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Os 50 Melhores Filmes de Ficção Científica do Século XX (e 20 do Século XXI)

Uma lista que procura expressar a enorme variedade temática que existe no gênero, procurando ser o mais abrangente possível

Este artigo é o segundo que procura levantar quais seriam os melhores filmes realizados no campo do cinema fantástico no século XX. Tanto este como o primeiro – voltado aos filmes de horror – foi originalmente publicado no meu fanzine Megalon, no.58, ano 12, em setembro de 2000. Recentemente revi a listagem original dos filmes de horror, com novos filmes que substituíram outros da lista original, sendo publicado no fanzine Juvenatrix, no. 184, em abril de 2017. O propósito aqui é o mesmo, revisar a lista original dos 50 mais representativos filmes de FC do século passado, depois de quase duas décadas.

Mas não mais os mesmos 50, porque de lá para cá foram 18 anos. Tempo suficiente para que eu tenha mudado um pouco minha avaliação. Revi alguns filmes e vi outros que eu não conhecia, para chegar a esta nova lista. Em suma, alguns saíram da primeira lista, e acrescentei outros que conheci depois e julgo melhores e mais importantes em 2017.

Nesta nova edição, inclusive, há uma segunda tabela onde elaboro uma primeira lista com a tentativa dos filmes de FC mais representativos nestas duas primeiras décadas do século XXI. Mas não com cinquenta, mas vinte filmes.

O Dia em que a Terra Parou (1951)

Nas duas listas há de tudo um pouco, quanto aos temas e estilos e mesmo procedências geográficas. Filmes de ficção científica expressionista; de monstros; exploração e guerra espacial; contatos com seres extraterrestres; relações entre homens, máquinas e seres artificiais; alertas para os possíveis perigos do uso político da ciência e tecnologia; utopias e distopias; viagens no tempo; pesadelos nucleares; fim de mundo; realidade virtual e outros temas. De estúdios e diretores consagrados a alguns mais independentes e alternativos, como bem cabe a filmes cuja essência está na liberdade de especulação temática e, em alguns casos notáveis, de estilo. Ou seja, uma lista que procura expressar a enorme variedade temática que existe no gênero, procurando ser o mais abrangente possível.

Mas independentemente do tema e do estilo, o que procurei levar mais em consideração foi a qualidade da obra e sua ressonância, influência nos anos que passaram. Obras que, mesmo passados oitenta, cinquenta, trinta ou dez anos – para os filmes deste novo século –influenciaram o seu entorno, com outros filmes, revelação de diretores, atores e que, de certa forma, extrapolaram o próprio objetivo inicial da obra, ganhando a cultura popular de uma maneira geral. Além disso, achei por bem deixar de fora as continuações de um filme e procurei comparar os filmes originais com as refilmagens, dando a preferência para um deles.

Vamos primeiro à lista original, a da meia centena dos filmes mais importantes do século XX. Não há ordem de preferência e sim cronológica. Começa com Metrópolis, de 1927 e vai até Matrix, de 1999. Temos 32 filmes produzidos nos Estados Unidos, 9 no Reino Unido, dois na Alemanha, dois no Japão, dois na Rússia (então URSS), um no Canadá, um na Espanha e outro na França.

Eis os eleitos:

