Críticas

Alien 2 – Sulla Terra (1980)

A continuação italiana, não-oficial e sem dinheiro de Alien!

Alien 2 - Sulla Terra
Original:Alien 2 - Sulla Terra
Ano:1980•País:Itália
Direção:Ciro Ippolito, Biagio Proietti
Roteiro:Ciro Ippolito
Produção:Ciro Ippolito, Angiolo Stella
Elenco:Belinda Mayne, Mark Bodin, Roberto Barrese, Benny Aldrich, Michele Soavi, Judy Perrin, Don Parkinson, Claudio Falanga, Fabrizia Castagnoli, Luigi Diberti, Vincenzo Falanga, Donald Hodson

Você já viu a continuação do clássico Alien, o Oitavo Passageiro? Então certamente lembra da cena da menina na praia, chorando, com o rosto arrancado. Ou daquela em que o verme Alienígena sai pelo olho da garota e arrebenta sua cabeça no processo. E como esquecer da cena do alpinista pendurado de ponta-cabeça, se debatendo, enquanto um verme devora seu pescoço, até a cabeça soltar-se e cair, decepada?

A estas alturas, meus fiéis cinco leitores devem estar pensando que eu tomei chá de cogumelo antes de escrever este artigo. Afinal, pensará o leitor, não existe nenhuma destas cenas na continuação de Alien, aquela dirigida por James Cameron. Ora, mas é claro que eu não estou falando de Aliens, O Resgate, a sequência oficial de Alien, lançada em 1986 (e um filmaço, vale ressaltar).

Estas cenas todas que citei estão na sequência “não-oficial” (pra não dizer pirata, ou picareta, ou sem-vergonha), realizada seis anos antes, em 1980, por produtores italianos (obviamente), com um título pra lá de falso: Alien 2 – Sulla Terra – em inglês, Alien 2 – On Earth. Inclusive diz a lenda que a continuação oficial, aquela dirigida por Cameron, só se chama Aliens porque os americanos não queriam que um novo Alien 2 rivalizasse as atenções com a cópia pirata italiana, que já estava nas prateleiras das locadoras!!! hahahahaha.

Apesar do nome digno de processo judicial, Alien 2 não tem absolutamente nada em comum com o Alien de Ridley Scott, além, é claro, da presença de alienígenas. E se qualquer tralha com extraterrestres assassinos feita depois do filme de Scott também usasse o nome “Alien”, hoje provavelmente estaríamos em Alien 55!

A trama do Alien 2 italiano, como o subtítulo já anuncia, nem mesmo acontece no espaço, já que a produção obviamente não tinha dinheiro para pagar efeitos especiais à altura. A solução foi jogar os personagens nas profundezas de uma gigantesca caverna. Pois ali, como no espaço, é escuro, deserto e silencioso, pelo menos na cabeça-de-bagre dos produtores!

No cúmulo da sem-vergonhice, os italianos nem ao menos tentaram copiar os elementos que deram certo em Alien, como os ovos extraterrestres (que apareceriam em outra imitação macarrônica muito superior do filme de Scott, o Alien Contamination dirigido por Luigi Cozzi) ou os monstros que saem pelo estômago das vítimas. Nesta suposta “sequência“, o monstro alienígena fica no escuro (decerto faltou dinheiro até para dar forma à criatura!!!), os ovos de alien são pedras vindas do espaço (!!!) e, se não há explosão estomacal, pelo menos temos a rápida cena de um alien saindo do ROSTO (isso mesmo) de uma vítima!

O responsável por este atentado ao bom gosto é um italiano chamado Ciro Ippolito. Você provavelmente nunca ouviu falar dele, e nem deveria: o cara ficou famoso mundialmente por ter dirigido Alien 2, e quase ninguém viu Alien 2, então por aí você tem uma ideia do que é a carreira do sujeito. A verdade é que esta é uma daquelas tralhas que todo mundo sabe que existem (tipo o Star Wars Turco), mas poucos se preocupam em procurar e assistir. E Ippolito não tinha dinheiro (e, aparentemente, nem conhecimento da linguagem cinematográfica) para fazer uma verdadeira ficção científica na linha do Alien original. Por outro lado, estava precisando de dinheiro e sabia que era muito fácil ganhar uns trocos filmando, a toque de caixa, um “rip-off” – ou seja, uma cópia ou continuação “disfarçada” de uma produção americana de sucesso.

