Críticas

Abbott e Costello Encontram Frankenstein (1948)

Embora o humor não funcione o tempo todo como deveria, as criaturas envolvidas nas trapalhadas dos humoristas mantém sua mitologia conhecida

Abbott e Costello (1948) (5)

Abbott e Costello Encontram Frankenstein
Original:Bud Abbott Lou Costello Meet Frankenstein
Ano:1948•País:EUA
Direção:Charles Barton
Roteiro:Robert Lees, Frederic I. Rinaldo, John Grant
Produção:Robert Arthur
Elenco:Bud Abbott, Lou Costello, Lon Chaney Jr., Bela Lugosi, Glenn Strange, Lenore Aubert, Jane Randolph, Frank Ferguson, Charles Bradstreet

A rima entre horror e humor despertar sentimentos opostos. Enquanto para alguns a únião de gêneros tão afastados pode ser altamente prejudicial, principalmente quando se tem como base os filmes da série Todo Mundo em Pânico, por outro lado, é possível encontrar exemplares que honram as duas partes, numa digestão agradável e divertida – vide O Jovem Frankenstein (1974), de Mel Brooks, e Deu a Louca nos Monstros (1987), de Fred Dekker. É com essa perspectiva de juntar gêneros que a Universal Pictures teve a curiosa ideia de unir seus monstros com uma dupla de comediantes em ascensão surpreendente, Abbott & Costello.

Depois de explorar bastante os seus monstros em filmes individuais, a Universal começou a perceber que os lucros já não eram tão grandes. Numa tentativa de se reinventar, a produtora resolveu apostar nos crossovers, os famosos encontros de suas personagens, como em Frankenstein Encontra o Lobisomem (1943), A Casa de Frankenstein (1944) e A Casa do Drácula (1945). Apesar da boa aceitação, logo os enredos começaram a repetir conceitos e prejudicar personagens, pois parecia complicado dar a mesma atenção a todas as criaturas – como aconteceu na ponta de Drácula (A Casa de Frankenstein) e na aparição reduzida do Monstro de Frankenstein (A Casa de Drácula). No entanto, se o horror começava a capengar, por conta até mesmo do clima assustador da Segunda Guerra Mundial, a válvula de escape estava no humor, possivelmente naquela dupla de humoristas simpáticos e envolventes!

Abbott e Costello (1948) (1)

Abbott e Costello já eram conhecidos no trabalho individual, até se unirem no palco da Eltinge Burlesque Theater, da Rua 42, em 1935. Três anos depois já estavam no rádio, no programa The Kate Smith Hour, momento em que Costello começou a afinar a voz para diferenciá-la do tom de Abbott, e surgiu o famoso show “Who’s on First?“. Com contrato simples com a Universal, a dupla apareceu inicialmente no filme One Night in the Tropics, de 1940. Embora sejam apenas coadjuvantes da produção, eles roubaram a cena, o que motivou a produtora a um acordo maior e mais espaço. O segundo trabalho, Buck Privates, de 1941, fez tanto sucesso que evitou que a Universal fosse à falência, conforme já era previsto pela crise do período. Teatro, rádio, cinema, musicais…tudo que envolvia os humoristas trazia bons resultados. Assim, em 1948, alguém imaginou o que poderia acontecer se eles contracenassem com monstros.

Chick Young: Pessoas pagam para McDougal para virem aqui e serem assustadas.
Wilbur Grey: Eu não precisaria disso. Eu me assusto de graça.

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Abbott & Costello Encontram Frankenstein foi só o primeiro trabalho. Depois vieram Frente a Frente com Assassinos (Abbott and Costello Meet the Killer, Boris Karloff, 1949), Budd Abbott & Lou Costello e o Homem Invisível (Abbott and Costello Meet the Invisible Man, 1951), Abbott e Costello Enfrentando o Médico e o Monstro (Abbott and Costello Meet Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1953) e até Caçando Múmias no Egito (Abbott and Costello Meet the Mummy, 1955). Aos poucos a fama foi diminuindo, chegaram a se separar temporariamente por pendengas, mas mantiveram o ritmo de produções e séries de TV. Logo, perderiam espaço para outros humoristas como Dean Martin e Jerry Lewis, na década de 50.