1927: Metrópolis (Metropolis, Alemanha), de Fritz Lang
1936: Daqui a Cem Anos (Things to Come, UK), de William Cameron Manzies
1951: O Dia em que a Terra Parou (The Day the Earth Stood Still, EUA), de Robert Wise
1953: Guerra dos Mundos (The War of the Worlds, EUA), de Byron Haskin
1953: Invasores de Marte (Invaders from Mars, EUA), de William Cameron Manzies
1954: Godzilla (Godzilla, Japão), de Ishirô Honda
1955: Guerra entre Planetas (This Island Earth, EUA), de Joseph Newman
1956: O Planeta Proibido (Forbidden Planet, EUA), de Fred M. Wilcox
1956: Vampiros de Almas (Invasion of the Body Snatchers, EUA), de Don Siegel
1957: O Incrível Homem que Encolheu (The Incredible Shrinking Man, EUA), de Jack Arnold
1958: A Mosca da Cabeça Branca (The Fly, EUA), de Kurt Newmann
1960: A Aldeia dos Amaldiçoados (Village of the Damned, UK), de Wolf Rilla
1960: A Máquina do Tempo (The Time Machine, EUA), de George Pal
1963: O Mundo os Condenou/Os Malditos (The Damned, UK), de Joseph Losey
1963: O Homem dos Olhos de Raios-X (X: The Man with the X-Ray Eyes, EUA), de Roger Corman
1965: Alphaville (Alphaville, França), de Jean-Luc Godard
1966: Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451, UK), de François Truffaut
1966: O Segundo Rosto (The Seconds, EUA), de John Frankenheimer
1966: Viagem Fantástica (Fantastic Voyage, EUA), de Richard Fleisher
1967: Uma Sepultura na Eternidade (Quatermass and the Pit, UK), de Roy Ward Baker
1968: O Planeta dos Macacos (The Planet of the Apes, EUA), de Franklin J. Schaffner
1968: 2001: Uma Odisseia no Espaço (2001: A Space Odyssey, EUA), de Stanley Kubrick
1968: Os Dois Mundos de Charly (Charly, EUA), de Ralph Nelson
1971: O Enigma de Andrômeda (The Andromeda Strain, EUA), de Robert Wise
1971: A Última Esperança da Terra (The Omega Man, EUA), de Boris Sagal
1972: Solaris (Solaris, URSS/Rússia), de Andrey Tarkovski
1972: Corrida Silenciosa (Silent Running, EUA), de Douglas Trumbull
1972: Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, EUA), de Stanley Kubrick
1973: O Mundo por um Fio (Welt am Draht, Alemanha), de Rainer Werner Fassbinder
1973: No Mundo de 2020 (Soylent Green, EUA), de Richard Fleischer
1974: Zardoz (Zardoz, UK), de John Boorman
1976: O Homem que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, UK), de Nicholas Roeg
1977: Contatos Imediatos do 3º Grau (Close Encounters of the Third Kind, EUA), de Steven Spielberg
1977: Guerra nas Estrelas (Star Wars, EUA), de George Lucas
1979: Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, EUA), de Ridley Scott
1979: Stalker (Stalker, URSS/Rússia), de Andrey Tarkovsky
1982: Blade Runner: O Caçador de Androides (Blade Runner, EUA), de Ridley Scott
1982: O Enigma de Outro Mundo (The Thing, EUA), de John Carpenter
1983: O Dia Seguinte (The Day After, EUA), de Nicholas Meyer
1983: Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome, Canadá), de David Cronenberg
1984: 1984 (1984, UK), de Michael Radford
1984: O Exterminador do Futuro (The Terminator, EUA), de James Cameron
1984: Nausicaä do Vale do Vento (Nausicaä of the Valley of the Wind, Japão), de Hayao Miyazaki
1985: Brazil, o Filme (Brazil, UK), de Terry Gillian
1988: Eles Vivem (They Live, EUA), de John Carpenter
1996: Os Doze Macacos (Twelve Monkeys, EUA), de Terry Gillian
1997: Contato (Contact, EUA), de Robert Zemeckis
1997: Preso na Escuridão (Abra los Ojos, Espanha), de Alejandro Amenábar
1998: Truman Show, o Show da Vida (Truman Show, EUA), de Peter Weir
1999: Matrix (Matrix, EUA), dos Irmãos Wachowski

A esta altura, depois de ler a lista acima, você deve ter suas discordâncias, é natural. Toda lista é polêmica por definição e serve principalmente para estimular o debate, comparar preferências e identificar tendências, seja do crítico individualmente, ou de um grupo que elabore em conjunto um trabalho de escolha de melhores.

Da primeira lista de 1999 para esta ocorreram 13 mudanças. Entraram: Invasores de Marte (1953), O Mundo os Condenou/Os Malditos (1963), O Homem dos Olhos de Raios-X (1963), O Segundo Rosto (1966), O Mundo por um Fio (1973), O Homem que Caiu na Terra (1976), Stalker (1979), O Dia Seguinte (1983), 1984 (1984), Nausicä do Vale do Vento (1984), Eles Vivem (1988), Contato (1997) e Preso na Escuridão (1997). Saíram: Viagem à Lua (1902), King Kong (1933), A Ameaça que Veio do Espaço (1953), 20 Mil Léguas Submarinas (1954), 1984 (1956), Doutor Fantástico (1964), Matadouro 5 (1971), Westworld, Onde Ninguém tem Alma (1973), Rollerball, os Gladiadores do Futuro (1975), Jornada nas Estrelas, o Filme (1979), Mad Max (1980), De Volta para o Futuro (1985), Robocop, o Policial do Futuro (1987). Todos estes que saíram continuam sendo bons e importantes, apenas perderam espaço na comparação com os que entraram.