A tática não era novidade na Itália da época, e basta lembrar que, um ano antes, em 1979, Lucio Fulci havia filmado Zombie, originalmente chamado Zombi 2 para que os europeus acreditassem estar diante de uma legítima seqüência do clássico Dawn of the Dead, do americano George A. Romero (chamado Zombi por lá). E nem vou falar das imitações de O Exorcista, A Profecia e Tubarão que saíram na Itália naquela mesma época…

Enfim, sem dinheiro e sem condições técnicas, mas determinado a faturar uma graninha largando uma bomba qualquer nos cinemas, Ippolito resolveu fazer sua versão “sem grana” de Alien. O uso de cenas reais de arquivo (mostrando operações espaciais verdadeiras da Nasa) e os longos e desnecessários takes de pessoas caminhando, dirigindo carros e “fazendo nada” podem passar a ideia errada de que o cineasta italiano é uma espécie de Ed Wood. Nada disso: “Ed Wood italiano” era o mestre Bruno Mattei, cujos “clássicos” (como Ratos e Shocking Dark) pelo menos são divertidos e engraçados na sua total incompetência. Ippolito, por outro lado, é no máximo um “Uwe Boll italiano”. O cara é tão podre que, perto dele, filmes ruins de Umberto Lenzi e Joe D’Amato parecem verdadeiras maravilhas da sétima arte.

Alien 2 (hahahahaha… desculpem, mas fica difícil segurar o riso!) começa com uma sequência de cenas que Ippolito tirou de algum documentário sobre viagens espaciais. Granuladas e sem contraste, mostram técnicos olhando para terminais de computador, um astronauta flutuando dentro de uma cápsula espacial, tomadas feitas do espaço por algum satélite e takes de navios e helicópteros militares fazendo o resgate da sonda de uma nave. Depois, à la Ed Wood, bastou costurar estas imagens reais sobre uma narração em off para criar a “trama“: ao que parece, uma nave espacial norte-americana acabou de retornar de uma missão espacial.

No que terminam as imagens de arquivo, finalmente nosso amigo Ciro mostra a que veio. Primeiro, ele nos brinda com uma longa cena em que a heroína Thelma (a americana Belinda Mayne) e seu namorado Roy (o americano Mark Bodin) dirigem até o estúdio de uma emissora de TV, onde Thelma, uma famosa exploradora de cavernas, vai participar de uma entrevista ao vivo – e não me pergunte que diabos isso tem a ver com o retorno da nave espacial à Terra, que até então era o grande assunto do programa onde a moça vai ser entrevistada!

Não precisa ser diretor de cinema para perceber que seria muito fácil e prático iniciar a sequência já com Thelma no estúdio fazendo a entrevista, mas o diretor-roteirista Ciro provavelmente pensou que o espectador iria se sentir perdido, sem saber como Thelma e Roy foram parar no estúdio. Então, ele mostra uma looooooooonga série de takes com o casal saindo de casa, caminhando até a garagem, entrando no carro, abrindo a porta da garagem, saindo da garagem, fechando a porta da garagem (sim, a câmera fica ligada até a porta fechar completamente), dirigindo por umas 15 ruas diferentes, estacionando na frente do estúdio, entrando no prédio, caminhando pelos corredores do estúdio e, enfim, chegando ao local da entrevista. Total: 4 ou 5 minutos de cenas totalmente desnecessárias, mas que reduzem o “tempo de trama” que Ciro precisará filmar posteriormente! E não pense que a tortura acaba por aqui…

Enquanto fala ao repórter, ao vivo, sobre sua interessantíssima vida de exploradora de cavernas, Thelma tem uma premonição de que algo horrível está para acontecer, justamente no momento em que o pessoal da NASA está resgatando a cápsula com os astronautas que acabaram de retornar da tal missão espacial. Thelma, no caso, tem poderes premonitórios, que mostrará várias outras vezes ao longo do filme, quando sente a presença do perigo – mais ou menos como o “sentido de aranha”, do Homem-Aranha, mas a moça, aparentemente, não pode lançar teias. O problema é que ter uma premonição terrível durante um programa ao vivo é foda, e a moça começa a passar mal, obrigando o repórter a interromper a entrevista.

