos fatos, uma exploração de um terror sugestivo e diferente.

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1 Comentário

  1. Paulinha

    Eu adorei, principalmente ver a kate Cassidy morrer.

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