Críticas

Além da Morte (2017)

Uma versão com aparência made-for-tv do trabalho original, que já não era tão brilhante assim para ser trazido de volta!

Além da Morte
Original:Flatliners
Ano:2017•País:EUA
Direção:Niels Arden Oplev
Roteiro:Ben Ripley
Produção:Peter Safran, Laurence Mark, Michael Douglas
Elenco:Ellen Page, Diego Luna, Nina Dobrev, James Norton, Kiersey Clemons, Kiefer Sutherland, Madison Brydges, Jacob Soley, Anna Arden, Miguel Anthony

É tênue a linha que separa uma refilmagem de sua condição oportunista e supérflua. Na maioria das vezes, o original já é auto-suficiente, impecável dentro de sua proposta, e qualquer nova versão ou continuação vem com o objetivo claro de atrair saudosistas e curiosos. Na década considerada a mais fraca do gênero, exaurida pela quantidade absurda de sequências ruins, o longa Linha Mortal, de Joel Schumacher, surpreendeu o público com uma ideia interessante e, principalmente, pelo elenco de rostos caros. Quando você poderia imaginar que veria em um mesmo filme o protagonismo de Kiefer Sutherland, Julia Roberts, Kevin Bacon, William Baldwin e Oliver Platt? O resultado é um deleite visual, em um enredo, escrito por Peter Filardi (Jovens Bruxas, 1996), capaz de despertar alguns arrepios genuínos, ainda que peque pela falta de ousadia.

No original, esse time de astros é um grupo de estudantes de medicina que faz experiências para descobrir respostas sobre o pós-morte. Para tal, eles provocam paradas cardíacas e depois de alguns minutos são trazidos de volta com as descobertas, para depois passarem a ser atormentados por visões assustadoras e concretas como consequência dos pecados cometidos no passado. Dentre todos, o que mais sofre é o personagem de Sutherland, que começa a ser perseguido e surrado por um jovem que foi vítima de uma brincadeira que culminou com a queda fatal de uma árvore.

Há quem considere o original apenas mediano, sem ir além do que se propõe. Parece que a segurança da carreira sólida do elenco impediu que o filme fosse mais pessimista, com um final mais adequado pela experiência insana desennvolvida por esse grupo de cientistas loucos. Ao final, a sensação moralista se sobrepõe ao medo, dando ao longa uma vestimenta de drama com toques macabros. Mesmo com suas falhas – grande parte por ignorar as sequelas da experiência -, Linha Mortal não pedia uma refilmagem, mas, talvez, uma continuação que abordasse uma visão diferente sobre vida após a morte.

Passados 27 anos do original, Ben Ripley, que tem no currículo A Experiência III (2004), A Experiência 4: O Despertar (2007), Passado de Horror (2008) e Contra o Tempo (2011) – dentro dos gêneros horror e ficção científica – ficou a cargo do roteiro. As filmagens aconteceram entre julho e setembro de 2016, com dois nomes atraentes no elenco: Kiefer Sutherland (em um novo papel) e Ellen Page. Com um orçamento estimado em U$20 milhões, arrecadou pouco mais de 24 além de inúmeras críticas negativas. Sim, a linha foi definitivamente rompida.

Com o peso de uma tragédia do passado, consequente de um acidente de carro que vitimou sua irmã Tessa (Madison Brydges), Courtney (Page) é uma estudante de medicina que busca respostas sobre o Outro Lado. Ela, então, pede ajuda aos colegas Jamie (James Norton) e Sophia (Kiersey Clemons) para um experimento de parada cardíaca e reanimação, trazendo sem querer outros dois futuros médicos, Ray (Diego Luna, de Rogue One e Amores Canibais) e Marlo (Nina Dobrev, de Terror nos Bastidores). Nesse ponto, o infernauta já percebe que Courtney é uma mistura dos personagens de Sutherland e Julia Roberts, do original; enquanto Jamie é o galanteador que foi interpretado por William Baldwin, em 1990.

A experiência conduz Courtney a um encontro com a ponte onde sofrera o acidente, luzes brilhantes, voos pela cidade e momentos sombrios. Mas, a volta desperta sua inteligência emocional e a torna mais apta a buscar informações na memória, como tocar piano e responder corretamente aos desafios proposto pelo professor e doutor Barry Wolfson (Sutherland, em uma péssima aparência física). Assim, Jamie também se rende ao experimento, tendo um passeio de moto pela cidade, com uma antiga companheira até encontrar os lugares macabros da cidade. Sophia, a mais relutante, também participa da experiência, assim como Marlo.

O enredo traz de diferente esse “retorno melhor“: Jamie passa a ter uma sensibilidade mais adequada; Sophie volta com a coragem necessária para enfrentar sua mãe. No entanto, eles também começam a ser assombrados pelos erros cometidos no passado, como a culpa pela morte de Tessa e do paciente Cyrus (Miguel Anthony); pela humilhação da estudante Irina (Jenny Raven); o abandono à gravidez de Alicia (Anna Arden)…Se no original, essas visões realmente incomodavam, neste soam como um filme de fantasmas como qualquer outro. E as melhores oportunidades são desperdiçadas, como as sequências que acontecem no necrotério e a do elevador, que podiam render calafrios divertidos.

A câmera de Niels Arden Oplev (Os Homens que Não Amavam as Mulheres) desacelera por diversos momentos, priorizando as festas dos estudantes a cada experimento realizado com sucesso. Aliás, são tantas que acabam desfigurando o ritmo e lembrando o espectador a toda hora que eles são apenas adolescentes crescidos. Há os namoros desnecessários, transas despertadas pela experiência, enquanto o terror é pincelado em episódios que não se estendem o suficiente para perturbar o público. Para tentar mudar a fórmula original, um dos personagens é vitimado pelas assombrações somente para na cena-chave retornar como fantasminha camarada.

Contudo, o que mais me frustrou foi sua condição absoluta de refilmagem, conectando ao original com diálogos idênticos (“Hoje é um bom dia para morrer.“). Imaginava que os experimentos chegariam ao conhecimento do personagem de Sutherland e ele traria lembranças do primeiro filme e a possível solução para os problemas. Sua participação é nada mais do que uma ponta ilustre, em uma versão com aparência made-for-tv do trabalho original, que já não era tão brilhante assim para ser trazido de volta.

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1 Comentário

  1. Stiles

    A primeira vez que assisti o trailer desse filme, achei interessante ai descobri que era um remake e fui atrás do original, uma produção que me agradou muito. No momento em que terminei de ver o original, me deparei com o trailer desse remake novamente e só de olhar a thumb do vídeo tive a sensação de que não seria um bom filme.

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