Thelma resolve que é hora de rever seu psiquiatra, Peter (Donald Hodson). Seria muito fácil cortar diretamente para a moça deitada no divã do doutor, falando sobre as premonições que anda tendo e etc e tal. Mas lembre-se que Ciro Ippolito é um cineasta “introspectivo“: ele prefere mostrar Thelma dirigindo até a praia, saindo do carro, caminhando até a beira do mar, observando um barco no horizonte, de onde desce o tal psiquiatra num bote, rema até a praia (durante longos minutos), sai do bote e enfim começa a conversar com sua paciente. Óbvio, também seria muito mais simples cortar direto para os dois já sentados na areia e conversando, mas o diretor-roteirista achou que seria melhor, para o espectador, acompanhar a ida de Thelma até a praia e a bela cena sem cortes do psiquiatra remando até a margem. Talvez Ciro quisesse representar “a forma como as pessoas nadam contra as ondas para resolver os problemas do próximo”, ou algo do gênero. Vai que o homem é um gênio, e eu aqui falando mal dele? Detalhe: o tal psiquiatra, depois de ficar dois minutos remando até a praia, passa 30 segundos conversando com sua paciente e não diz nada de útil ou que possa ajudá-la – apenas pede se ela ainda está tendo pesadelos, Thelma diz que sim, e ele responde com um “Puxa, veja a hora, tenho que ir…“. Bela ajuda! hahahahaha

E você acha que acabou? Pois a cena seguinte é aquela em que Ciro apresenta os personagens secundários, durante um e-mo-cio-nan-te jogo de boliche! Não satisfeito com todo o material desnecessário que filmou até então, Ciro mostra tudo tintim por tintim: Thelma e Roy entrando no boliche, conversando com o sujeito no balcão, caminhando até a pista, etc etc. Ali estão amigos e integrantes da equipe do casal, como Burt (um tal de “Michael Shaw“, que na verdade vem a ser o futuro cineasta Michele Soavi!), Maureen (Judy Perrin), Cliff (Roberto Barrese) e outros cujo nome mal é citado. No total, e isso é o que interessa no final das contas, são oito pessoas.

A turma joga conversa fora, joga boliche (com direito a loooooooongos takes de bolas rolando na pista e derrubando pinos), faz uma aposta, etc etc… E o tempo vai passando sem que nada de interessante aconteça. Ainda está acordado? Que bom, pois foi nesta parte do filme que eu peguei no sono pela primeira vez! Ah, só para constar nos autos do processo: através de programas de rádio e de TV, o diretor-roteirista nos informa que a cápsula que voltou do espaço estava VAZIA! O que aconteceu com os astronautas que estavam dentro? Só Deus sabe!

Finalmente, no dia seguinte, o grupo todo sai para explorar uma gigantesca caverna, e é só aí que o filme “começa a começar” (não perca a conta: Ciro já queimou uns 25 minutos em inutilidades até então!!!). Antes, entretanto, o diretor retorna à praia para a cena em que uma menininha se aproxima do que parece ser um ovo purulento e pulsante. Hmmm… Ovo pulsante? Em Alien isso não acabou bem, e nem aqui: quando a mãe (ou irmã, ou babá, o filme não explica) da garotinha vai procurá-la, encontra a pobre criança ajoelhada na areia e chorando, de costas. Ela não responde aos chamados. E, quando se vira, mostra o porquê: está com o rosto arrebentado, transformado em tiras de carne penduradas onde deveriam estar os olhos, o nariz e a boca!!! Brrrrr…

De volta aos nossos “heróis“: na última parada antes da expedição caverna adentro, num armazém onde compram mantimentos, Burt vai dar uma mijada e encontra uma pedra brilhante do lado de fora da loja. A última coisa que eu faria, se estivesse mijando e encontrasse a pedra, seria recolhê-la com curiosidade, mas é exatamente o que o cara faz. Depois, ele mostra o bagulho para os amigos e todos ficam fascinados, como se aquela pedra sem graça fosse a oitava maravilha do mundo. E Thelma, sabe-se lá porque, resolve colocar a tal pedra em sua mochila e levá-la junto na expedição. Aí você pensa: “O que essa mané vai fazer com uma pedra no interior de uma caverna?”. Bem, caro leitor, acredite se quiser, mas isso é o menos ridículo, já que o personagem de Soavi leva uma pesada MÁQUINA DE DATILOGRAFIA dentro da sua mochila até as profundezas da caverna!!! hahahahahahahahaha. Não sei porque, mas neste momento lembrei daquelas cenas de filmes de expedições onde o guia sempre diz: “Levem apenas o que for estritamente necessário!“.