O leitor pode estranhar o caso de alguns filmes, nos quais o cineasta é de um país e o filme foi classificado para outro, como os casos do alemão Wolf Rilla, do francês François Truffaut, do húngaro naturalizado americano George Pal, do ucraniano Boris Sagal, do inglês Ridley Scott, do inglês Terry Gillian e do australiano Peter Weir. Em todos estes casos levei em conta o país em que o filme foi produzido e a língua no qual ele foi veiculado.

Eles Vivem (1988)

A lista acima dá uma amostra bastante abrangente dos filmes de ficção científica do ponto de vista das épocas, diretores e temas abordados. Antes dos anos 1950 o cinema de FC viveu uma espécie de fase introdutória. Não que não tenham sido feitos filmes, mas eles se destacaram menos em qualidade com os de décadas posteriores. Neste trabalho listei apenas dois: Metrópolis e Daqui a Cem Anos, as duas maiores superproduções.

Stephen King afirma no seu celebrado ensaio Dança Macabra (1989) que os assuntos mais abordados de uma dada época refletem os medos e ansiedades da sociedade. Para os filmes de FC podemos verificar a veracidade do argumento, justamente a partir da década de 1950, por causa do aumento expressivo dos filmes produzidos, sobretudo por Hollywood. É mesmo a partir desta década que o cinema de FC ganha uma maior identidade e maturidade. Escolhi 9 filmes que retratam, entre outros temas, a paranoia de uma invasão e guerra sob a metáfora dos alienígenas (O Dia em que a Terra Parou, Guerra dos Mundos, Invasores de Marte e Vampiros de Almas) – assuntos que vez por outra ressurge no gênero. Para ficar só nesta lista, filmes como A Aldeia dos Amaldiçoados e Eles Vivem. Outro assunto caro aos anos 1950 foi a exploração espacial, retratado aqui com Choque de Planetas e O Planeta Proibido, entre tantos lançados. Aqui também, é claro, este tema é sempre presente. Exemplos maiores em filmes como 2001: Uma Odisseia no Espaço e Solaris. Mas talvez o tópico mais marcante da década de 1950 tenha sido das possíveis tragédias advindas do mau uso da tecnologia nuclear. Na lista acima temos Godzilla e O Incrível Homem que Encolheu. Outros filmes marcantes com este tema nesta década são, por exemplo, os norte-americanos O Mundo em Perigo (Them!, 1954) e O Começo do Fim (Begining of the End, 1957).

Na década de 1960 os filmes de FC retrataram temas semelhantes mas, diria, com um grau de complexidade maior. Selecionei 12 filmes em que temas como mutações (O Mundo os Condenou – também conhecido como Os Malditos – e Os Dois Mundos de Charly), distopias (Alphaville e Fahrenheit 451, concebidos no contexto da nouvelle vague francesa), especulações científicas (viagem no tempo: A Máquina do Tempo; radioatividade: O Homem dos Olhos de Raios X; exploração do interior do corpo humano: Viagem Fantástica), troca de personalidades (novamente Os Dois Mundos de Charly e o excepcional O Segundo Rosto). O tema da exploração do espaço reaparece no melhor de todos os filmes de FC, 2001: Uma Odisseia no Espaço, mas também por tratar da origem do homem, da inteligência artificial e do contato com uma supercivilização extraterrena. Já Uma Sepultura na Eternidade compartilha com 2001 o tema do passado ancestral do homem, e O Planeta dos Macacos retoma em tons surpreendentes as consequências do mau uso da energia nuclear, com o surgimento de uma nova espécie inteligente no planeta.

Podemos afirmar que os anos 1970 expandiram alguns dos temas principais dos anos 1960, apresentando alguns filmes notáveis por sua acuidade crítica e criatividade. Foi a década com mais filmes selecionados: 13. Ainda na Guerra Fria, após a chegada do homem à Lua e sob os efeitos dos movimentos de afirmação de minorias da década de 1960, esta década teve de melhor em termos de cinema de FC, questões mais introspectivas, como vistos nos dois filmes de Tarkovsky: Solaris e Stalker, um mergulho existencial na psique humana; o tema do vírus mortal surgindo de forma expressiva, em filmes como O Enigma de Andrômeda e A Última Esperança da Terra; a superpopulação e escassez alimentar é abordada no contundente No Mundo de 2020, também no contexto de um regime político autoritário, visto também em Laranja Mecânica. O meio ambiente finalmente ganha uma condição importante, com o originalíssimo Corrida Silenciosa. Outro filme a abordar o tema é O Homem que Caiu na Terra. A efetivação de uma utopia e seu desdobramento longínquo está presente em Zardoz. A especulação científica mais livre ganha espaço na minissérie alemã O Mundo por um Fio, que imagina um mundo que seria a recriação de um programa de computador. Perturbador. Na parte final dos anos 1970, três filmes que tiveram enorme sucesso de bilheteria retomam temas tradicionais da FC e estão incluídos pela sua qualidade em si e enorme influência posterior: Contatos Imediatos do 3º. Grau, Guerra nas Estrelas e Alien, o Oitavo Passageiro. Contato com alienígenas sob uma perspectiva mais ufológica, space opera e terror alienígena no espaço profundo, respectivamente.

