Precisamos falar sobre Mística

Mística (2)

O último filme da franquia X-Men, Apocalipse (X-Men: Apocalypse, 2016), fez bem menos barulho entre os fãs da saga mutante embora todas as peças necessárias aparentemente estavam no lugar. A direção competente de Bryan Singer, o roteiro com vários plots que convergem para épicas cenas de batalhas e um elenco composto por nomes queridos da crítica e do público. O filme faturou milhões nas bilheterias e recebeu críticas positivas. No entanto, uma parcela dos fãs teve um problema com o filme que movimentou os fóruns e grupos de discussões na internet.

E toda a insatisfação destes fãs mais hardcore parece ter convergido para a personagem Mística. Um dos grandes trunfos da trilogia original como uma vilã cold heart bitch, Mística mudou drasticamente de perfil quando passou a ser interpretada por Jennifer Lawrence.

X-Men 3 (2006) (8)

Ao recapitular a franquia X-Men, Mística foi interpretada nos três primeiros filmes (2000, 2003 e 2006) pela atriz Rebecca Romijn. Vinda das passarelas e com alguns poucos trabalhos para televisão no currículo, Rebecca era perfeita para o papel justamente por ser um rosto desconhecido escondido por uma pesada maquiagem azul. Uma verdadeira vilã que não tinha piedade nem dos humanos e muito menos dos seus inimigos mutantes. Para quem não lembra, ela praticamente foi quase responsável pela morte do Professor Xavier em X-Men 2. O plano apenas não deu certo porque os mutantes do bem, Tempestade e Noturno, conseguiram salvar o Professor.

A caracterização de Mística no cinema surge como uma adaptação muito semelhante de como ela era mostrada nos quadrinhos. Além de ser esta personagem dentro de uma linha de vilania, Mística sempre teve orgulho de sua condição de mutante. Tanto que ela está em sua forma natural azul em praticamente todas as cenas em que aparece nos três primeiros X-Men.

Mas todo esse histórico mudou quando X-Men: Primeira Classe foi lançado em 2011. Rebecca foi substituída pela estrela em ascensão Jennifer Lawrence e, de vilã, Mística se tornou uma importante aliada dos X-Men. A justificativa para esta mudança de comportamento foi que, com a volta no tempo, mais explorada ainda em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014), a personalidade de Mística pôde ser transformada.

Construções narrativas de lado, o problema desta mudança de perfil de Mística parece esbarrar em uma questão muito mais emblemática além da própria Jennifer Lawrence. Com imagem de boa moça, Lawrence passou a colecionar papeis de mulheres do bem, esforçadas e batalhadoras. Destaque para sua participação na franquia Jogos Vorazes. Em momento algum as habilidades artísticas de moça estão sendo questionadas. Pelo contrário, visto que Lawrence tem colecionado críticas positivas com seus filmes desde que se tornou um rosto conhecido.

No entanto, este excesso de tratamento da mídia parece ter criado um bloqueio na forma como Mística passou a ser desenvolvida para os novos filmes. Aqui, Lawrence parece a atriz certa no papel errado. A culpa, claro, não é dela, mas sim do roteiro que insiste em colocar Mística cada vez mais como mocinha da trama.

O problema acaba sendo maior do que este caso, uma vez que o star system de Hollywood parece negar atores famosos em papeis de vilões e exemplos não faltam. Basta pensar no recente Malévola (2014), no qual uma personagem que é sinônimo de maldade se tornou mais humana e até do bem ao ser interpretada por Angelina Jolie.

Mística (1)

Em 1984, Arnold Schwarzenegger interpretou a máquina de matar T-800 em O Exterminador do Futuro. Com a popularização do filme, e do ator que fez vários sucessos de bilheterias nos anos seguintes, o exterminador voltou na sequência como um personagem não apenas do bem, mas praticamente um pai adotivo para John Connor.

Aqui é possível perceber como parece existir uma tentativa de afastar alguns atores de determinados papéis e esta realidade reverbera ainda mais em produções mainstream. Fica então a dúvida sobre o que teria acontecido com Mística se outra atriz, menos conhecida ou desconhecida, tivesse assumido o papel no lugar de Lawrence. Infelizmente a franquia X-Men é uma das mais poderosas da atualidade, o que dificulta ainda mais esta negociação.

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Filipe Falcão

Filipe Falcão

Jornalista formado e Doutor em Comunicação. Fã de filmes de terror, pesquisa academicamente o gênero desde 2006. Autor dos livros Fronteiras do Medo e A Aceleração do Medo e co-autor do livro Medo de Palhaço.

7 comentários em “Precisamos falar sobre Mística

  • 12/08/2016 em 13:11
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    Como o Pablo Villaça também levanta, falando sobre a Jennifer no filme: “cujo estrelato certamente influenciou no fato de mal aparecer em cena em sua forma azul, já que os produtores querem ver na tela o rosto pelo qual pagaram tanto”.

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  • 30/06/2016 em 12:24
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    E quanto mais famosa, se torna mais chata e exigente. Ela mesma pediu pra ficar menos de azul no último filme. Já cheia de frescura.

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    • 18/07/2016 em 08:32
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      Imagine se você é rica, vencedora de Oscar e queridinha de Hollywood… Pra que você vai querer se maquiar constantemente?

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      • 21/07/2016 em 12:59
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        Pra interpretar um papel, que é o trabalho de um ator? Infelizmente, sucesso sobe tanto à cabeça de algumas pessoas que elas esquecem até o que fazem…

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  • 29/06/2016 em 13:48
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    Fizeram dela uma Katniss do mundo mutante (embora ela fique falando “mutante and proud”, mas sempre na forma humana, o que deixa o discurso da propria personagem completamente forçado)

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  • 28/06/2016 em 20:27
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    Até gostei dela no X-Men: Dias de um Futuro Esquecido mas agora nesse X Men: Apocalipse ela ficou em forma humana quase o filme todo não lutou com ninguém e quando ficou azul foi uma maquiagem muito mal feita, parece que só jogaram tinta azul nela e pronto. Não gostei dessa Mistica boazinha #VoltaRebeccaRomijn

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