O pior é que, quando o grupo entra na tal caverna, são mais uns 15 minutos de enrolação, um caminha pra lá, caminha pra cá, escala ali, desce com corda aqui, tudo na escuridão, para economizar grana, é claro. No auge da pouca-vergonha, doido para matar tempo de projeção, Ciro filma, um por um, os oito exploradores descendo um paredão com cordas, do começo ao fim do percurso!!! Mas, justiça seja feita, o sujeito consegue uma cena bonita quando o grupo liga as luzes dos capacetes na escuridão da caverna – as luzes parecem estrelas no cosmos, e é o mais perto que o cineasta consegue chegar do espaço. hahahahaha

Após mais um monte de escalada e conversa fiada, e de uma rápida cena de topless de nossa heroína (talvez a melhor cena do filme inteiro), a coisa finalmente começa a ficar interessante – e já passaram 35 minutos de filme!!! Durante uma das intermináveis caminhadas pelos escuros corredores, Jill (nome da atriz não-creditado) percebe que a tal pedra misteriosa, que Thelma ainda leva na sua mochila, está pulsando e brilhando. Ela põe a fuça bem pertinho para ver e uma coisa salta de dentro da pedra, entrando na cabeça da moça – aparentemente pela boca, já que o filme não se preocupa em mostrar. Jill cai dura e fica inconsciente. E o diretor faz o favor de estragar qualquer possibilidade de criar suspense e tensão ao gastar longos takes para mostrar os exploradores se reagrupando, amarrando Jill numa maca e içando a pobre coitada pelo paredão (falando sério, deve levar mais uns 6 ou 7 insuportáveis minutos).

Então, como se ainda não tivesse torturado o suficiente o pobre espectador, Ciro tasca a cena mais demorada e intragável do filme todo: a câmera rasteira se desloca, lentamente, dos pés de um dos rapazes, pelo chão, percorrendo o corpo deitado de Jill da ponta dos pés até a cabeça (um take interminável, sem cortes e chatíssimo). Finalmente, quando chega no rosto da moça, percebemos que algo está tentando sair DE DENTRO DELE! Claro, é o alien que estava na pedra momentos antes, e que força sua saída da cabeça da garota pela órbita do olho, fazendo voar o dito cujo e rasgando o rosto da vítima sem dó nem piedade, num efeito tosco, mas repelente. Aí até parece que a coisa vai engrenar. Mas só parece…

O sujeito que ajudou a içar Jill, enquanto isso, está na beira do paredão conversando com os outros amigos, que ficaram lá embaixo. Mas, quando ele se vira para checar como está a moça, o verme alienígena pula (ou melhor, voa) na direção do rapaz, abocanhando seu pescoço. Desesperado – e esquecendo que está bem na beira do abismo -, o mané dá dois passos para trás e mergulha nas profundezas da caverna, mas seus pés ficam presos na corda que ele usou para escalar a parede. Pendurado de ponta-cabeça, ele se debate inutilmente enquanto o verme termina de esquartejar sua garganta, fazendo com que, lentamente, a cabeça do cara se solte e caia bem no meio do grupo de amigos!!! Uma ótima cena, e você REALMENTE começa a pensar que a coisa vai engrenar. Mas é aí que estanca de vez…

Os sobreviventes resolvem se separar para procurar uma outra saída, já que ficaram com medo de ir pelo mesmo trajeto que o amigo decapitado. Burt e Maureen vão por um lado, e Cliff, Roy, Thelma e um sujeito cujo nome não guardei partem por outra galeria. A partir daí, o alien já cresceu até ficar do tamanho de um gigantesco monstrengo devorador de pessoas (nunca mostrado em cena, por incrível que pareça). E é justamente isso que ele faz: devora pessoas, até restarem apenas Thelma e Roy.