Laranja Mecânica (1971)

Alguns afirmam que a Era de Ouro da FC aconteceu nos anos 1950. Mas creio que podemos estender este período, para 30 anos: de 1950 a 1979. Anos que firmaram a reputação do gênero como palco de discussão dos grandes temas da humanidade, seja na Terra, no espaço, e no futuro que definirá seu destino. Neste levantamento, estas três décadas respondem por 34 dos 50 filmes, ou seja, 68%. Talvez não seja coincidência que uma parte das melhores produções destes anos gloriosos adaptou obras literárias de autores. Vamos a algumas delas: Anthony Burgess (Laranja Mecânica, 1972), Arkady & Boris Strugatsky (Stalker, 1979), Arthur C. Clarke (2001: Uma Odisséia no Espaço, 1968), Arthur Conan Doyle (O Mundo Perdido, 1960), Curt Siodmak (A Invasão dos Discos Voadores, 1956); Daniel F. Galouye (O Mundo por um Fio, 1973), Daniel Keyes (Os Dois Mundos de Charly, 1968); David Ely (O Segundo Rosto, 1966), D.F. Jones (Colossus 1980, 1970), George Orwell (1984, 1956), Harlan Ellison (O Menino e seu Cachorro, 1975), Harry Harrison (No Mundo de 2020, 1973), H. G. Wells (Guerra dos Mundos, 1953; A Máquina do Tempo, 1960; Os Primeiros Homens na Lua, 1964), H.P. Lovecraft (Morte para um Monstro, 1965); Ira Levin (Esposas em Conflito, 1974), Jack Finney (Vampiros de Almas, 1956; Invasores de Corpos, 1978), John Campbell, Jr. (O Monstro do Ártico, 1951); John Wyndhan (A Aldeia dos Amaldiçoados, 1960; O Terror veio do Espaço, 1962); Julio Verne (20 Mil Léguas Submarinas, 1954; Viagem ao Centro da Terra, 1959), Kurt Vonnegut (Matadouro 5, 1971), Michael Crichton (O Enigma de Andrômeda, 1971; Westworld, Onde Ninguém tem Alma, 1973), Nevil Shute (A Hora Final, 1959), Peter George (Doutor Fantástico, 1964), Pierre Boulle (O Planeta dos Macacos, 1968), Ray Bradbury (A Ameaça que Veio do Espaço, 1953; Fahrenheit 451, 1966; Uma Sombra passou por Aqui, 1967), Richard Matheson (O Incrível Homem que Encolheu, 1957; Mortos que Matam, 1964; A Última Esperança da Terra, 1971), Robert A. Heinlein (Destino à Lua, 1950), Robert Sheckley (A Décima Vítima, 1965), Stanislaw Lem (Solaris, 1972) e Walter Tevis (O Homem que Caiu na Terra, 1976). Um total de 40 filmes – 19 deles incluídos na lista acima dos 50 melhores. Adaptações dos trabalhos de 30 escritores, que representam uma parte expressiva da nata da ficção científica literária, além de alguns do mainstream, como Boulle, Burgess, Ely, Finney, George, Orwell, Shute e Tevis.

As duas últimas décadas do século XX, de certa forma, não inovaram tanto quanto os 30 anos gloriosos, mas, ainda assim, apresentaram um conjunto de filmes importantes. Escolhi 9 na década de 1980 e mais 5 na de 1990. Androides, superpopulação e caos ambiental no clássico Blade Runner; o libelo pacifista e de respeito à diversidade da vida e da natureza no belíssimo desenho Nausicä do Vale do Vento; as distopias de 1984 e Brazil, o Filme; a ambiguidade entre o real e o virtual em filmes como Videodrome, Eles Vivem e Matrix; as viagens no tempo de Exterminador do Futuro e Os Doze Macacos; o tema clássico do contato com alienígenas em Contato e O Enigma de Outro Mundo; dos enganos ilusórios de uma vida nos surpreendentes Truman Show e Preso na Escuridão – este depois adaptado pelo cinema americano em 2001 com Vanilla Sky.