E como foi o encontro com monstros consagrados na pele de lendas do cinema? Tinha tudo para dar errado, se o roteiro partisse para o humor pastelão, envergonhando a trajetória fantástica das criaturas. Felizmente, há uma boa dose desse humor, mas o respeito pelos monstros foi fundamental para uma avaliação positiva. Se eu visse o lobisomem de Lon Chaney Jr. agir como um idiota ou o Drácula de Bela Lugosi expor caretas em vez de um objetivo macabro, com certeza, mesmo com o elenco de peso, o longa entraria para a galeria de produções ridículas já realizadas, impedindo qualquer possibilidade de uma revisão. Talvez tenha sido essa impressão negativa que afastou Boris Karloff de voltar a vestir a fantasia de Monstro de Frankenstein, embora seu contrato com a produtora o fizesse aparecer em algumas campanhas de divulgação do filme; e depois ele encontraria os humoristas em Frente a Frente com Assassinos e Abbott e Costello Enfrentando o Médico e o Monstro.

Abbott e Costello (1948) (3)

Aliás, a sensação de que poderia dar errado veio até mesmo de Lou Costello, que, na época, chegou a dizer oficialmente após ler o roteiro: “Sem chance que eu faça essa porcaria. Minha filhinha seria capaz de escrever algo melhor do que isso.” Com a declaração, a Universal aumentou o cachê do humorista e contratou o diretor Charles Barton, um amigo pessoal e com boas lábias para convencimento. Para viver o Drácula, a produtora tinha em mente Ian Keith, mas acabou sendo convencida pelo agente de Lugosi sobre ninguém representar melhor o famoso vampiro. Se Lon Chaney Jr. já era uma aposta certa e Lugosi demonstrava interesse em voltar a vestir a capa, só era preciso encontrar o Monstro de Frankenstein disponível convocando o ator que o interpretou nos últimos filmes, Glenn Strange, que já havia se transformado na criatura em A Casa de Frankenstein e A Casa do Drácula! Com a equipe escalada, chegou o momento de observar o enredo que misturaria todos esses elementos fantásticos e o humor!

Wilbur Grey: Eu tenho um encontro. Na verdade, tenho dois encontros.
Larry Talbot: Mas você e eu temos um encontro com o destino…
Wilbur Grey: Deixe o Chick ficar com o destino.

O longa tem início com um telefonema do sempre amargurado Lawrence Talbot (Lon Chaney, Jr.) de Londres para uma estação na Flórida, local onde trabalham Chick Young (Bud Abbott) e o atrapalhado Wilbur Grey (Lou Costello) no recebimento de malas e pacotes. Larry conversa com o atendente bobalhão e tenta convencê-lo a não receber ou abrir duas caixas que serão endereçadas ao “McDougal House Of Horrors“, um museu de cera. Durante a conversa confusa, Larry se transforma em Lobisomem – naquela velha e bem realizada transposição de imagens, com a maquiagem comandada desta vez por Bud Westmore – e Wilbur imagina esta falando com o cachorro, não dando créditos ao alerta.

Abbott e Costello encontram Frankenstein (1948)

No local, o próprio McDougal (Frank Ferguson) comanda o recebimento do material e pede que seja entregue em seu museu pelos dois ajudantes. Assustado pelo ambiente repleto de criaturas, o sempre pateta Wilbur tenta avisar o parceiro de que as caixas trouxeram os verdadeiros Conde Drácula (Bela Lugosi) e Monstro de Frankenstein (Glenn Strange), principalmente quando cada leitura do cartaz de descrição das criaturas são acompanhados de sons e movimentos estranhos. Chick faz o papel do amigo consciente e com os pés no chão – como o Dedé em vários encontros com o Didi, dos Trapalhões – e não acredita nas assombrações.