Vale a pena destacar uma cena engraçadíssima, enigmática e simplesmente inexplicável: Cliff, de alguma forma, fica “possuído” pelo alienígena e vai de encontro aos amigos sobreviventes. Thelma, que tem poderes paranormais até então desconhecidos, se aproxima do sujeito e diz: “Você não é o verdadeiro Cliff!“. E eis que, num clássico do besteirol, a moça começa a olhar fixo para o clone alienígena, olho no olho, e a cabeça de Cliff simplesmente explode em pedacinhos sem razão alguma!!!! Sacou? Thelma é uma scanner!!! E isso que Cronenberg só lançaria o filme homônimo no ano seguinte, em 1981. Ou seja: Cronenberg plagiou Ciro Ippolito!!! (Mas é covardia comparar a sangrenta explosão cabeçal de Scanners com a máscara de gesso inexpressiva que explode em Alien 2…)

E o mais legal vem agora: quando Thelma e Roy, os únicos sobreviventes da matança, conseguem finalmente sair da caverna, deixando para trás as carcaças dos amigos mutilados e os monstros alienígenas ainda vivos e sedentos de sangue, eles descobrem que talvez as coisas nunca mais sejam as mesmas. Primeiro, encontram um carro de polícia abandonado. Depois, não vêem ninguém na mercearia onde tinham estado horas antes. Finalmente, voltam para a cidade e encontram todas as ruas desertas. Nada de carros, pessoas, sons… Enfim, nada!

Mostrando que entendem tudo de prioridades em situações de emergência, Thelma e Roy correm para o único lugar onde poderiam encontrar auxílio: O BOLICHE MOSTRADO NO INÍCIO DO FILME!!! hahahaha. Eles nem tentam telefonar para a polícia ou para o exército, ir a um hospital ou mesmo à delegacia, vão direto para o boliche. E o diretor, provavelmente apaixonado pelo esporte, aproveita para colocar mais alguns loooooooongos takes de pinos de boliche sendo rearrumados automaticamente. Argh!!!

Se você ainda não captou a mensagem, o lance é o seguinte: naquelas poucas horas em que os exploradores ficaram no interior da caverna, os aliens invadiram a Terra (através daquelas pedras, que na verdade são ovos de aliens) e mataram toda a humanidade (embora não tenha restado nenhum cadáver, esqueleto ou poça de sangue na cidade deserta por onde o casal passa). Chega a lembrar aquele livro, “Blecaute“, do Marcelo Rubens Paiva, onde um trio de exploradores sai de uma caverna e descobre que a humanidade foi exterminada. Será que o Paiva também plagiou Ippolito?

Resumindo a ópera: Roy é morto off-screen (só escutamos um grito do sujeito e ele desaparece do filme, como se o próprio ator tivesse picado a mula), e Thelma corre do gigantesco monstro alien, que nunca é mostrado pelo diretor. Muito pelo contrário: para baratear os custos, Ciro prefere fazer da câmera a VISÃO EM PRIMEIRA PESSOA do monstro, enquanto ele persegue a moça pelas ruas desertas. Finalmente, cansada de fugir e sem ter a quem recorrer, nossa heroína simplesmente se ajoelha no meio da estrada e começa a gritar, enquanto uma frase sobreposta ao frame alerta: VOCÊ PODE SER O PRÓXIMO!!! hahahahahahahahahahahahaha. Obrigado pelo aviso, Ciro!!!

Alien 2 – Sulla Terra é tão ruim que não tem como não gostar. O maior problema é que a “diversão trash” fica comprometida pelo andamento leeeeeeento do filme. Eu mesmo cochilei umas cinco vezes e tive que voltar para ver o que acontecia. A boa notícia é que nunca acontece nada, então você pode dormir tranqüilamente durante uns 40 minutos do filme que não vai perder muita coisa. Agora falando sério: se a produção toda tem 80 minutos, os primeiros 40 são completamente dispensáveis, mostrando apenas andanças e caminhadas de um lado para outro, loooooooongos takes que podiam ser resumidos ou cortados (às vezes parece que Ciro esqueceu a câmera ligada acidentalmente) e diálogos que nada acrescentam. Já os ataques dos aliens e cenas sangrentas, que são a razão de ser da produção, não devem preencher nem 10 minutos da metade do filme. Por fim, quando Thelma e Roy finalmente saem da caverna, temos mais 20 minutos com os dois personagens zanzando de lá para cá na cidade deserta – como se o espectador fosse um completo otário e precisasse de 20 minutos para entender que a cidade está vazia e que todos estão mortos!!!