Esta lista também desmistifica, de certo modo, o argumento de que os filmes de FC são, na média, de baixa qualidade. Ou até como um produto mais concreto da indústria cultural norte-americana. Claro que podemos dizer que a maioria dos filmes de FC é ruim, que em comparação com a literatura ficam abaixo. Mas também que em seus melhores momentos apresentaram obras do mais alto nível e relevância artística e social. Seria possível mesmo montar outra lista de 50 sem que houvesse muita perda de qualidade. Além das adaptações de obras de escritores de FC outro indicativo são os diretores de cinema que se interessaram pelo gênero. Gente como Fritz Lang, Robert Wise, Roger Corman, Jean-Luc Godard, François Truffaut, Stanley Kubrick, Andrey Tarkovsky, Rainer Werner Fassbinder, George Lucas, Steven Spielberg, Ridley Scott, John Carpenter, David Cronenberg, Terry Gillian. Este conjunto de realizadores de prestígio mostra, por si mesmo, que a FC no cinema atinge em seus melhores momentos, um nível tão expressivo de relevância quanto qualquer outro gênero.

***

Nesta segunda parte abordaremos os possíveis filmes de maior destaque nestas primeiras duas décadas do século XXI. Reconheço que esta tentativa é ainda mais especulativa do que a primeira, pois o tempo de análise da relevância de uma obra é menor. Em todo caso acredito que já é possível ao menos indicar os filmes de FC importantes dos últimos anos, e que comparados aos do século anterior não fazem feio.

Novamente aqui a ordem é cronológica e teve por base os mesmos critérios da primeira lista. Os Estados Unidos produziram 14 filmes, seguidos pelo Reino Unido com 3, a França com 2 e a África do Sul com um. Na verdade de forma cada vez mais acentuada os filmes têm sido produzidos em vários países. Seja para reduzir os custos, seja para incorporar artistas talentosos junto ao cinema anglo-americano. Assim vários diretores têm trabalhado junto ao cinema produzido nos EUA: John Woo (China), Alfonso Cuarón (México), Michel Gondry (França), Neill Blomkamp (África do Sul), Ari Folman (Israel), Joon-Ho Bong (Coréia do Sul) e Dennis Villeneuve (Canadá). Isso sem falar nos britânicos Ridley Scott, Duncan Jones e Michael Winterbottom. E não esqueçamos do diretor brasileiro José Padilha, que em 2014 dirigiu nos EUA a refilmagem de Robocop.

Eis os eleitos:

2001: A.I. Inteligência Artificial (A.I. Artificial Intelligence, EUA), de Steven Spielberg
2002: Extermínio (28 Days Later, UK), de Danny Boyle
2003: Código 46 (Code 46, UK), de Michael Winterbottom
2003: O Pagamento (Paycheck, EUA), de John Woo
2004: Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, EUA), de Michel Gondry
2006: Filhos da Esperança (Children of Men, EUA), de Alfonso Cuarón
2006: Renaissance (Renaissance, França), de Christian Volckman
2008: Wall-E (Wall-E, EUA), de Andrew Stanton
2009: Avatar (Avatar, EUA), de James Cameron
2009: Distrito 9 (District 9, África do Sul), de Neill Blomkamp
2010: Lunar (Moon, UK), de Duncan Jones
2013: O Congresso Futurista (Le Congrès, França), de Ari Folman
2013: Ela (Her, EUA), de Spike Jonze
2013: Elysium (Elysium, EUA), de Neill Blomkamp
2013: Expresso do Amanhã (Snowpiercer, EUA), de Joon-Ho Bong
2013: Gravidade (Gravity, EUA), de Alfonso Cuarón
2013: Oblivion (Oblivion, EUA), de Joseph Kosinski
2014: Interestelar (Interestelar, EUA), de Christopher Nolan
2015: Perdido em Marte (The Martian, EUA), de Ridley Scott
2016: A Chegada (Arrival, EUA), de Dennis Villeneuve

Depois de uma década de 1990 fraca em comparação com as décadas precedentes – com apenas cinco filmes incluídos entre os 50 melhores –, o cinema de ficção científica deu um novo salto de qualidade nestas duas primeiras décadas do século XXI. De forma geral tem sido produzidos filmes mais dramáticos em termos de interpretação, ousados em termos temáticos e com um grau de crítica social e política que chega a surpreender. O cinema de FC deste novo século voltou a ser produzido para um público mais maduro ou socialmente engajado.