Lentamente, Drácula sai de seu caixote, hipnotiza Wilbur e desperta o Monstro de Frankenstein com seu anel. É claro que McDougal encontrará os caixotes vazios e acusará a dupla de perda do material, levando-os à cadeia; enquanto o Conde irá ao encontro da Doutora Sandra Mornay (Lenore Aubert), uma cirurgiã que estudou as anotações de Frankenstein e é parceira do ingênuo Dr. Stevens (Charles Bradstreet), para que ela o ajude a trocar o cérebro do Monstro por um que seja mais fácil comandar. Já pensando na opção ideal, a garota tem mantido um relacionamento mais próximo com Wilbur, fazendo-o acreditar que ela estaria apaixonada por ele.

Abbott e Costello Encontram Frankenstein (1948) (2)

Tirados da cadeia pela investigadora disfarçaca Joan Raymond (Jane Randolph), que também mantém uma aproximação com Wilbur para facilitar sua busca, a dupla logo irá recepcionar um desesperado Larry. As três criaturas e os heróis se confrontarão no castelo da doutora e num baile de máscara, trazendo confusões e muitos perigos. Como a dupla de atendentes conseguirá sobreviver aos poderosos monstros com seu jeito atrapalhado e inocente?

Essa é a aposta de Abbott & Costello Encontram Frankenstein. O roteiro, escrito por Robert Lees, Frederic I. Rinaldo e John Grant, cria situações de humor a partir das ameaças sobrenaturais. Sabendo que está lidando com monstros, Wilbur consegue se manter vivo pela sorte de suas ações, seja no apartamento de um Larry transformado em Lobisomem, escapando por centímetros de um ataque, ou no encontro na mata, com a criatura presa entre galhos ou confundida com um homem mascarado. Há aquelas brincadeiras envolvendo passagens secretas com Drácula e o Monstro de Frankenstein sempre ficando do lado oposto de Chick, mas do mesmo de Wilbur, que depois seria copiado em várias comédias futuras; e também o hilário momento em que Wilbur se senta no colo do Monstro de Frankenstein e confunde sua mão com a do gigante.

Embora o humor não funcione o tempo todo – aliás, quase nunca -, as criaturas envolvidas nas trapalhadas dos humoristas mantém sua mitologia conhecida. É claro que ignoram situações ocorridas com as personagens nos longas anteriores, como a cura de Larry em A Casa do Drácula ou até mesmo sua morte em A Casa de Frankenstein, e nem se preocupam em justificar o retorno de Drácula ou as falas do Monstro de Frankenstein, já que ele não falava desde O Fantasma de Frankenstein (1942), contudo, o encontro entre Lugosi e Chaney Jr., e até mesmo o confronto físico entre eles e Glenn Strange é válido, vale repetir, pelo respeito ao passado das criaturas.

É fácil compreender o sucesso de Abbott e Costello. Mesmo não sendo tão engraçados para o tipo de humor atual, possuem carisma e boas atuações. Costello afina a voz e repete falas para criar jargões, enquanto Abbott tenta manter a serenidade, mas acaba se envolvendo com as loucuras do parceiro. Há uma química interessante na dupla, com diálogos rápidos, gestos exagerados e troca de olhares. Em meio a essas insanidades, os monstros tentam seguir seus planos, deixando para Larry o papel do anti-herói, como ele sempre fez em sua trajetória pela Universal.

Com um orçamento estimado em apenas U$800 mil e filmagens realizadas em pouco mais de um mês, Abbott & Costello Encontram Frankenstein até que funciona bem. Vale pela oportunidade de conhecer o trabalho dos humoristas, tanto quanto rever os clássicos monstros e se despedir oficialmente de Lon Chaney Jr. como o Lobisomem Larry Talbot. Ele depois voltaria a uivar no mexicano La casa del terror (1960) até enterrar de vez suas vestes peludas no péssimo Face of the Screaming Werewolf (1964).

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1 Comentário

  1. Lon Chaney não esteve exatamente no “Face of The Screaming Werewolf “.
    Jerry Warren comprou os direitos de ” La casa del terror” e usou cenas desse filme e de outro para formar o “Face of…”.

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