Ciro poderia muito bem ter dado uma bela cortada nas cenas arrastadas, ter optado por uma edição mais dinâmica (neste caso, a culpa é do editor Carlo Broglio) e, assim, encontrar tempo para responder a quase todas as perguntas que o roteiro deixa no ar. Por exemplo: o que aconteceu com os astronautas que desapareceram da cápsula resgatada no início do filme? Como é que as pedras/ovos de alien vieram parar na Terra (se foram trazidas pela cápsula, como puderam se espalhar por toda a cidade, inclusive na praia e no lugar onde Burt mijava?)? Qual o objetivo dos alienígenas: devorar a humanidade ou possuir seus corpos? E finalmente: como é que os alienígenas conseguiram devastar uma grande cidade em apenas algumas horas, sumindo com todo mundo sem deixar qualquer vestígio de luta ou de pessoas devoradas?

Além de todas estar perguntas que ficam no ar, resta ainda a maior dúvida de todas: por que o roteiro coloca os personagens numa caverna e inventa a forma mais cretina de incluir um alien no rolo (na pedra que Thelma leva SEM MOTIVO ALGUM na sua mochila)? Não seria mais simples e menos idiota fazer com que os exploradores encontrassem os “ovos de Alien” já no interior da caverna, ao invés de levar um deles na bagagem? E, afinal, pra que serve o “sentido de aranha” de Thelma se ela nada pode fazer além de ter visões horríveis do futuro? E por que ela não utilizou seus “poderes Scanner” para explodir também o monstrão no final do filme, como fez momentos antes com o clone de Cliff???

Com efeitos podres e exageradamente sangrentos de um tal Donald Patterly (único trabalho no cinema!!!), Alien 2 – Sulla Terra até poderia ter certo interesse como comédia trash involuntária. Mas, infelizmente, o filme é tão chato que de maneira alguma diverte. Lembra quando não existia MP3 nem gravador de CD, e você precisava comprar o disco inteiro de uma banda para ouvir apenas as duas músicas que gostava? É mais ou menos isso: por causa de duas ou três cenas legais, você precisa engolir o Alien 2 inteiro, o que não é nada fácil. Inclusive sugiro que alguém com muita boa vontade jogue o filme no Adobe Premiére e faça uma “edição condensada“, cortando o excesso de takes longos e cenas inúteis para dar origem a um divertido curta-metragem. Assim, os curiosos fãs de tralhas, como eu, não precisariam perder 1h20min de suas vidas vendo o filme inteiro.

Mas, para não dizerem que só detonei o trabalho do Ciro, as cenas no interior da caverna (Castellana Grotte, em Apulia, na Itália), embora looooooongas e escuras, são muito bem-feitas, mais mérito do diretor de fotografia e operador de câmera Silvio Fraschetti do que do próprio cineasta – e isso que boa parte dos sinistros corredores e paredões de pedra foram recriados em estúdio pelos designers Angelo Mattei e Mario Molli, mas assistindo o filme você não diz que a coisa é de mentirinha. As cenas de Thelma correndo pela cidade deserta (filmadas nas ruas de San Diego, na Califórnia!!!) também são muito boas e chegam a lembrar o posterior Extermínio, de Danny Boyle. E a música, da dupla Oliver Onions (formada pelos irmãos Guido e Maurizio de Angelis), é climática nas cenas de suspense, embora lembre, o tempo todo, os trabalhos bem superiores da banda Goblin.

Quanto a Ciro Ippolito, além de péssimo roteirista, o sujeito ainda comprova ser um péssimo cineasta – e tenta esconder-se atrás do pseudônimo americano “Sam Cromwell“. Vale destacar que o roteiro tem várias ideias chupadas do clássico da Hammer The Quatermass Experiment (1955), onde os alienígenas invadiam a Terra escondidos em rochas, que entravam na órbita terrestre após uma chuva de meteoros. Alguns críticos de Alien 2 acreditam que o roteiro de Ciro trabalha com a hipótese de Thelma ser esquizofrênica (à la O Gabinete do Dr. Caligari), e que tudo seria um delírio da mente da personagem – por isso ela acaba sozinha no meio da cidade deserta. Entretanto, não há elementos suficientes no filme para comprovar esta ideia, que seria até interessante.