Elysium (2013)

Os problemas contemporâneos, como aquecimento global, mazelas do capitalismo globalizado, ameaças cósmicas ou biológicas à sobrevivência da humanidade, a crescente interação entre o mundo real e o virtual – que inclui os andróides, clones e inteligências artificiais – têm renovado o argumento da FC como grande meio de discussão de temas vitais que afetam a humanidade em sua totalidade.

Numa tendência já vista há algum tempo na literatura de FC, o cinema se enriqueceu com uma perspectiva multicultural, como apontamos linhas acima, a partir da quantidade expressiva de diferentes nacionalidades de diretores. Além disso, de forma mais relevante, com o acréscimo de novas perspectivas para a discussão de temas importantes relacionados com globalização, exclusão política e cultural, imperialismo, terrorismo e crise das instituições democráticas etc. Filmes como Código 46, Filhos da Esperança, Avatar, Oblivion e Expresso do Amanhã são referências significativas. Isso sem falar da sensibilidade a problemas sociais mais próximos das realidades de países periféricos, como as desigualdades socioeconômicas, racismo, xenofobia, e exclusões sociais vistas, principalmente, em Distrito 9 e Elysium. Dois filmes com uma especulação arrojadamente marxista.

Oblivion (2013)

Temas mais tradicionais da FC também foram filmados de forma impactante, como Interestelar, Lunar, Gravidade e Perdido em Marte. Especulação científica e dramaticidade em grandes doses, com renovados sentimentos de sense of wonder. E tem havido espaço até para histórias mais intimistas, como nos surpreendentes Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças e Ela, ambos vencedores do Oscar de Melhor Roteiro Original.

Três dos vinte filmes são animações, e longe de serem infantilizados. Renaissance, que discute o poder descontrolado de uma corporação numa Paris hipertecnológica e desumanizada; o cenário pós-apocalíptico do ecológico Wall-E; e o contundente retrato de um mundo sem referências, imerso num consumismo niilista eivado de doenças e drogas de O Congresso Futurista – uma livre adaptação do romance de Stanislaw Lem.

Por falar em adaptação literária vale ressaltar que um autor de FC, em particular, tem se tornado uma referência para adaptações no cinema: Philip K. Dick. Se nos anos 8 e 90 tivemos dois grandes filmes a partir de sua obra: Blade Runner (1982) e Vingador do Futuro (1990), neste novo século ao menos três podem ser citados como obras importantes: Minority Report: A Nova Lei (2002), O Homem Duplo (2007) e O Pagamento (2004) – este último incluído na lista acima. Talvez porque Dick tenha antecipado questões muito contemporâneas, como a corrosão do caráter individual numa sociedade materialista e consumista; da busca por uma espécie de redenção existencial nas drogas e nas religiões; e uma crescente e perturbadora ambiguidade sobre os limites do que percebemos como realidade. Desconfio que sua influência permanecerá no cinema nos anos à frente.

Podemos louvar este ganho de qualidade temática e crítica social sem perder de vista – e isto também é positivo – de que ao menos os melhores filmes de FC da atualidade continuam sendo grandes espetáculos de entretenimento. E o melhor: sem subestimar a inteligência do espectador, mostrando ser possível equilibrar histórias inteligentes e que divertem.

Se a lista dos 50 melhores filmes de FC do século XX é mais consolidada quanto às suas certezas, a dos filmes das duas últimas décadas leva uma carga maior de gosto pessoal e aposta no que poderá se tornar um clássico, daqui a 20, 50 anos – como disse antes. Mas independentemente de um ou outro filme resistir ao teste do tempo todos tem grande chance de se manter nos quesitos qualidade da produção e relevância do tema abordado. Mais que suficiente para que sejam apreciados por si mesmos e, principalmente, pelo que nos podem dizer sobre este século XXI, que tem se revelado cada vez mais incerto para o destino da humanidade.

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1 Comentário

  1. Wendell de Oliveira

    Bela lista! Senti falta de Terror no Espaço, que também ganhou a tradução de Planeta dos Vampiros, obra do Mario Bava. Inclusive Alien bebeu e muito dessa fonte…. Os meus prediletos até hoje são Stalker, Solaris e 2001.

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