O mais curioso é que o pobre Ciro trabalhava com cinema desde a década de 50 (também foi ator e produtor), e neste tempo todo parece não ter aprendido nada de útil. Ele fez filmes até 2004, mas foram apenas comportadas produções para a TV italiana, sem sangue esguichando nem aliens que arrebentam rostos de pessoas. Segundo o IMDB, Ciro teve a ajuda de um co-diretor em Alien 2 (ou seja, DOIS diretores para fazer uma merda como essa!), e o sujeito não foi creditado. Trata-se de Biagio Proietti, que no ano seguinte (1981) roteirizou The Black Cat, de Lucio Fulci, e também tentou dirigir seus próprios filmes, desta vez bem longe do Ciro Ippolito. hehehehe.

Não sei se é necessário detonar o elenco, mas vamos lá: Belinda Mayne, como Thelma, é inexpressiva e feia (embora os peitos sejam bonitos). O máximo que ela conseguiu subir na carreira, após Alien 2, foi como figurante na ficção científica Krull (1982). Mark Bodin, como Roy, é outro que está mais perdido do que surdo em bingo (e o que esperar de atores americanos numa paupérrima produção italiana?). Este sim se deu mal na vida: após aparecer no “clássico” de Ciro, só conseguiu emprego como figurante em Antropophagous, de Joe D’Amato (outra história arrastada e com loooooooooongos takes desnecessários), e abandonou a “carreira” em 1983. Os demais são tão ruins que a gente nem lembra o nome dos personagens depois que o filme termina – e Michele Soavi só ganha um desconto porque abandonou a canastrice na frente das telas para se transformar num dos grandes cineastas italianos dos anos 80 e 90. A melhor interpretação, no fim, é a dos vermes alienígenas – nada mais do que marionetes inexpressivas, que lembram o clássico trash O Retorno dos Aliens, de 1983.

Por motivos óbvios (copyright, alguém?), Alien 2 – Sulla Terra nunca foi lançado no Brasil – embora tenha saído até na Argentina! Nos EUA saiu nas locadoras, em VHS, com uma infinidade de títulos, de Alien 2 a Alien Terror (e até num programa duplo com Nightmare City, do Umberto Lenzi!!!). Nunca foi relançado em DVD, embora no Japão exista uma versão em laser disc bastante procurada por colecionadores de filmes obscuros. Quem procurar nos torrents, deverá encontrar apenas uma versão pobre dublada em italiano; a qualidade da imagem é péssima, com riscos e falhas na imagem, tipo aquelas que Quentin Tarantino e Robert Rodriguez inseriram digitalmente em Grindhouse. É o tal do filme tão obscuro e bizarro que vale a pena ter na coleção, por pior que ele seja, e que dificilmente deve ganhar algum DVD caprichado tão cedo…

Minha sugestão: bem que a Fox podia adquirir os direitos sobre a produção e lançar uma edição especial de Alien 2 numa futura “versão de colecionador” do box da série Alien “oficial”. Já pensou que legal? Assim os gringos fariam com que até os maiores detratores de Alien 3 e Alien, A Ressurreição gostassem destes filmes, pois, comparados à “qualidade” da obra de Ciro Ippolito, eles se tornam grandes clássicos da sétima arte!

E finalizando: Alien 2 foi de certa forma refilmado pelo inglês Neil Marshall em Abismo do Medo (2005), onde moças explorando uma caverna enfrentam criaturas furiosas e sanguinárias – que de aliens, felizmente, não têm nada. Este sim é uma verdadeira aula de horror e claustrofobia, e se Ciro Ippolito desperdiçou sua ambientação numa escura e apertada caverna, Marshall utilizou o cenário ao seu favor para criar tensão.

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3 Comentários

  1. MORCEGO

    Eu gosto do filme. É um dos melhores trash italianos.

  2. Anderson Henrique de Macedo

    Muito bom o artigo, Felipe, sempre fui fã de seus artigos desde o começo do site, pois sempre possuem muitos detalhes sobre a produção, roteiro e atores,além de possuírem muito humor característico seu! Então, após ler o artigo, fiquei curioso e resolvi procurar o filme no Youtube! E não é que achei o dito cujo, está como Alien 2 Sulla Terra ITA film completo! Creio que o pessoal que tem interesse em assistir pode procurar por lá e arriscar!! Abraços, escreva mais pois seus artigos são os melhores!!

  3. Ramiro Ribeiro

    Show demais essa resenha. Parabéns! Eu, que adoro uma podreira fiquei louco por esse filme…

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